🔒 A carcaça vazia de Carmelo Anthony

Mesmo tendo sido campeão universitário e eleito o melhor jogador do torneio, Carmelo Anthony não foi cotado para a primeira escolha do draft de 2003. LeBron James, vindo direto do Ensino Médio, era a escolha unânime porque parecia ter “potencial ilimitado” e a febre pelo seu talento adolescente já havia tomado os Estados Unidos de ponta a ponta, com transmissões nacionais de suas partidas escolares. Ainda assim, na época, Carmelo Anthony era visto como um jogador mais maduro, mais perto de estar PRONTO, e esperava-se que ele tivesse sucesso na NBA bem antes de LeBron James ser capaz de alcançar seu próprio potencial. De certa maneira, foi isso que assustou o Detroit Pistons, dono da segunda escolha do draft em 2003: vindos de uma Final de Conferência, eles não queriam acrescentar um jogador que já parecia preparado para ser titular e demandaria minutos, o que poderia quebrar a incrível “química” que o time construíra na temporada anterior. Por isso o Pistons acabou escolhendo Darko Milicic, uma promessa europeia que poderia ficar no banco de reservas tranquilamente enquanto era preparada não para ajudar no presente, mas sim para constituir o futuro da franquia.

Carmelo Anthony caiu assim no colo do Denver Nuggets, que o draftou na terceira escolha daquele ano. Já era possível ali encontrar um padrão que se repetiria ao longo da carreira de Carmelo: mesmo quando era o jogador mais preparado para contribuir imediatamente, acabou ofuscado por outros nomes – fosse a promessa inegável de LeBron, fosse a promessa furada de Darko.

Logo em sua primeira temporada na NBA, Carmelo pegou o pior time da Liga (seu Denver Nuggets, que havia empatado em RUINDADE com o Cleveland Cavaliers mas perdido num sorteio o direito à primeira escolha do draft) e o arrastou para a oitava colocação e portanto os Playoffs da Conferência Oeste: o salto foi de 17 vitórias no ano anterior para 43 vitórias na temporada 2003-04. Ainda novato, liderou seu time com 21 pontos por jogo e não fez feio nos Playoffs, roubando um jogo das mãos do então líder da Conferência, o Minessota Timberwolves. Ainda assim, com números levemente mais impressionantes e jogadas de mais efeito, LeBron James foi eleito o Novato do Ano e lá estava Carmelo ofuscado mais uma vez.

Na temporada seguinte, Carmelo levou seu Nuggets à sétima colocação na Conferência Oeste, sendo eliminado mas roubando um jogo fora de casa contra o Spurs na primeira rodada dos Playoffs – tudo enquanto LeBron James ainda não havia visto a cor da pós-temporada. Na temporada seguinte o Nuggets foi campeão de sua Divisão, acabou a Conferência Oeste em terceiro lugar e Carmelo estava entre os cestinhas da Liga. Mas enquanto seu time foi eliminado novamente na primeira rodada, numa série pegada, outro jogador draftado no mesmo ano de Carmelo se sagrou campeão: Dwyane Wade, a quinta escolha em 2003. Os holofotes sempre estavam em outro jogador de sua “safra”, nunca nele.

Na temporada seguinte, Carmelo e seu Nuggets enfrentaram mais uma vez o Spurs nos Playoffs, roubaram mais uma vez o primeiro jogo fora de casa, e mais uma vez foram eliminados na primeira rodada – a quarta vez consecutiva para Carmelo. A diferença foi que, dessa vez, tiveram a ajuda de Allen Iverson, trocado para o Nuggets no meio da temporada. A má sequência não pararia por aí, entretanto: mesmo vencendo 50 jogos na temporada seguinte, o Nuggets de Carmelo e Iverson ficaria apenas com a oitava colocação numa temporada que viu um dos Oestes mais disputados de todos os tempos, e o time foi eliminado novamente na primeira rodada. Enquanto isso, LeBron James já havia alcançado uma Final da NBA enquanto Wade já havia conquistado seu primeiro título – e até Darko, um fracasso enorme na Liga, conseguira seu anel de campeão sentado no banco de reservas. Carmelo, no entanto, acumulava cinco eliminações na primeira rodada dos Playoffs e, além de ofuscado, já começava a ver toda a narrativa da NBA ao seu respeito transformando-se rapidamente.


Quando Carmelo Anthony chegou à NBA em 2003, a percepção da mídia e dos torcedores já estava começando a mudar a respeito de Allen Iverson. O armador havia levado um Sixers fraquíssimo às Finais da NBA em 2001, mas nas duas temporadas seguintes foi eliminado precocemente dos Playoffs. Na temporada 2003-04, a primeira em que Carmelo jogava como profissional, Allen Iverson sequer foi capaz de alcançar a pós-temporada, atolado em casos de “indisciplina” e diversas lesões. Na temporada seguinte, mesmo sendo mais uma vez o cestinha da NBA com mais de 30 pontos por jogo, Iverson foi eliminado na primeira rodada dos Playoffs e tornou-se claro que o projeto do Sixers simplesmente “não estava funcionando”. Quando Iverson foi então trocado para o Nuggets de Carmelo, já ganhava força a percepção de que pontuar – e no caso de Iverson, pontuar MUITO – não era suficiente. Acusações de que os maiores pontuadores eram “fominhas” e prejudiciais aos seus times, algo IMPENSÁVEL para a geração que viu Michael Jordan jogar, começaram a pipocar por todos os lugares. Passaram a surgir dados e números que indicavam, ainda que precariamente, que talvez esses grandes pontuadores estivessem atrapalhando seus times em outros aspectos. Era o começo da procura por “eficiência”, algo que levaria as estatísticas – e toda nossa compreensão do que é um jogo de basquete – a outro patamar. Allen Iverson, no entanto, havia passado a vida toda sendo julgado por outro critério, sob outra óptica: foi pego de surpresa e, de uma temporada em que era ovacionado, passou a ser visto com desconfiança e criticismo. Não demoraria muito para que ele passasse a ser visto como o modelo de tudo que estava errado com o jogo, um símbolo do “basquete ultrapassado” e de egoísmo, e sua carreira terminaria de forma súbita em poucos anos mesmo que ele estivesse em condições físicas de continuar jogando.

Essa estranha onda de ódio direcionada a Allen Iverson aconteceu especialmente na fase em que jogou pelo Denver Nuggets, e é claro que ela respingou em Carmelo Anthony. A união dos dois foi extremamente nociva para ambos em muitos sentidos diferentes. Primeiramente, os dois haviam acumulado fracassos nos Playoffs com a desculpa de que seus times não eram bons o suficiente, mas com os dois unidos era possível dizer que tinham um ao outro e, portanto, as derrotas se tornaram “inaceitáveis”. Além disso, não houve um trabalho técnico adequado para conciliar seus estilos de jogo, que eram muito parecidos e atrelados a uma época em que um jogador solitário era o motor principal de um sistema ofensivo. Por fim, ter os dois juntos tornava possível compará-los: se Iverson passou a ser associado a um estilo de jogo “vistoso mas perdedor”, era muito fácil transferir a alcunha para Carmelo e, de certa maneira, colá-la a todo o futuro do jogador.

As derrotas em jogos importantes levaram o público em geral a considerar Carmelo “amarelão”, alegando que ele arremessava sem critério nenhum, de maneira individual, e que nunca acertava arremessos relevantes. Trata-se de uma percepção equivocada: na verdade, desde que entrou na NBA, Carmelo é o líder em arremessos que viraram o placar nos últimos 5 segundos de um quarto período ou prorrogação – à frente de Kobe Bryant, por exemplo. Ele é na verdade o jogador mais bem sucedido em arremessos decisivos de toda sua GERAÇÃO, mas a PERCEPÇÃO do público foi completamente alterada pela ideia de que Iverson e Carmelo eram “farinha do mesmo saco”, jogadores pontuadores incapazes de vencer um título porque jogavam do “jeito errado”. Sem Iverson na temporada seguinte, Carmelo finalmente passou da primeira rodada e alcançou as Finais da Conferência Oeste, o que DESTRUIU a imagem de Iverson mas não fez muito para ajudar a ideia de que Carmelo perdia nas horas mais importantes. Na temporada 2009-10, o Nuggets voltou a regredir e foi mais uma vez eliminado na primeira rodada dos Playoffs mesmo com Carmelo fazendo 30 pontos por jogo – e uma partida de 42 pontos no processo. Foram 6 eliminações na primeira rodada em 7 temporadas, um currículo digno do Clippers.

Na temporada seguinte, LeBron James também havia se cansado de perder nos Playoffs e se juntou com outros dois jogadores da mesma classe de draft de Carmelo: Dwyane Wade, a quinta escolha, e Chris Bosh, a quarta escolha. Carmelo, ainda sob contrato, ficou de fora da brincadeira e se sentiu terrivelmente abandonado e, claro, ofuscado. Diversas fontes próximas a ele afirmam que Carmelo sempre foi apaixonado por estar nos holofotes, por ser admirado e apreciado, mas sua carreira se manteve à sombra e foi “impregnada” por Allen Iverson e a reviravolta na percepção do jogo. Talvez isso explique ao mesmo tempo o desespero de Carmelo por ser trocado naquela temporada, querendo novos ares enquanto LeBron e seus amigos iniciavam uma nova jornada no Miami Heat, e também seu desejo de jogar para o Knicks em New York, a cidade mais badalada de toda a NBA e que sonhava desesperadamente com uma grande estrela que os arrancasse do buraco em que se enfiaram por muitos anos.

Esse desespero de Carmelo por uma situação em que recebesse a atenção e a gratidão que julgava merecer levou a um enorme desastre: o Knicks se desmantelou para conseguir fazer uma troca por Carmelo (que poderia ter simplesmente assinado com a franquia na temporada seguinte, sem nenhuma peça perdida no elenco), o técnico Mike D’Antoni não sabia como acomodar o novo jogador e o desastre administrativo da franquia não facilitava as coisas. Em um momento difícil para o time, Carmelo assistiu, no banco graças a uma lesão, à equipe ser controlada pelo pirralho inesperado Jeremy Lin, que passou a estampar a capa de todas as revistas em sua meteórica ascensão ao cargo de salvador do Knicks. Não à toa, dizem que Carmelo e Lin nunca se bicaram nos vestiários, já que era Carmelo quem, em sua cabeça, deveria estar nas capas das revistas se tivessem lhe dado a liberdade tática que Lin teve naquelas poucas semanas de estrelato involuntário. Ainda assim os três primeiros anos de Carmelo em New York foram até que bem sucedidos, com a corriqueira exceção dos Playoffs: foram duas eliminações na primeira rodada e, enfim, uma eliminação na segunda rodada para quebrar a urucubaca. Na temporada seguinte, a 2013-14, as coisas pioraram ao invés de engrenar: o Knicks sequer chegou aos Playoffs e então o contrato de Carmelo se encerrou.

Nesse momento, as coisas já estavam feias para Carmelo: LeBron, Wade e Bosh haviam conquistado dois títulos juntos em Miami enquanto ele estava preso em uma situação muito complicada no Knicks. Mesmo que ele fosse, naquele momento, o pontuador mais versátil de toda a NBA e um dos melhores jogadores do planeta, a sensação era de que ele não era capaz de vencer em NENHUM SISTEMA, em NENHUM AMBIENTE, que ele era nocivo para equipes, técnicos e dirigentes – tudo porque a percepção do público estava mudando e os resultados de Carmelo não ajudavam a mudar sua imagem. Allen Iverson estava sendo CHUTADO para fora da NBA e Carmelo parecia ser seu “sucessor espiritual”, um jogador de um outro tempo, incapaz de vencer. Era preciso que Carmelo encontrasse uma nova casa, um sistema que funcionasse em definitivo para ele, se juntar aos seus amigos para vencer na pós-temporada e reconstruir a imagem geral a seu respeito. E foi aí que Carmelo ignorou tudo isso e num momento de FOGO NA CUECA renovou com o New York Knicks.


O que foi formalmente oferecido para Carmelo, nunca saberemos. Mas ao assumir o Knicks, Phil Jackson parece ter prometido para Carmelo uma relação como aquela que teve com Michael Jordan e com Kobe Bryant, algo nos termos “mentor-pupilo”, ajudando-o a tornar-se o melhor jogador que pudesse ser. Havia então um plano de reconstruir o Knicks e torná-lo uma POTÊNCIA, e certamente Carmelo era pensado como o alicerce dessa reconstrução. Imagino que Phil Jackson tenha oferecido para Anthony a chance de ser o homem que salvou o Knicks, ter sua camiseta aposentada no mais famoso ginásio do planeta, e redimir sua carreira com vitórias importantes sob a tutela de um dos técnicos mais vencedores de todos os tempos. Parecia burro, mas tentador.

O Knicks não havia sido um bom encaixe e havia outros times muito mais preparados para disputar um título igualmente interessados em contratar Carmelo (com um ascendente Chicago Bulls sendo o lugar mais óbvio), mas a GANÂNCIA de levar o Knicks a um título, ser apoiado por Phil Jackson e carregar ao topo um time horrível em reconstrução parecem ter falado mais alto. Foi a pior decisão da carreira de Carmelo, mas uma que julgo compreensível quando levamos em consideração todas as vezes em que ele foi ofuscado em sua carreira – e, claro, essa mão invisível que parecia querer empurrar o estilo de Carmelo para fora da NBA desde seu contato com a “queda” de Allen Iverson, como se ele tivesse “apodrecido” ao entrar em contato com seu estilo de jogo.

Esse seu segundo contrato com o Knicks, sob comando de Phil Jackson, foi um fracasso retumbante: nenhuma ida para os Playoffs, múltiplos técnicos, a imposição de um esquema tático (o “triângulo ofensivo”) que os jogadores odiavam e que parecia prejudicar o jogo de Carmelo, e um Phil Jackson descontrolado e meio caduco atacando seus jogadores na imprensa e abandonando Carmelo em todos os momentos de tensão. O auge físico de sua carreira foi desperdiçado na bagunça do Knicks; quando ele entrou em lenta decadência, o Knicks estava em reconstrução e já não tinha mais nenhum interesse nele. Sua época havia passado sem nenhum grande feito, poucos holofotes e baixa admiração.


Talvez os únicos a admirar Carmelo como ele desejava tenham sido os demais JOGADORES da NBA. Sua passagem pela seleção americana de basquete olímpico, por exemplo, é recheada de recordes: foram 4 Olimpíadas, 3 medalhas de ouro, e o primeiro lugar na história da seleção americana em pontos, rebotes, jogos disputados e participações olímpicas. Jogando entre os melhores sempre assumiu um papel de liderança, e mesmo nas Olimpíadas de 2016 – já longe de seu auge físico e técnico – só marcou menos pontos do que Kevin Durant, compartilhando com a jovem estrela o prêmio de melhor jogador da seleção naquele ano. Seu sucesso pela seleção foi tanto que colou à sua imagem a alcunha de “jogador FIBA”, como se ele brilhasse mais no basquete internacional do que na NBA. De fato existem alguns elementos que ajudam seu rendimento pela seleção – a proximidade da linha de 3 pontos, exatamente dentro do alcance ideal de Carmelo, e a menor estatura dos jogadores de garrafão adversários, o que lhe possibilitou jogar como ala de força antes das tendências atuais de times mais baixos. Mas acredito que mais importante do que isso é o fato de que os demais jogadores sempre o reverenciaram, sempre lhe entregaram a bola e lhe deram liberdade para ser o melhor jogador que pudesse ser. Nesse ambiente, motivado, Carmelo sempre pareceu um dos melhores, uma máquina de pontuar e, ouso dizer, minimamente digno na defesa, coisa que nunca foi comum nos esquemas táticos em que atuou na NBA.

O que não faltam, também, são os registros de Carmelo jogando com outros jogadores em suas férias – e simplesmente MATANDO A PAU seus adversários no ataque. Suas aparições longe da NBA jogando basquete com um capuz e regatas, acertando arremesso atrás de arremesso de todos os lugares da quadra, lhe renderam seu alter-ego “Hoodie ‘Melo”, o Carmelo Encapuzado, um jogador espetacular de senso estético questionável que infelizmente nunca vimos suficientemente na NBA – em parte porque é proibido jogar de capuz, mas em parte também porque Carmelo nunca foi tão livre em nenhum de seus times. Desde seus tempos de Nuggets, seu então técnico George Karl limitava o número de seus arremessos do perímetro para forçá-lo a jogar no garrafão; já com Mike D’Antoni, Carmelo foi transformado numa espécie de ala-armador, correndo com a bola de uma maneira muito distante de sua zona de conforto; já sob a tutela de Phil Jackson, o “triângulo” esganava inteiramente suas opções ofensivas. Não são poucas as críticas por Carmelo ser às vezes “livre demais”, mas a verdade é que em raríssimos momentos de sua carreira o vimos ter carta branca para atuar. Enquanto uma série de outras estrelas forçavam seus times a se adaptar a elas, Carmelo sempre esteve no lugar errado e na hora errada, tendo que moldar seu jogo a partir de seus técnicos, reconstruções, elencos limitados e, claro, a percepção herdada de Allen Iverson de que seu estilo de jogo era uma praga, uma peste contagiosa. Como um bom super-herói, Carmelo só pode ser ele mesmo quando está de capuz, fantasiado – ou quando está na seleção dos Estados Unidos, uma espécie de Liga da Justiça em que ninguém se importa realmente em apertar suas amarras.

Não quero dizer com isso que liberar Carmelo para jogar “do seu jeito” seja uma boa ideia hoje em dia, em plena era da eficiência e das estatísticas, com seu declínio físico evidente e suas limitações defensivas, mas acho que entender a história de Carmelo Anthony nos ajuda a analisar melhor seu desastre na última temporada, jogando pelo OKC Thunder: após finalmente se livrar do Knicks e das promessas mentirosas que recebeu, após uma carreira em que se sentiu desprestigiado e forçado a fazer adaptações, após anos desejando os holofotes e chances reais de ganhar um título como seus amigos da safra de 2003, eis que Carmelo é deixado completamente DE ESCANTEIO no Thunder, rebaixado a um cargo de arremessador estático, vendo outras estrelas jogarem. Enquanto todos os torcedores – incluindo eu mesmo – imploravam para que ele fosse colocado no banco de reservas do Thunder dada sua incapacidade momentânea de acertar arremessos de três pontos, tudo que Carmelo podia ver era seu palco tão sonhado lhe ser completamente arrancado numa das suas únicas oportunidades de avançar na pós-temporada.

Para nós é simples perceber que Carmelo está ficando velho assim como aceitamos o peso da idade em Dwyane Wade, mas Carmelo enfrenta a molecada nas férias e sente que pode enfrentá-los de IGUAL PARA IGUAL, o que deve tornar psicologicamente inaceitável qualquer proposta de que tenha um papel menor num time ou venha do banco de reservas. Após deixar o Thunder, Carmelo afirmou que não houve nenhuma tentativa de incluí-lo no ataque, e que ele teve que “descobrir sozinho” como ser útil e, claro, como sumir de cena, já que era isso que o time parecia desejar quando percebeu que não havia esquema tático desenhado para manter todos os jogadores do elenco próximos às suas identidades originais. Aos poucos Russell Westbrook voltou à sua normalidade monopolizadora, Paul George teve que fazer concessões e Carmelo foi FORÇADO a fazer tantas concessões que simplesmente DESAPARECEU. Seria até melhor, na verdade, se tivesse de fato desaparecido: aquela carcaça vazia que vimos desfilar nos Playoffs do ano passado era um espetáculo triste e melancólico, incapaz de contribuir e desejando apenas se esconder embaixo das cobertas.

É impossível, ao ver essa carcaça perambulante, não imaginar o que poderia ter acontecido em outros cenários. Carmelo poderia ter chegado ao Knicks um ano depois e, com um elenco não desmontado pela troca, ter vencido a Conferência Leste. Poderia ter se negado a renovar com o Knicks e ido para o Bulls, onde sob comando de Tom Thibodeau teria a chance de apagar a imagem de mal defensor assim como James Harden apagou após uma boa temporada dos dois lados da quadra. Poderia ter assinado uma extensão menor como novato com o Nuggets, acabado seu contrato antes e se juntado a LeBron James e Dwyane Wade no Heat. Poderia ter se juntado a seu grande amigo Chris Paul enquanto ambos ainda estavam no auge, ao invés de cair na tola narrativa de vencer tudo sozinho prometida por Phil Jackson. Qualquer um desses cenários lhe teria dado chances reais de ter sido relevante, ao contrário do desperdício que foram seus melhores anos de carreira fazendo concessões para times que nunca saíram do lugar.

É munido dessa história que Carmelo Anthony chega agora ao meu Houston Rockets, possivelmente seu último time da carreira. Podemos entender melhor o motivo de Carmelo ter DADO RISADA da possibilidade de ser um reserva em Houston numa entrevista coletiva, sua insistência de que ainda pode ser uma peça central num time que busca um título e sua escolha por um Rockets que conquistou seu lugar na mídia na última temporada.

Podemos entender, também, os fãs do Rockets que ainda sonham que Carmelo seja uma estrela, que ele jogue como na seleção americana, que ele seja o “Hoodie Melo”, que ele seja o que falta para o Rockets bater o Warriors numa eventual Final de Conferência. O talento esteve lá, e foi muito maior do que o momento histórico nos permitiu perceber. No entanto, tudo nos leva a crer que agora é simplesmente tarde demais: suas melhores chances já foram perdidas por más escolhas e porque a NBA mudou, se transformou, exigiu de Carmelo algo que ele nunca esteve preparado para entregar. Não lhe permitiram que ele fosse ele próprio, enquanto demos carta branca para tantas outras estrelas que tinham tão menos recursos do que ele.

Meu ânimo de ver Carmelo no Rockets é uma sensação estranha, verdadeiramente infantil, de ver um jogador querido vestir a camiseta do time que torço. Quero ter a camiseta, guardar com carinho, torcer para dar certo. Mas como analista, vejo apenas um mal encontro. Tudo leva a crer que Carmelo está apenas repetindo, neuroticamente, a história de sua vida: está no lugar errado na hora errada, num elenco em que será ofuscado, em que lhe pedirão para ser um arremessador estático, em que seu capuz de super-herói será aposentado em nome de um papel secundário, em que ele será o primeiro a ser jogado na fogueira quando o time perder uma partida importante graças a uma ENORME sequência de bolas de três pontos erradas.  Há uma história de redenção possível – vencer é a maior das redenções no esporte – mas Carmelo parece cada vez mais distante do palco. Seu amor pelos holofotes terá que se acostumar: as luzes estão apagando e as cortinas estão fechando. Carmelo provavelmente se aposentará, infelizmente, sem jamais ter encontrado seu papel.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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