🔒A inconsistência do Utah Jazz

Surpreender-se ou decepcionar-se com um time depende, antes de mais nada, de quais expectativas foram criadas em cima desse time antes da temporada começar. É por isso que o Utah Jazz pode até estar numa sequência de vitórias, dentro da zona de Playoffs (nesse momento em sexto lugar no Oeste) e ainda assim ser uma das grandes decepções da temporada. As expectativas para o Jazz na temporada 2019-20 não podiam ser maiores: um time que terminou em quinto lugar no Oeste na temporada anterior, alcançou a marca simbólica das 50 vitórias (ou seja, entrou no clubinho dos GRANDES TIMES), tinha a segunda melhor defesa (e um ataque exatamente médio) receberia o apoio de Mike Conley, alguém capaz de desafogar o ataque, tirar o fardo ofensivo das costas de Donovan Mitchell e ainda contribuir defensivamente. Como o time com mais experiência, mais tempo juntos e a adição de Mike Conley não teria uma temporada melhor do que a anterior? A dúvida, pouco antes da temporada começar, era apenas QUANTO a equipe iria melhorar – um acréscimo de 5 vitórias deveria ser suficiente, por exemplo, para brigar pela liderança da Conferência Oeste, especialmente numa temporada tão aberta quanto a atual. Seria o Jazz, portanto, um time capaz de brigar pelo título?

Nas primeiras semanas de temporada o Jazz já emendou três vitórias seguidas, acumulando 4 vitórias em 5 jogos, mas seguiu a esse bom momento duas derrotas consecutivas. Essa fórmula continuou se repetindo: após as duas derrotas consecutivas o Jazz venceu 4 jogos em sequência, apenas para perder duas seguidas novamente; depois disso, mais três vitórias, seguidas por mais duas derrotas. Toda boa fase parece ser respondida por uma fase ruim imediatamente posterior, e o aposto também vale: após perder 4 jogos em 5 partidas, o Jazz acaba de vencer 4 seguidas. E não se tratam apenas dos resultados, mas sim da maneira como esses resultados estão vindo: durante as fases ruins, as derrotas são verdadeiros atropelamentos. A última sequência de 3 derrotas seguidas, por exemplo, incluiu uma derrota por 20 pontos de diferença para o Toronto Raptors e outra por 25 pontos para o Los Angeles Lakers, justamente jogos simbolicamente importantes para um time que estava sonhando com lutar por um título. Por outro lado, as sequências de vitórias incluem triunfos (ainda que apertados) em cima de Clippers, Sixers e Bucks, por exemplo. O que explicaria oscilações desse nível, com vitórias marcantes seguidas por derrotas vergonhosas?

Por muitos anos, dizer que um time “oscila” (ou seja, que tem altos e baixos frequentes) já era uma explicação em si. Consistência costuma ser uma marca dos grandes times, enquanto a falta de consistência é um defeito a ser corrigido. Desse modo, um time que varia muito (tanto nos resultados quanto no aproveitamento dos arremessos), por exemplo, tinha apenas que ajustar isso, a “consistência” – esse conceito abstrato, vago, quase MÍSTICO. Não era raro ver técnicos pedindo, nos intervalos, que seus times mantivessem uma “constância”, sem no entanto tocar nos pormenores de COMO alcançar essa façanha. Afinal de contas, o que permite a um time ser consistente? O que leva uma equipe ao “defeito da inconstância”? São fatores psicológicos, são escolhas táticas, há uma relação com os oponentes? Em plena era das estatísticas avançadas, o MUNDO QUER CAUSAS – preferencialmente matemáticas – para entender o que raios está acontecendo ao invés de um apontamento genérico, profundamente subjetivo, como considerar que a inconsistência é apenas um defeito em si, não um SINTOMA de outras questões ou decisões anteriores. O que os números podem nos contar a esse respeito?


Os primeiros números que chamam atenção são o fato de que a defesa do Jazz, antes a segunda melhor da NBA, caiu para a décima colocação – ainda uma das melhores, mas não mais dominante. Enquanto isso, o ataque mediano – ali na décima quinta colocação – agora está entre os 10 piores da NBA. Ou seja, quando levamos em consideração os altos e baixos do time, temos como resultado uma equipe que é agora fundamentalmente pior, tanto ofensiva quanto defensivamente, em comparação à temporada anterior. Se o elenco é supostamente MELHOR, então isso quer dizer que as ESCOLHAS do time pioraram – ou, caso sejam as mesmas, simplesmente não são mais tão eficientes.

Defensivamente, o Jazz está entre os piores numa série de estatísticas conhecidas como “hustle”, aquelas que envolvem “esforço”: é o pior time em desviar bolas, o pior em recuperar bolas que os adversários soltam, o quinto pior em cavar faltas de ataque e o quarto pior em contestar arremessos. É claro que qualquer coisa que você faça numa quadra de basquete exige esforço (menos se você for o Luka Doncic, que faz tudo sorrindo), de pontuar a pegar um rebote, mas as estatísticas de esforço se referem a coisas que não estão necessariamente relacionadas a talento e, principalmente, a escolhas táticas. Não importa o que um técnico tenha desenhado numa prancheta e seu nível de talento individual, qualquer IDIOTA consegue enfiar uma mão na frente de um passe, se atirar numa bola para recuperá-la, se colocar na frente de um adversário em movimento ou dar um gás para contestar um arremesso que não tinha nada a ver com você, só pra aparecer na foto. Supostamente estamos falando de partes do basquete que envolvem muito mais VONTADE do que planejamento, e que são traços identitários de vários jogadores considerados “sem talento”. É nesse terreno que os jogadores ruinzinhos porém esforçados mostram seu valor. Estar tão mal em tantas estatísticas diferentes que envolvem esse tal “esforço” mostra que a defesa do Jazz piorou sem necessariamente estar fazendo coisas diferentes taticamente – talvez o time apenas não esteja comprometido defensivamente.

Isso fica ainda mais evidente quando levamos em consideração que o Jazz é o time que mais cede arremessos entre um e três metros de distância do aro (a média distância curta) – um plano de jogo compreensível, evitando bandejas e bolas de três pontos – mas permite que os adversários acertem mais de 40% dos arremessos dessa distância, número muito acima da média da NBA e um dos mais altos da liga. Uma coisa é você querer que seu adversário dê um tipo de arremesso, outra coisa completamente diferente é você deixar ele COMPLETAMENTE SOZINHO enquanto ele dá esse arremesso – é preciso, nem que seja na última hora, contestar qualquer arremesso que um oponente dê, em qualquer lugar da quadra. Uma das traduções possíveis para esses números é de que o Jazz respeita o próprio desenho defensivo, mas não move um músculo para contestar ou atrapalhar os adversários depois que eles cumprem o plano. E o aproveitamento dos oponentes é ainda maior na meia distância (e muitíssimo maior em bandejas) quando Rudy Gobert não está na quadra, o que significa que o plano defensivo depende inteiramente do pivô – a falta de “esforço” do resto do elenco quando ele está em quadra já é preocupante, mas quando ele sai do jogo passa a ser simplesmente catastrófico.

O mais preocupante dessa situação é que Rudy Gobert tem sido menos eficiente em proteger o aro nessa temporada, e não necessariamente por sua culpa – pelo que parece, essa é uma tendência da NBA atual. Gobert já chegou a dar tocos em 7.5% de TODOS OS ARREMESSOS DE DOIS PONTOS dados enquanto ele estava na quadra, o que é um número simplesmente surreal. Essa porcentagem tem caído ano após ano e nessa temporada já é a menor da carreira, com apenas 4% dos arremessos dados sendo bloqueados por Gobert. Essa tendência de baixa é vista também em outros pivôs defensivos porque, pelo jeito, os ataques estão se especializando em colocar os pivôs em posições desfavoráveis longe da cesta. Mesmo com um esquema defensivo que tenta manter Gobert próximo ao aro, o pivô do Jazz frequentemente é obrigado a contestar jogadores no perímetro, na saída de um corta-luz ou na cabeça do garrafão, e por melhor que ele seja capaz de se recuperar não são situações ideias para contestar arremessos. Nesses momentos em que Gobert não está embaixo da cesta, o plano do Jazz de ceder a meia distância sem contestar esses arremessos – sem o tal “esforço” de tentar desviar a bola, se jogar nela, cavar faltas de ataque ou se aproximar do arremesso – acaba virando bolas de alto aproveitamento ou, o que é pior, bandejas fáceis. É muito diferente do que fazem as melhores defesas da temporada, como Bucks e Nuggets, por exemplo, que ao retirar os pivôs do garrafão imediatamente povoam as proximidades do aro com os jogadores da zona morta, que correm desesperados para a cobertura e, se necessário, correm desesperados de volta para a zona morta – cedendo um arremesso de três pontos mas tentando, ainda assim, estar suficientemente perto do arremesso para atrapalhar. A defesa do Jazz é disciplinada – não seria a décima melhor sem isso – mas não faz esse esforço extra de correr em coberturas, se recuperar e ajudar um Rudy Gobert fora de posição.

Não é por acaso que a principal reclamação de Rudy Gobert nas entrevistas durante a última sequência de derrotas foi quanto à dificuldade do Jazz de “jogar de maneira física”. Segundo o pivô, qualquer adversário que faz uso da força consegue “impor sua vontade” à equipe de Utah – algo que as estatísticas sustentam, ao mostrar o fracasso do Jazz contra times que estão entre os melhores em recuperar bolas soltas, como Bucks, Raptors e Lakers, por exemplo. Longe de mim querer chamar o pessoal de “chinelinho” ou gritar um sonoro “PÃO!”, mas a questão do Jazz, ao menos defensivamente, parece envolver esforço.


O ataque, no entanto, é onde o Jazz mais sofre nessa temporada. Ter um dos 10 piores ataques cobra um preço na NBA atual, e é um problema que não deveria afligir um time com Donovan Mitchell, Mike Conley e as bolas de três pontos de Joe Ingles. O principal responsável parece ser, estatisticamente, o TIPO de arremesso que o Jazz dá na temporada: nenhum time da NBA dá mais arremessos entre um e três metros de distância do aro, justamente aquele arremesso que nenhuma equipe da NBA gostaria de dar por não ser uma bandeja e nem valer três pontos, e por ter aproveitamento médio na liga de míseros 38%. Mas o Jazz, além de insistir nesse tipo de arremesso, consegue ter um resultado MEDONHO, acertando apenas 35% dessas bolas – o sexto pior aproveitamento dessa distância em toda a NBA. Isso dedura, para além de apenas um aproveitamento ruim dos jogadores do Jazz, o fato de que esses arremessos são contestados – um claro indício de que o time não está conseguindo dar os arremessos que gostaria de dar, tendo que recorrer a um arremesso HORRÍVEL de meia distância como última opção. Só isso explica o fato de que o Utah Jazz é, nesse momento, o time que acerta a maior porcentagem dos arremessos de três pontos que dá em toda a NBA – estamos falando aqui de um time com mais de 38% de aproveitamento no perímetro, maior do que na meia distância. Com esse nível de aproveitamento o Jazz deveria fazer como o Rockets e dar mais arremessos de três do que de dois, mas ao invés disso está entre os dez times que menos tentam essas bolas. Só podemos concluir que o Jazz até quer arremessar de três mas não consegue, sendo forçado a tentar bolas contestadas de meia distância quando seus jogadores, tentando encontrar alguma solução ofensiva, infiltram no garrafão aos trancos e barrancos.

Quando juntamos esses números ao TESTE DO OLHO, ou seja, o que vimos em quadra ao assistir a um jogo do Jazz, entendemos melhor como o Jazz, ao ser desafiado por defesas mais físicas, depende ofensivamente de Donovan Mitchell criando o próprio arremesso em infiltrações sem muita movimentação de bola – são arremessos de baixíssima qualidade, em geral de meia distância, que eventualmente caem mas que não costumam ser um bom plano de jogo. No fundo estamos falando de um fenômeno similar ao problema que constatamos na defesa: quando times mais físicos impõe a sua vontade sobre o Jazz, a equipe não consegue dar os arremessos que gostaria e precisa se contentar com a raspa do tacho, ou seja, com o pior tipo de arremesso que existe no basquete atual.

A tal “inconsistência” do Jazz parece ser, portanto, uma dificuldade em impor seu plano de jogo – ou até de TER um plano de jogo. Alguns times permitem que o Jazz faça aquilo que mais ou menos pretende, cedendo bolas de três pontos – que o Jazz converte com uma precisão cirúrgica – e sendo barrados por Rudy Gobert do outro lado da quadra. Mas quando um time é mais físico, mais empolgado, mais esforçado, isso é suficiente para forçar o ataque do Jazz a péssimos arremessos e encontrar, contra sua defesa, arremessos não contestados de média distância ou um Rudy Gobert fora de posição. Falta ao Jazz um plano, tanto no ataque quanto na defesa, que funcione independentemente do adversário – falta repertório, falta uma identidade clara que motive os jogadores e falta, em última instância, esforço puro e simples. O Grizzlies dos últimos anos, por exemplo, não era uma grande equipe, mas tinha no esforço e na defesa elementos fundamentais, identitários, de modo que quem pisava em Memphis sabia como deveria reagir. Isso era suficiente para sugar os adversários para essas regras, fazendo com que o jogo acontecesse nos termos do Grizzlies, não nos termos dos rivais. É isso que falta ao Jazz: quais são os seus termos? O que o Jazz é capaz de FORÇAR o adversário a fazer, reagir ou adaptar? Nesse momento, a resposta é NADA: o time não tem uma identidade definida, não tem clareza sobre o que pretende em quadra e aceita os termos dos adversários com frequência demais, se contentando com arremessos que NUNCA deveria tentar. Contra times acostumados a impor um estilo de jogo específico, o Jazz é metodicamente atropelado, conseguindo vitórias em cima de times mais jovens, mais confusos ou ainda em processo de descoberta.

A boa notícia é que o Jazz ainda tem bastante tempo para encontrar uma identidade, criar mais coesão e, talvez com mudanças nos bastidores, comprar um conceito de basquete mais físico e mais esforço defensivo. A má notícia, no entanto, é que times com um preferência tão grande por arremessos de meia distância não costumam, segundo as estatísticas, simplesmente encontrar outros tipos de arremesso de uma hora para a outra – essas são questões estruturais que precisam de muitos ajustes, incluindo possivelmente mudanças radicais no comando técnico ou no elenco. Para sonhar com o topo do Oeste, o Jazz precisa contrariar os números e mudar o seu padrão de arremesso RÁPIDO. Ou o time interrompe as bolas de meia distância, impondo as bolas de três que sabe converter, ou será consistentemente dominado por adversários mais estáveis, ou seja, com planos de jogo mais sólidos e apoiados em tipos de arremesso com melhor aproveitamento.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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