Um Joe Johnson a menos

Quando o Brooklyn Nets mandou Joe Johnson embora a troco de nada (a não ser uma pequena economia, já que Joe Johnson aceitou receber 3 milhões a menos do seu contrato de 24 milhões como “incentivo” para ser liberado), cogitou-se que o time iria afundar de vez. Se o time já era o terceiro pior time da NBA com ele (na frente apenas de Sixers, Lakers e Suns), imagina sem ele. Não que Joe Johnson seja, hoje, uma grande estrela que carregue o Nets nas costas, claro. Seu contrato gordíssimo atual ainda é resquício de uma época em que Joe Johnson era visto como um dos jogadores mais completos da NBA, uma máquina de pontuar que precisava apenas da oportunidade certa para liderar um time rumo a um título. Essa promessa nunca se realizou, seu estilo de jogo nunca foi capaz de decidir jogos sozinho, a oportunidade não se concretizou e Joe Johnson foi rebaixado ao numeroso grupo de jogadores talentosos-porém-esquecíveis – e ao seleto grupo de piores contratos da NBA. Ainda assim, Joe Johnson era um dos últimos bastiões de talento e versatilidade numa equipe completamente carente de qualquer coisa, de um jogador capaz de fazer a diferença, de um futuro, de um chamego. Sem ele, o que restaria?

Minha previsão inicial foi de que o Nets não sentiria NENHUMA diferença sem ele em quadra, e até agora foi exatamente o que aconteceu. Nas 16 partidas sem Joe Johnson até agora, o Nets ganhou 6 – um aproveitamento de 37%, ligeiramente superior aos 30% que possuem ao longo da temporada. No lugar de Joe Johnson, o Nets deu minutos para jogadores SUPER FAMOSOS como Shane Larkin, Sergey Karasev e Sean Kilpatrick, jogadores que são uma cuspida na cara do BOM SENSO toda vez que passam mais de 20 minutos numa quadra de basquete. E mesmo assim, olha lá, deu tudo na mesma. Será que Joe Johnson está no mesmo nível desses pseudo-jogadores?

O motivo de que eu tenha achado que o Nets não sofreria sem Joe Johnson não é sua habilidade ser equivalente aos Shane Larkins da vida, mas simplesmente o fato de alguns jogadores serem reféns de certos esquemas táticos. Acredito que qualquer jogador minimamente razoável colocado num esquema tático desenhado exclusivamente para fazê-lo pontuar é capaz de gerar uns 20 pontos por jogo – motivo pelo qual qualquer jogador que assumia a armação do Utah Jazz comandado por Jerry Sloan gerava uma quantidade surreal de assistências. Da mesma maneira, um jogador sensacional, se colocado num esquema tático restritivo que só lhe permita fazer poucas coisas em quadra, parecerá muito mais limitado do que o é de verdade. É por isso que o protagonismo dos jogadores e os números que conseguem em quadra podem ser muito enganosos: é a MANEIRA como essas coisas ocorrem que nos aponta um conhecimento verdadeiro. Outros jogadores, nas mesmas condições, teriam esse mesmo rendimento? Dentro das limitações do esquema, faz diferença quem ocupar a posição em quadra? Esse é o tipo de pergunta que nos dá indícios do potencial de um jogador e do esquema tático em que ele está inserido.

[image style=”” name=”on” link=”” target=”off” caption=”Dada a oportunidade certa, Joe Johnson sabe até levitar”]http://bolapresa.com.br/wp-content/uploads/2016/03/Joe.jpg[/image]

O caso do Joe Johnson é emblemático: de que adianta um jogador versátil, capaz de arremessar do perímetro, infiltrar, jogar de costas para a cesta, com boa visão de quadra e capacidade de encontrar espaços para os companheiros se a função que ele desempenha é simplesmente espaçar a quadra para o Brook Lopez ou forçar individualmente contra seus marcadores? Nessa função Joe Johnson é obrigado a arremessar de fora mais do que seu talento recomendaria, enquanto suas outras habilidades são completamente inúteis. Não há ninguém cortando para a cesta para que ele possa acionar com um passe esperto; não há espaço para ele forçar um jogador para dentro do garrafão se embaixo do aro há um pivô enorme, e nenhuma ajuda em caso de dupla marcação. Para fazer o que o Joe Johnson faz no Nets, qualquer armador com um arremesso médio basta. É um daqueles casos de dinamite para abrir uma porta destrancada: o serviço é feito, claro, mas é um desperdício de dinamite quando qualquer mané consegue usar uma maçaneta.

No Heat, em que o sistema tático exige uma série de cortes, passes nas costas da defesa embaixo da cesta, jogadores de garrafão espaçando a quadra no perímetro, armadores fazendo corta-luz um para o outro para abrir ataques à cesta e jogadas de costas no garrafão, um jogador comum fica completamente perdido e faltam-lhe habilidades para realizar tudo que lhe é exigido. O esquema tático do Heat é complexo, leva tempo para se acostumar, e quando alguém não se movimenta direito o resultado é um desastre completo. Joe Johnson chegou no Heat e jogou no mesmo dia, passou 30 minutos em quadra, contribuiu imediatamente, aprendeu a rotação e tem habilidades para satisfazer todos os critérios necessários para sua posição. Por vezes arma o jogo, por outros torna-se arremessador, raramente até ocupa o garrafão como um mini ala de força.

Não dá para se esperar que Joe Johnson seja uma força da natureza, daquelas que coloca o jogo no bolso. Quem achou isso caiu na pegadinha, gastou quase 30 milhões por temporada e ficou chupando o dedo. Mas dá pra se esperar que ele tenha um impacto gigante no jogo simplesmente porque possui um leque de habilidades gigante que o torna ideal para fazer funcionar alguns raros esquemas táticos. Erik Spoelstra já fez alterações no esquema na primeira semana para poder fazer melhor uso do repertório do Joe Johnson, já que o esquema original havia sido adaptado para jogadores com menos versatilidade e quadra. O resultado é que desde que ele chegou em Miami, o Heat venceu 11 partidas e perdeu apenas 4 – até o fim da temporada, é bem provável que Joe Johnson tenha vencido mais jogos com o Heat nessa temporada do que venceu com o Nets, que ganhou apenas 15 jogos e perdeu 42 vezes.

[image style=”” name=”on” link=”” target=”off” caption=”Iguodala recebe o prêmio de boné mais torto da NBA”]http://bolapresa.com.br/wp-content/uploads/2016/03/Iggy.jpg[/image]

O caso de Joe Johnson é parecido com o de Andre Iguodala. O Sixers passou um tempão achando que Iggy seria a grande estrela que reconstruiria a equipe, alguém que venceria jogos, a base de um time campeão. Não que ele não seja bom, pelo contrário, Iguodala é simplesmente espetacular, mas achar que ele irá liderar um time é tentar encaixar um círculo no buraco de um quadrado. As habilidades de Iguodala o tornam um jogador único: ele é competente em todos os elementos do jogo de basquete, excepcional na defesa e tem uma visão de quadra raríssima. Para fazer uso de todo esse arsenal não basta colocá-lo na função de uma estrela pontuadora, nem enfiá-lo de coadjuvante na zona morta para ficar acertando arremessos. Apenas um esquema de jogo complexo, construído com ele em mente, pode lhe dar uma função que só ele seja capaz de desempenhar – e aí sim impactar o jogo de uma maneira realmente vencedora. O Warriors faz isso razoavelmente bem com Iguodala – ainda acho que ele é mais limitado pelo esquema do que seria razoável – e o resultado foi ver esse jogador esquisito, que muitos taxaram de “bomba” quando não carregou o Sixers sozinho, ganhar o prêmio de “MVP das Finais” no título da temporada passada. Joe Johnson pode ir na mesma linha: se o Heat chegar longe nos playoffs, veremos como ele impacta o jogo de uma maneira menos convencional do que estamos acostumados. Tudo porque Spoelstra sabe desenhar esquemas para seus jogadores, ao invés de delegar cargos menores para gente que poderia render muito mais. Talvez isso explique um pouco a decisão de Joe Johnson de ir jogar no Heat: cansado de ser refém de um esquema que lhe tornava um arremessadorzinho qualquer, escolheu a situação em que poderia enfim ser usado ao máximo sem que lhe encaixassem numa situação de liderança como o Hawks tentou – círculo em buraco de quadrado.

Mesmo com minhas reclamações famosas sobre Dwight Howard, acredito que seu tempo no Rockets entra exatamente nesse mesmo caso, o de refém de luxo. Querendo jogar um basquete moderno, veloz, no perímetro e na linha de lances livres e sem um pivô dominante, o Rockets só pegou Howard porque ele era bom demais – e disponível demais – para ignorar. Mas todo o potencial e capacidade do Howard (que eu acho limitada, embora nem tanto) são usados apenas para pegar meia dúzia de rebotes e desviar alguns arremessos no esquema pré-definido do Rockets. Qualquer outro pivô razoável poderia desempenhar o mesmo papel, com graus bem similares de sucesso. Se o Rockets mandasse Howard embora, como o Nets fez com Joe Johnson, acho que o time sentiria muito pouco sua ausência. Por outro lado, algum time disposto a dar-lhe um papel adequado às suas habilidades poderia se surpreender com sua eficiência – muito mais do que o Magic, que foi com Howard para uma Final da NBA mas tentou fazer dele uma potência ofensiva, mesmo erro do Hawks com Johnson. O que não falta na NBA é time enfiando círculos em buracos quadrados. E é por isso que devemos julgar com cautela, e aplaudir Joe Johnson pela decisão que o libertou: vencendo ou perdendo um título nos playoffs, ele é finalmente tudo aquilo que pode ser, e isso não é pouca coisa.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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