Verdades incômodas

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“LeBron, sua mamãe é mais durona do que você!”

Na partida de ontem, a torcida do Celtics enfrentou o tipo de indecisão que só acontece em time campeão: pra quem direcionar o coro de “MVP”? No começo do jogo, o canto foi para Kevin Garnett, como em todo o restante da temporada. Ele é a alma defensiva do time, ele quer vencer acima de tudo, ele sangra na quadra, ele motiva sua equipe inteira. Foi para a linha dos lances livres no Jogo 7 e os torcedores choveram berros de “MVP” pra ele, talvez ainda achando que o Kobe vai desistir do prêmio.

Mas a cada minuto que se passava, a cada cesta acontecida, a cada mudança de placar, ficava mais e mais óbvio que Garnett não era o jogador mais importante daquela budega. Quando Paul Pierce foi cobrar seus lances livres no quarto período, já se aproximando dos 40 pontos, a torcida verde finalmente percebeu quem mandava naquela carroça. Gritaram “MVP” para o Pierce mas de forma tímida, discreta, descompassada, tipo quando os funcionários vão cantar “parabéns pra você” pro chefe e cada um começa a música numa hora, fica fora de ritmo, ninguém acerta o bater das palmas e fica aquele clima chato, constrangedor. A torcida do Celtics parecia envergonhada de ter que tirar o falso prêmio das mãos de Garnett e correr o risco de ferir seus sentimentos, pareceu constrangida de ser pega em flagrante idolatrando Paul Pierce só no jogo em que ele enfia 40 pontos, e o resultado foi uma situação embaraçosa. O ginásio logo parou de gritar MVP para acabar com o clima estranho, mas o amor por Paul Pierce não diminuiu em nada. Foi dele, sem dúvida alguma, a glória da vitória.

Poder gritar “MVP” para dois jogadores diferentes em sua equipe é coisa para poucos. Se a torcida do Cavs não gritar para o LeBron, vai gritar pra quem? Pro Damon Jones? E, no fundo, foi isso que mais pesou na partida. LeBron James teve mais uma daquelas partidas insanas, digna da cópia destruidora dele próprio que ele guarda para as ocasiões especiais. Soube ajustar o jogo e bater pra dentro quando precisava e arremessar de fora quando necessário, com sucesso mediano de trás da linha de 3 pontos mas infinitamente superior ao que vinha conseguindo no resto da série. Do outro lado, Paul Pierce tornou o jogo um duelo épico, um confronto digno de contar para os netos, tomando conta da quadra e fazendo cestas quando e como deu na telha. Deu pra lembrar dos bons e velhos tempos em que Pierce, enfrentando o Pacers num Jogo 7, não conseguia errar uma cesta nem a pau e começou a bater bola para cima dos marcadores falando em voz alta: “You can’t stop me” ou, em tradução bem literal, “vocês nunca poderão me deter, bwa-ha-ha-há!” E se os dois carregaram seus times nas costas, o que decidiu mesmo foi aquele bando de coadjuvantes em quadra.

O lance de ter uma vida interessante é saber editar. Quando seus netos perguntarem como foi sua vida, não diga que sua internet era discada e caía o tempo inteiro, não diga que ficava no chat da UOL, não conte que assistiu Bobcats e Bucks na internet, e nem fale sobre os primeiros 6 jogos da série entre Cavs e Celtics. Conte sobre o Jogo 7, fale sobre os 45 pontos de LeBron James e os 41 de Paul Pierce. Mas não conte de forma alguma quem realmente acabou decidindo o jogo: PJ Brown. Enquanto o Cavs via Damon Jones, Pavlovic e Ilgauskas errando bilhões de arremessos livres que teriam dado ao LeBron a soma de pelo menos 4.000 assistências na partida, pelo Celtics o vovô PJ Brown pegava rebotes ofensivos decisivos e acertava os arremessos nas horas mais cruciais da partida. Pensar que caras como Damon Jones e PJ Brown foram decisivos quebra o clima da brincadeira, então só conte pros seus netos se você quiser que eles te coloquem pra jogar no time deles, dando o exemplo do PJ Brown que salvou o Celtics mesmo tendo se aposentado há umas duas décadas.

Aliás, o lance de tantos jogadores ruins terem tido a chance de decidir a partida de ontem mostra uma coisa sobre o jogo: as defesas federam. O que não faltou foram arremessadores livres dos dois lados da quadra, tudo graças a falhas de rotação, marcações equivocadas e uma brutal falta de concentração. Tantos arremessadores livres do Cavs não foi mérito do LeBron encontrando espaços, mas sim culpa da defesa patética do Celtics. O fato dos arremessos não terem caído também é culpa da falta de talento, aquele probleminha pequeno que muita gente costuma ignorar. Do mesmo modo, Ray Allen não acertava nem o próprio nome e não foi por falta de oportunidades. Na série marcada por ataques horríveis graças a supostas defesas muito fortes, o sétimo jogo revelou tudo: os ataques são horrendos mesmo, por natureza, e a defesa não tem nada a ver com isso. Kevin Garnett teve várias chances de matar o jogo e errou arremessos fáceis, desmarcado, incluindo um no minuto final que poderia ter rendido, em caso de derrota, seu Atestado de Maior Amarelão da NBA que atualmente está pendurado na parede do Nowitzki. Eu sempre defendi o Garnett e sua carreira nos playoffs, mas a verdade é que ultimamente ele não anda me ajudando a defendê-lo.

Ao fim da partida, tanto LeBron quanto Garnett saíram correndo da quadra, não se atrevendo a permanecer nem um segundo a mais. Os dois eram os maiores competidores presentes, os mais interessados em fazer história, em ganhar anéis. E os dois estão frente à uma verdade incômoda e óbvia: seus times não são bons o bastante.

O Cavs ainda é um dos piores e mais mal montados times da Liga, com o pior e mais despreparado técnico que já pisou na NBA. O Celtics tem um técnico mequetrefe, um ataque despreparado, e a constatação de que os veteranos que deveriam decidir (Cassel, Ray Allen, o próprio Garnett) não são capazes de render nos minutos finais. Para o LeBron, resta esperar um novo técnico e um elenco mais competente. Para o Garnett, resta encarar a verdade sobre si mesmo, e se perguntar: contra o Pistons, será Paul Pierce suficiente?

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