Uma nova casa para Anthony Davis

Quando Kevin Durant saiu do Oklahoma City Thunder para se unir ao Golden State Warriors, a NBA entrou em p√Ęnico. Times pequenos passaram a temer perder suas raras estrelas para times j√° consolidados ou, pior, J√Ā CAMPE√ēES. Caso um time n√£o seja capaz de dar ao seu jogador condi√ß√Ķes para lutar por um t√≠tulo em cerca de oito temporadas, as chances de que ele abandone a equipe em busca de situa√ß√Ķes melhores √© gigante. Isso se d√° porque jogadores muito bons tendem a cumprir seu contrato de novato e imediatamente fazer uma extens√£o milion√°ria. Ao fim desse per√≠odo, em geral, j√° viram seu time passar¬†pelo processo de reconstru√ß√£o e tentar trazer refor√ßos de peso para lutar por um t√≠tulo. Caso nada disso tenha funcionado, o jogador se sente no direito de procurar “lugares melhores”. O problema √© que essa janela de tempo normalmente significa que o jogador abandona o time em que foi draftado justamente no melhor momento da sua carreira, e quando os times que os escolheram j√° fizeram comprometimentos demais de longo prazo com outras pe√ßas para tentar convencer suas estrelas a ficar. Na pr√°tica, assim que um time ruim escolhe uma jovem estrela na noite do draft, um rel√≥gio de OITO ANOS come√ßa a correr na cabe√ßa da diretoria: se o time n√£o for um dos melhores da NBA ao fim desse per√≠odo, a estrela possivelmente partir√° para um time melhor e outro processo de reconstru√ß√£o ter√° in√≠cio.

Em 2017 tivemos a negocia√ß√£o de um novo contrato entre a Associa√ß√£o dos Jogadores da NBA e a Liga, algo que precisa ser feito periodicamente para que jogadores e times possam fazer altera√ß√Ķes nas regras¬†salariais e deixar todo mundo feliz. Nessa √ļltima negocia√ß√£o (que n√≥s explicamos com detalhes na √©poca em¬†um podcast especial para nossos assinantes), surgiu uma nova regra para tentar impedir esse ciclo de abandono de times, informalmente chamada de “Regra Kevin Durant” ou “Durant Rule”: se uma estrela (algu√©m eleito para o “All-NBA Team”, o melhor quinteto da Liga; eleito MVP; ou ent√£o eleito Melhor Defensor do Ano) chegar ao fim de sua primeira extens√£o de contrato (ou seja, terminar efetivamente seu segundo contrato) com o time que a draftou, sua pr√≥xima extens√£o pode ser de at√© 35% do teto salarial, ou seja, um sal√°rio ABSURDAMENTE GIGANTE que nenhum outro time pode oferecer, apenas o time atual. O contrato, apelidado de “super-m√°ximo” e que a gente gosta de chamar de POTE DE OURO, deveria ser suficiente para convencer estrelas no auge a continuarem com suas equipes, dar aos times “mais uma chance” e impedir a forma√ß√£o de super-equipes com jogadores que foram “criados” em times menores. Se a regra tivesse sido estabelecida alguns meses antes, por exemplo, Kevin Durant teria uma oferta supostamente IRRECUS√ĀVEL do Thunder para ficar e, na cabe√ßa dos engravatados, n√£o teria se juntado ao Warriors.

O primeiro jogador a ter a chance de assinar um desses contratos gigantes seria DeMarcus Cousins, que estava no Kings na √©poca. Depois de 7 anos de fracasso em Sacramento (que viu seis t√©cnicos diferentes tentarem assumir a bomba), Cousins chegaria naquele momento de querer jogar por um time “de verdade” e o Kings poderia lhe oferecer um pote de ouro para convenc√™-lo a ficar. Foi a√≠ que o Kings, ent√£o, trocou Cousins sem pensar duas vezes. Foram eles que n√£o quiseram comprometer 35% do seu espa√ßo salarial com o jogador, um investimento alto demais para um time que n√£o tinha reais chances de coisa alguma, e que retiraria flexibilidade salarial necess√°ria para construir alguma coisa minimamente digna em Sacramento. Foi o primeiro momento em que vimos a regra atirar pela culatra e PREJUDICAR financeiramente uma equipe a ponto dela ativamente preferir trocar sua estrela ao inv√©s de tentar mant√™-la.

Agora vemos mais uma vez o POTE DE OURO falhar. Anthony Davis, atualmente em sua s√©tima temporada, teria mais um ano¬†de contrato com o Pelicans mas poderia, ao fim da temporada, assinar uma extens√£o super-m√°xima. Caso ele recusasse, a mensagem seria clara: ao escolher n√£o aceitar aquilo que seria o MAIOR SAL√ĀRIO DA HIST√ďRIA DO BASQUETE, indicaria que n√£o tem qualquer interesse de ficar no Pelicans e o time teria, ent√£o, uma temporada inteira para troc√°-lo. Acontece que Anthony Davis resolveu avisar agora, j√°, now, que n√£o est√° interessado no pote de ouro. A recusa √© de (respira fundo) duzentos e quarenta milh√Ķes de d√≥lares por 5 temporadas, quase 50 milh√Ķes de¬†dinheiros por temporada. Para Anthony Davis, o dinheiro n√£o¬†foi suficiente para convenc√™-lo a ficar no Pelicans at√© seus 30 anos de idade. Paira sobre todos os jogadores o¬†assustador (e barulhento) fantasma de Kevin Garnett, que s√≥ foi ter sua primeira real chance de t√≠tulo ao ser trocado aos 31 anos de idade, depois de uma carreira lend√°ria num Wolves imprest√°vel, e que¬†√© muito vocal sobre a BURRADA que foi ter levado tanto tempo para mudar de time. A atual gera√ß√£o tem medo de ser esquecida em times irrelevantes e quer times bons imediatamente – quer dizer, imediatamente depois de 8 anos de espera, claro.

A recusa de Anthony Davis, no entanto, n√£o foi uma grande surpresa. Davis j√° havia dito que tomaria a decis√£o sem levar em conta o pote de ouro, pesando apenas o que seria melhor para “sua carreira”. Jrue Holiday j√° havia afirmado publicamente que Davis deveria aceitar o contrato simplesmente porque era “um dinheiro capaz de transformar vidas para sempre”, mas Julius Randle alertou o companheiro, atrav√©s da imprensa, que ele deveria considerar antes de mais nada o que seria melhor para sua fam√≠lia – e que isso n√£o significava pensar no dinheiro em primeiro lugar. Dadas as dificuldades do Pelicans em chegar longe na NBA nos √ļltimos anos, a recusa de manter DeMarcus Cousins na equipe (o que, segundo Cousins, deixou Anthony Davis “magoado e frustrado”) e o fato de que nesse momento o time estaria longe de chegar aos Playoffs, faz muito sentido que Davis n√£o queira ficar. Surpreendente mesmo foi a MANEIRA com que a recusa do contrato m√°ximo aconteceu.

Ao inv√©s de informar o time internamente, como seria o comum, o agente de Anthony Davis resolveu anunciar a recusa para a imprensa e, numa total falta de sutileza, emendar que a estrela estava pedindo uma troca – que j√° estava IMPL√ćCITA com a recusa para qualquer um que entendesse das quest√Ķes salarias da Liga. O pedido p√ļblico de troca n√£o apenas gerou uma multa para Anthony Davis (de 50 mil d√≥lares, numa tentativa de impedir que jogadores usem a imprensa para for√ßar trocas em cima de seus times) como tamb√©m deu in√≠cio a todo um processo de INVESTIGA√á√ÉO para ver se o Los Angeles Lakers n√£o quebrou, mais uma vez, a regra de tampering da NBA.

A regra de tampering diz que times n√£o podem conversar, negociar ou falar publicamente sobre contrata√ß√Ķes de jogadores que estejam em contrato com outros times. O Lakers tomou duas multas recentes, uma por¬†Magic Johnson,¬†presidente da equipe, ter¬†elogiado publicamente¬†Giannis Antetokounmpo, e outra pelo¬†General Manager do Lakers ter tido conversas com o agente do Paul George antes do per√≠odo de negocia√ß√£o dos jogadores. Dessa vez, a quest√£o √© mais complicada: o agente de Anthony Davis √© Rich Paul, agente (e amigo pessoal) de LeBron James. Some isso ao fato de que Anthony Davis disse, supostamente, que d√° prefer√™ncia para uma troca para o Lakers e temos aqui ind√≠cios de que uma negocia√ß√£o ocorreu nos bastidores,¬†atrav√©s de Rich Paul e possivelmente envolvendo os engravatados da equipe de Los Angeles. Anthony Davis poderia ter esperado o final da temporada para avisar que recusaria o contrato super-m√°ximo, mas alegou preferir avisar agora porque “quer o melhor para si e para o Pelicans”, supostamente dando mais tempo para o Pelicans se preparar. O an√ļncio, entretanto, pode ter levado em considera√ß√£o a vontade de ser trocado imediatamente para o Lakers e conversas com os executivos de l√° sobre o time de Los Angeles ter melhores chances de conseguir trocar por ele agora ao inv√©s de no final da temporada.

Para entender o motivo do Lakers ter mais chances agora √© preciso entender outra regra salarial da NBA, informalmente chamada de “Regra Derrick Rose”, ou “Rose Rule”. Na pr√°tica, ela funciona como o “super-m√°ximo”, mas para jogadores que acabaram de sair de seus contratos iniciais de novatos: se o jogador assina uma extens√£o com o time que o draftou (e √© uma estrela “comprovada”, ou seja, MVP, “All-NBA Team” ou Melhor Defensor do Ano), pode receber mais dinheiro do que receberia em outra equipe. Em teoria essa regra ajudaria times a n√£o perder seus novatos logo de cara, mas na pr√°tica nenhum novato t√£o bom assim foge do time antes de assinar uma extens√£o comum. A “Rose Rule” serve, na verdade, apenas para ajudar jogadores jovens muito bons a receber contratos mais condizentes com seu talento. A pegadinha, no entanto, √© que nenhum time pode ter mais do que um jogador com um contrato desses. Isso significa que enquanto Anthony Davis e Kyrie Irving n√£o assinarem contratos novos (o terceiro contrato de suas carreiras), os dois n√£o podem jogar juntos. Isso impede que o Boston Celtics, o time mais equipado para fazer QUALQUER troca na NBA, fa√ßa uma oferta por Davis.

O Celtics j√° mostrou, com a troca por Gordon Hayward, que n√£o tem receio nenhum em adicionar super-estrelas sempre que poss√≠vel. O que temos l√° em Boston √© o √ļnico processo de reconstru√ß√£o do planeta que j√° deu certo, j√° montou um tima√ßo e mesmo assim NUNCA TERMINA: o time continua com um estoque intermin√°vel de escolhas de draft de outros times, toneladas de veteranos com contratos gordos para enviar e d√ļzias de jovens jogadores com potencial que o time SEQUER PRECISA. Para o pr√≥ximo draft, o time tem a escolha do Kings, do Grizzlies, do Clippers e a pr√≥pria escolha – n√£o tem nem onde ENFIAR tanto moleque assim. Trocar por Anthony Davis tornaria o Celtics uma pot√™ncia assustadora, e para isso o time precisaria se livrar de pe√ßas que n√£o s√£o essenciais: possivelmente Gordon Hayward (que ainda tem 28 anos e seu talento est√° ofuscado pela volta de les√£o), um dos seus jovens talentos que batem cabe√ßa por minutos (Jayson Tatum ou Jaylen Brown) e um pacote de escolhas de draft. Algo nesses moldes seria a troca mais proveitosa para um time em reconstru√ß√£o em D√ČCADAS e daria ao Pelicans um terreno bem s√≥lido para se firmar, enquanto tornaria o Celtics um candidato ainda mais s√©rio ao t√≠tulo nos pr√≥ximos anos. Todos os times da NBA tentar√£o enviar pacotes para o Pelicans – sim, Anthony Davis √© bom NESSE N√ćVEL e qualquer time deveria se desintegrar pela chance de t√™-lo – mas √© evidente que ningu√©m conseguir√° mandar nada t√£o interessante quanto o Celtics poder√° mandar assim que Kyrie Irving assinar seu pr√≥ximo contrato.

Isso significa que se o Pelicans quiser esperar a oferta do Celtics, basta aguardar pelo encerramento da temporada, o novo contrato de Irving e a√≠ receber o pacot√£o de maravilhas que vir√£o de Boston. Para ir para qualquer outro lugar (como o Lakers, por exemplo), o Anthony Davis precisa tacar na cabe√ßa do Pelicans algum tipo de SENSO DE URG√äNCIA, um comich√£o pela ideia de ter um time novo agora mesmo, ganhar tempo de treino e entrosamento, sonhar com ir para os Playoffs desde j√° com a molecada que vier ou algo desse g√™nero. Precisa contar tamb√©m, claro, com o Lakers oferecendo AT√Č AS CAL√áAS num pacote apetitoso o bastante para o Pelicans achar que o do Celtics n√£o seria t√£o melhor assim. S√£o cen√°rios complicados, improv√°veis, e que o Pelicans desde o primeiro minuto resolveu mergulhar num BALDE DE √ĀGUA FRIA ao dizer publicamente que trocaria Davis “no seu ritmo,¬†respeitando as necessidades do time e n√£o press√Ķes externas”. H√° pouca raz√£o para correria, especialmente num time que tem arquibancadas relativamente vazias e, portanto, pouca press√£o da torcida.

Os √ļltimos pedidos de troca para o Lakers, inclusive, foram todos por √°gua abaixo: Paul George queria ir para Los Angeles, mas foi trocado para o Thunder e desde ent√£o resolveu ficar por l√°, enquanto Kawhi Leonard tamb√©m preferia o mesmo destino e foi parar l√° no Canad√°. Anthony Davis pode sofrer¬†a mesma situa√ß√£o: tramou um plano elaborado, planejou o timing perfeito para pressionar o Pelicans, e pode ir parar num time que n√£o era seu¬†alvo ideal – e sem o pote de ouro, vejam s√≥. Por mais que os pedidos de troca pare√ßam dar aos jogadores muito poder, os times ainda podem decidir o que fazer com suas estrelas, trocando-as para onde acharem melhor no ritmo que mais lhes for conveniente. O que os times n√£o podem, entretanto, √© deixar de criar equipes competitivas ao redor de suas jovens estrelas. Independente do pote de ouro, o rel√≥gio de 8 anos est√° sempre correndo assim que as jovens estrelas s√£o draftadas: lhes d√™ condi√ß√Ķes de t√≠tulo ou passe a se preocupar com cen√°rios de troca e manchetes de jornal, arrumando uma nova casa para a estrela que voc√™ ajudou a criar. As regras salariais s√£o simplesmente incapazes de impedir o desejo dos jogadores por vit√≥rias, p√≥s-temporada, relev√Ęncia, t√≠tulos e tudo aquilo que envolve os times de elite da NBA. √Äs equipes, s√≥ resta responder a isso com planejamento e efici√™ncia: vencer ainda √© mais efetivo do que oferecer contratos milion√°rios.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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