🔒A órbita

Com apenas 19 vitórias na temporada 2000-01, o Wizards teve a segunda pior campanha de toda a NBA. Michael Jordan, então já aposentado, acabara de assumir o cargo de “Presidente de Operações” para guiar a reconstrução da equipe. Aproveitou seu envolvimento para comprar também uma pequena parcela do time, tornando-se um dos donos minoritários. O Wizards de fato precisava de toda ajuda que pudesse ter, tendo precedido esses 19 jogos ganhos por míseras 18 vitórias na temporada anterior. A única luz na equipe era a evolução gradual de Richard Hamilton, draftado em 1999 e caminhando lentamente rumo à elite de pontuadores da Liga.

Em 2001, com a primeira escolha do draft o Wizards escolheu Kwame Brown, estrela do basquete colegial que resolveu pular o basquete universitário. Ao lado de Hamilton, Kwame Brown teria a responsabilidade de levar o Wizards vagarosamente rumo à relevância, desenvolver seu jogo e encontrar seu lugar em meio aos profissionais. Até que Michael Jordan resolveu acelerar o processo de reconstrução abrindo mão de sua parcela de propriedade do time, vestindo um uniforme e entrando em quadra. Era sua segunda volta da aposentadoria, a primeira vez jogando para qualquer equipe que não fosse o Chicago Bulls.

O mundo ficou pirado, o Wizards lotou seu ginásio todas as noites e a equipe saltou para 37 vitórias na temporada, suficiente para uma digna décima posição na Conferência Leste. Mas Kwame Brown, numa história já tão bem contada aqui mesmo no Bola Presa, teve qualquer chance de amadurecimento gradual arrancada de baixo dos seus pés. Com o time decidido a “vencer imediatamente” para aproveitar o que seriam as últimas temporadas de Michael Jordan, Kwame Brown foi forçado a produzir instantaneamente sem ter qualquer estrutura física ou psicológica para isso. Sob a urgência e as exigências de Michael Jordan, Kwame simplesmente implodiu rumo à insignificância.

Para a temporada seguinte, frustrado com os novatos e desesperado por mais ajuda, o então Presidente de Operações, Michael Jordan, trocou o promissor Richard Hamilton pelo veterano Jerry Stackhouse. Com o joelho de Jordan ameaçando esfarelar a qualquer momento, a temporada inteira foi sobre sua última chance de alcançar os Playoffs mais uma vez. Com as mesmas 37 vitórias, o Wizards bateu na trave com um honroso mas frustrante nono lugar. Por fim, Jordan aposentou-se de forma irreversível, nos legou a deprimente imagem de seu joelho sendo aquecido em bicicletas ergométricas nas laterais da quadra, foi demitido de seu cargo de Presidente e o Wizards recomeçou aquela construção – mas sem Richard Hamilton, que em seu novo time seria campeão da NBA em 2004, e sem Kwame Brown, irremediavelmente quebrado e já incapaz de conviver com as críticas e a pressão incapacitante.

Nenhum time em sã consciência seria capaz de abrir mão do retorno de Michael Jordan. Se seu joelho não tivesse dedurado a idade avançada, quem sabe o que Jordan não teria conseguido se o Wizards tivesse alcançado os Playoffs naquela sua última temporada em 2003? Era uma chance de ao menos flertar com coisas grandes para um time de outro modo afundado em desastres, com campanhas pífeas e um elenco esvaziado. Era uma oportunidade de vender ingressos, camisetas, ganhar espaço na mídia, convencer jogadores a assinarem com a franquia. Era uma rara possibilidade de colocar o nome na História, nos rodapés das enciclopédias, como um dos times que teve a honra de ter uma lenda em seu elenco. Mas o preço a ser pago foi irremediável.

O maior dano que Michael Jordan causou com seu segundo retorno às quadras foi arrancar da mão de todo o time a narrativa, a chance de protagonismo, a rédea de suas próprias vidas. Subitamente Kwame Brown já não podia mais pensar em si mesmo, seu desenvolvimento, os passos necessários para sua carreira – precisava pensar em Michael Jordan, em permitir que Jordan ganhasse, em ajudá-lo a ir aos Playoffs. De um dia para o outro, todas as escolhas, decisões, jogos e treinamentos eram sobre Michael Jordan; todas as histórias na imprensa, todos os olhares do mundo. Kwame foi massacrado por impedir que Jordan tivesse mais uma chance. O fracasso de Kwame Brown sequer teve a permissão de ser sobre Kwame Brown – foi sobre Jordan, como tudo o mais durante aquelas duas temporadas.

A culpa dessa situação sequer era de Jordan, que estava em seu pleno direito de querer vencer e colecionar mais um anel de campeão no curto tempo que lhe restava. É que algumas estrelas são simplesmente dotadas de uma força gravitacional sem paralelos, monopolizando todas as atenções e toda a narrativa. Por onde passam, a única história que podemos contar é sobre elas – todos os outros são figurantes, elenco de apoio de suas jornadas épicas. Não há culpados, é quase uma força da natureza. Sem percebermos, é fácil imaginar que a NBA, o basquete e todos aqueles jogadores correndo de um lado para o outro são apenas um pretexto para que aconteça Michael Jordan, Magic Johnson, Kobe Bryant, LeBron James ou qualquer um dos grandes. Tudo o mais parece desprovido de autonomia quando eles estão presentes.


Dia 11 de julho de 2014 Rich Paul, empresário e amigo pessoal de LeBron James, telefonou para Dan Gilbert, dono do Cavs. “Parabéns, Dan. LeBron está voltando para casa”. Mesmo com Dan tendo escrito uma carta furiosa contra LeBron quando o jogador abandonara Cleveland, ninguém seria capaz de cogitar que o Cavs não o aceitaria de volta. A ligação foi apenas um aviso – ficava implícito que a decisão de LeBron era todo o necessário para que se fizesse negócio. Nenhuma equipe da NBA seria capaz de recusar o melhor jogador de basquete de sua geração – talvez de todos os tempos. Seria o equivalente a recusar uma volta de Michael Jordan quando tudo que se tem é um elenco dizimado nos primórdios de sua reconstrução.

Quando LeBron deixou a equipe, o Cavs passou a ser um time definido não por seus jogadores, mas por uma AUSÊNCIA. Sua identidade era determinada pelo que NÃO ESTAVA LÁ, pelo buraco, pelo vazio no vestiário. Escolher Kyrie Irving com a sortuda primeira escolha do draft de 2011 foi uma mudança radical de mentalidade. Quando Irving foi o novato do ano, mesmo vencendo apenas 19 partidas já era possível falar sobre algo que de fato existia em Cleveland e não sobre uma falta. Foi assim que a chegada de uma nova vida encerrou de vez o duro processo do luto.

Em 2014 o Cavs já tinha uma campanha de 33 vitórias, a décima colocação no Leste, uma coleção de jovens promissores (Anthony Bennett, Tristan Thompson, Dion Waiters) e Kyrie Irving detinha o MVP do Jogo das Estrelas com 31 pontos e 14 assistências enfrentando a nata mais pura do basquete mundial. Com mais uma primeira escolha no draft, o Cavs ainda adicionou naquele ano o empolgante Andrew Wiggins. A equipe conquistou sua própria auto-estima, aprendeu a definir a si mesma e não ser definida por uma figura externa há muito perdida. Irving teve tempo de evoluir, de experimentar, de encontrar sua identidade. Seu protagonismo na equipe era compartilhado com uma série de outros jovens talentos: aquela era a história de suas vidas.


A volta de LeBron a Cleveland na temporada seguinte mudou completamente essa narrativa, que passou a ser sobre fornecer a LeBron as ferramentas necessárias para ser campeão imediatamente. Wiggins foi trocado por Kevin Love, então um dos melhores jogadores da NBA, quebrando recordes de double-doubles em Minessota. Mas Irving se tornou, assim como o próprio Love, repentinamente um mero adendo da história de outra pessoa. Quando perderam as Finais em 2015, era sobre LeBron não ter apoio suficiente; quando foram campeões em 2016, era sobre LeBron ter finalmente vencido o campeonato prometido para Cleveland.

Não há como ser diferente, estamos falando de LeBron James, uma presença que alavancou o Cavs imediatamente a três Finais da NBA consecutivas. Mas há um preço a ser pago por isso: Kevin Love foi destruído pela imprensa e pelos torcedores, criticado pela queda de rendimento resultante da sua perda de protagonismo; Kyrie Irving perdeu seu lugar como rosto da franquia, fazendo concessões em seu jogo que limitaram sua rápida escalada pessoal e tirando das suas mãos o controle de sua própria história. Sabemos que Kevin Love ficou à beira da derrocada mental, apático, a um passo de pedir para abandonar a equipe. Foi envolvido em múltiplas negociações de troca, relegado a um papel menor em quadra, só ganhando qualquer relevância quando ficou evidente que LeBron não poderia vencer sem ele. A força gravitacional não é uma escolha, é uma força da natureza: o tipo de impacto que LeBron causa numa equipe faz com que ele seja naturalmente o foco de todas as atenções e esforços, tornando os demais jogadores seus apêndices.

A chegada de LeBron criou um senso de urgência em Cleveland por todos os lados – a franquia ciente de que aquela seria sua maior chance de romper a seca de títulos, LeBron ciente de que cada ano sem um título atrapalha mais e mais sua investida rumo à coroação de “melhor de todos os tempos”. Foi essa urgência que levou à troca de Wiggins, ao pagamento de multas por ultrapassar o teto salarial, à demissão do técnico David Blatt, a contratações desesperadas como a de Deron Williams, a salários exagerados como o de Tristan Thompson, e a inúmeras concessões a LeBron James, que vão desde a contratação e renovação de JR Smith à permissão de seu amigo e conselheiro Randy Mims de viajar com a equipe como se fizesse parte do elenco. Tudo perfeitamente justificável, especialmente quando levamos em consideração que o Cavs de fato conquistou um título justamente no meio destes anos dominados pelo Golden State Warriors. Qualquer time faria o mesmo. Qualquer dirigente trocaria Wiggins ou Richard Hamilton, massacraria psicologicamente Kwame Brown ou Kevin Love. Mas isso não torna menos doloroso o processo para aqueles que são obrigados, pelas forças da física, a gravitar na órbita dos grandes astros.


A carreira de Kyrie Irving divide-se em duas metades: os primeiros três anos de amadurecimento e construção coletiva de uma identidade, e os três anos seguintes, com três Finais da NBA consecutivas e um anel de campeão como parceiro de LeBron James. Não há como negar que alcançar as Finais e ganhar um título são conquistas inestimáveis, mas esquecemos como deve ter sido difícil a transição de uma metade para a outra. Irving representava não apenas a franquia mas também sua reconstrução – ele viu o estado da franquia após o abandono e ajudou a reerguê-la, principalmente no âmbito emocional. Jogar com LeBron – aquele que causou o estrago que ele foi draftado para arrumar, a presença ausente que ele foi draftado para substituir – deve ter sido uma experiência muito ambígua, e tudo isso sem levar em consideração os ajustes táticos necessários e a retirada da bola de suas mãos.

Irving é, estatisticamente, o melhor jogador da NBA arremessando vindo do drible, o que significa que ele gera pontos com a bola nas mãos, atacando seus adversários. Com LeBron jogando cada vez mais como armador, levando a bola da defesa para o ataque, Irving foi colocado em situações pouco lisonjeiras para sua produção. Quando o Cavs começou a perder jogos na última temporada regular – o que por fim acabou ocasionando apenas a segunda melhor campanha do Leste, atrás da surpreendente reconstrução sem órbitas do Boston Celtics – Irving ofereceu outras possibilidades, que passavam por lhe dar mais protagonismo e usar LeBron mais sem a bola, cortando para a cesta ou jogando dentro do garrafão. A sugestão foi recebida com resistência e só retomada nas Finais da NBA, quando o Cavs ameaçava ser atropelado pelo Warriors. Muitos dos melhores minutos da equipe na decisão passaram pelas mãos de Irving, tanto atacando a cesta quanto comandando jogadas de pick-and-roll com Kevin Love e acionando LeBron em seus cortes sem a bola. Por outro lado, abrir mão da armação de LeBron nos momentos mais decisivos parecia uma escolha absurda, quase impossível de se sustentar discursivamente – LeBron seria acusado de omitir-se, o técnico Tyronn Lue seria acusado de abrir mão de sua melhor arma, etc. Vimos um Cavs que oscilou em suas decisões sobre quem deveria ter a bola nas mãos e quais seriam as melhores maneiras de encontrar ali um time, uma equipe capaz de fazer frente ao esforço coletivo do Warriors. Infelizmente, pelo modo como a história toda se desenhou, não havia de fato um time ali para resistir, mas apenas uma estrela e sua órbita. Impossível não imaginar que Irving deve ter se sentido levado pela maré, arrastado para o fundo do oceano depois de ter flertado metade de sua carreira com a autonomia de definir suas ações e suas metas – e, consequentemente, ser capaz de SABOREAR suas conquistas e aprender com suas falhas. Ao menos naquele Cavs de apenas 30 vitórias, os sucessos e as falhas lhe pertenciam, eram dele para que risse ou chorasse.


A surpresa das notícias de que Kyrie Irving pediu para ser trocado do Cavs não são nada surpreendentes em motivo – o que surpreende, de fato, é que Irving tenha sido capaz de escapar dessa órbita totalizante. Se deixado às forças naturais, passaria as próximas temporadas jogando as Finais da NBA, nunca tendo exatamente nenhuma vitória ou derrota que lhe dissesse respeito, afoito na urgência de títulos de uma outra pessoa, arrastado pelas decisões necessárias para manter LeBron próximo, feliz e sempre a um braço de distância de um anel de campeão. É uma situação extremamente SEDUTORA, difícil de se desvencilhar. Mas uma hora Jordan foi embora, deixou um Wizards sem Hamilton, com um Kwame Brown desfuncional. Irving parece ver isso: as informações são de que ele está incomodado com o futuro da franquia que ajudou a levantar, que os próximos anos estão comprometidos enquanto LeBron ganha liberdade demais, regalias demais, amigos demais desfilando no avião da equipe.

Para o Cavs, não há fuga possível: LeBron precisa de todas as regalias possíveis para que o time tenha reais chances de título, já que o time nunca terá outro jogador com o mesmo grau de talento e impacto dentro e fora das quadras. Precisam aproveitar cada segundo e não há futuro hipotético, positivo ou negativo, capaz de nublar a urgência maníaca que um presente com LeBron James é capaz de impor. Tudo a respeito do Cavs será sobre LeBron até o dia em que ele se aposentar, seja na sua presença, seja na sombra aterradora de sua ausência, caso leve seus talentos para outro lugar. Como haveria de ser diferente? Como o Bulls ou o Wizards poderiam não ser a respeito de Michael Jordan?

Mas as preocupações e angústias de Kyrie Irving são ainda assim perfeitamente compreensíveis. Ciente de que o Cavs não tem como afastar-se da órbita de LeBron, cabe a Irving criar essa distância caso esteja certo de que ela não faz bem para si, seja como pessoa, seja como jogador de basquete. Seu pedido para ser trocado é legítimo – desde que saiba que o preço será o afastamento inevitável das Finais da NBA e dos anéis de campeão. É uma questão de escolha, claro: a órbita de LeBron, não por acaso, também atraiu todas as Finais da NBA consecutivamente há exatas SETE temporadas.

Por algum tempo, Irving ainda será associado a LeBron, ao seu abandono de Cleveland, à sua recusa a orbitar. Terá que lutar para recuperar sua autonomia, para que suas conquistas signifiquem algo para si mesmo. Parece drástico abandonar um dos melhores times da década, mas consigo me identificar com essa vontade de descobrir qual sabor tem a vida para nós mesmos e não para outra pessoa que monopoliza nossas vontades. Muitos relacionamentos acabam se demonstrando abusivos justamente por serem marcados por essa dinâmica em que um dos lados não experimenta nada porque a história é a história do outro, em que muito timidamente fazemos mera figuração. Essa sensação de que não somos donos de nossas vontades nem protagonistas em nossa história é muitas vezes alimentada por uma outra pessoa que, com toda sua força, nos força a orbitá-las. É uma espécie de desaparecimento, de pequena morte em função do outro, completamente diferente de relacionamentos em que ambos se tornam mais fortes e se permitem ter as rédeas de suas próprias vidas.

É com isso em mente que olho para a decisão de Irving com carinho. Agora, estará sozinho para descobrir quem ele de fato é. Resta torcer para que o resultado dessa busca lhe satisfaça, ainda que a História – aquelas famosas notas de rodapé – ameace deixá-lo para trás. Todo mundo precisa pagar um preço pela vitória, para ser campeão, mas alguns preços são caros demais, ainda que muitas vezes demoremos anos para perceber que abrimos mão do que realmente importava.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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