🔒As rédeas do futuro

Após 3 anos de NBA, ganhando apenas um salário mínimo de novato, em 2006 chegou a hora de Carmelo Anthony negociar sua primeira extensão contratual. Seu então time, o Denver Nuggets, colocou na mesa uma oferta de 80 milhões de dólares por 5 anos, sendo o quinto ano uma opção do jogador. O valor e a duração do contrato era o máximo permitido para um jogador saindo de seu contrato de novato como ele. “Quando todos os rumores diziam que eu assinaria ou recusaria esse contrato, minha família me ligou e disse: ‘Ei, você está louco?’ É que na minha infância nós não tínhamos nada”, disse Carmelo na época. O jogador aceitou a oferta, para alegria dos seus bolsos e a tranquilidade de sua família.

Draftados no mesmo ano de Carmelo, LeBron James e Dwyane Wade passaram pela mesma situação, mas escolheram soluções diferentes: ambos optaram por contratos menores, de 4 anos com o quarto ano sendo opção dos jogadores. Ganharam menos dinheiro e garantiram um ano a menos de salários. Caso se lesionassem ou caíssem de produção, um ano a mais de contrato máximo poderia fazer toda a diferença. Mas quando 2010 chegou, LeBron e Wade estavam em grande momento nas suas carreiras e, graças ao término dos seus contratos, podiam escolher jogar juntos em qualquer time que tivesse o espaço salarial necessário para recebê-los. Calhou desse time ser o Miami Heat, que graças à união da dupla atingiu quatro Finais consecutivas e ganhou dois títulos da NBA. Embora o plano inicial incluísse também Carmelo Anthony, amigo de longa data dos dois, o contrato de Carmelo tinha no mínimo mais um ano de duração e impossibilitou a empreitada. O jeito foi recrutar Chris Bosh, que compôs o lendário “Big Three” e foi parte essencial dos títulos da equipe.

Não por acaso, LeBron também assinou um contrato de apenas 4 anos com o Miami Heat, o que lhe permitiu retornar ao Cleveland Cavaliers em 2014 – dessa vez com um contrato ainda menor, de míseros 2 anos. Enquanto a mentalidade dos jogadores da NBA era de assinar os contratos mais extensos possíveis, para “garantir dinheiro” e se precaver de qualquer azar, LeBron assinava contratos a conta-gotas. Os contratos longos de Carmelo lhe fizeram perder a oportunidade de compor o trio campeão no Heat e depois tornaram o jogador refém do caos do New York Knicks. Enquanto isso, LeBron era verdadeiramente dono de sua carreira e de seu destino: quando cansou do Cavs e sentiu que havia cumprido seu objetivo, foi para o Lakers nos seus próprios termos, no seu próprio ritmo.


Em 2011, quando a Associação dos Jogadores e a NBA sentaram para negociar o acordo trabalhista que precisa ser renovado a cada 5 ou 6 anos, uma das preocupações principais das equipes era tornar os contratos dos jogadores MENORES – tudo para evitar que atletas fossem contratados com longos salários milionários e fossem caindo de produção a ponto de não merecerem mais os valores recebidos. Havia a imagem aterradora dos “jogadores em ano de contrato”, aqueles que conseguiam números incríveis, recebiam contratos milionários de 6 anos, e então desaprendiam como jogar basquete, incapazes de ficar em forma ou completamente desmotivados em quadra. Em 2001, Allan Houston recebeu um contrato de 100 milhões de dólares por 6 anos, mas não conseguiu ficar saudável após os primeiros dois anos. Em 2005, o Knicks deu um contrato de 5 anos para Jerome James, que havia jogado apenas 11 boas partidas nos Playoffs do ano anterior e nunca mais foi relevante numa quadra. Em 2006, Darius Miles recebeu um contrato de 6 anos para que “tivesse tempo de desabrochar”, o que nunca aconteceu. Em 2008, Gilbert Arenas assinou um contrato de 111 milhões por 6 anos e sofreu com lesões e polêmicas nos vestiários. Bastava errar um desses contratos e os times pareciam condenados a meia década de apertos financeiros e resultados patéticos. Para mudar essa situação, contratos máximos passaram a ter, a partir de 2011, apenas 5 anos de duração – além de alguns incentivos para contratos menores. Com o aumento gradual do espaço salarial e os contratos máximos atrelados a esses aumentos, faria sentido para os jogadores aceitar contratos menores com a promessa de que o próximo contrato vai ser “ainda maior”.

No fundo, o que temos aqui é um daqueles casos clássicos de “salvar a gente de nós mesmos”: diminuir os contratos era uma tentativa dos donos de times de impedir que ELES PRÓPRIOS FIZESSEM MERDA, contratando jogadores no calor da hora por valores que eles mesmos se arrependeriam logo depois. O plano era que não existisse mais nenhum Jerome James, com jogadores medíocres garantindo contratos longuíssimos por apenas meia dúzia de jogos. Falou-se na época de “atrelar o salário ao desempenho atual de cada jogador”, dar a chance de times reduzirem salários de jogadores que estão indo mal e aumentarem os de jogadores que estão indo bem. Como os salários são negociados na hora da contratação, ou seja, ANTES dos jogadores entrarem de fato em quadra, a única maneira de tornar isso possível é, portanto, com contratos mais curtos. O PRÓXIMO contrato é quem “adequa o pagamento à nova performance”. Isso deveria, em contrapartida, servir como atrativo para jovens jogadores ambiciosos: aceite contratos mais baratos e mais curtos, prove que você é uma estrela e aí no próximo você consegue um salário máximo, ao invés de passar longos 6 anos ganhando um valor que não corresponde à explosão de amadurecimento que você pode ter ao longo da duração desse contrato.

Não é preciso ser um gênio para perceber, no entanto, que esse projeto para ajudar os donos dos times tem outra moeda: se os jogadores assinam contratos mais curtos, isso quer dizer que se você evoluiu seus jogadores terá que DESEMBOLSAR mais dinheiro para mantê-los, e pior, terá que brigar com os outros times para segurá-los. Essa situação agravou-se ainda mais graças ao impacto cultural de LeBron James e seu agente Rich Paul.


Se o discurso de LeBron vem de Rich Paul ou se é o discurso de Rich Paul que é fruto de LeBron, é difícil dizer com precisão. Os dois são amigos desde 2002, pouco antes de LeBron entrar na NBA, e o jogador ajudou Paul a abrir sua empresa de agenciamento de atletas em 2012. Mais do que a origem dos conceitos, o que importa é que aos poucos a dupla foi se tornando responsável por criar uma narrativa em cima das decisões contratuais de LeBron: assinar contratos curtos deixou de ser loucura, insensatez ou oportunismo e passou a ser EMPODERAMENTO. Todas as decisões de LeBron eram sobre lhe dar mais condições de tomar mais decisões – “ter controle sobre sua carreira”, nas palavras de Rich Paul. Se LeBron espalhou esse conceito pela NBA com seus contratos curtos e a sensação de que o Cleveland Cavaliers era REFÉM de suas vontades dado o pânico constante de que ele simplesmente fosse embora, Rich Paul foi o responsável por espalhar esse conceito entre os jogadores nas negociações de contrato. Sob o lema de “tome as rédeas do seu futuro”, Paul foi angariando jogadores que o contratavam com a expectativa de poderem escolher em que franquia jogar, como e quando ganhar um título, e como construir uma imagem independente do atrelamento a uma equipe em particular.

Esse conceito de controle e liberdade do atleta foi se criando aos poucos. Nos anos 90 tivemos Michael Jordan se afastando do basquete por duas vezes, aparentemente alheio a salários, contratos ou obrigações éticas com sua equipe. Voltou a jogar em 2001 no Washington Wizards, uma franquia que nunca havia sido associada à sua carreira e à sua imagem. Fez tudo no seu ritmo e nos seus termos. Seu nome se transformou numa marca, passando a ser identificada mais com tênis de basquete do que com o esporte em si, garantindo a longevidade de seus lucros. E se esse tipo de liberdade de decisão só parecia possível para os maiores, para as lendas inegáveis como Jordan, aos poucos foi se tornando um objetivo acessível para jogadores dos mais diversos talentos. Ao invés de aceitar os maiores contratos disponíveis no mercado, mais jogadores passaram a ESCOLHER. A união de LeBron, Wade e Bosh mostrou que os jogadores eram capazes até mesmo de escolher ganhar MENOS DINHEIRO se o resultado fosse estar entre amigos e aumentar as chances de título – e, também, pagar o salário de Udonis Haslem, amigo pessoal de Dwyane Wade que precisou que as estrelas do elenco aceitassem abatimentos salariais para que ele pudesse se manter entre eles. Os jogadores não se tornaram “menos fiéis” ao passar a escolher equipes, assinar contratos menores e exigir trocas; eles apenas passaram a ser fiéis aos seus amigos, às suas famílias, e aos seus sonhos mais malucos de infância. Transformar um delírio infantil de ser campeão da NBA em realidade é ser fiel a SI MESMO de uma maneira que nunca pareceu possível no esporte até que jogadores percebessem as vantagens de contratos menores, que aceleram os processos de mudança de time e as janelas para pedidos de troca.

Não foi planejado, os donos apenas queriam evitar contratos longos e custosos de jogadores que entrassem em decadência, mas acabaram dando aos jogadores uma ferramenta para poder escolher os rumos de suas carreiras. Hoje em dia, nenhum jogador aceita ficar em equipes desorganizadas, sem chances de título ou em situações que os atletas julguem ser pouco adequada aos seus talentos ou ambições. Já comentamos por aqui antes: entre o contrato de novato e uma primeira extensão inquestionável, jogadores tendem a oferecer aos times um período de 5 anos. Ao fim desse tempo, é necessário que a equipe tenha construído uma estrutura sólida para disputar títulos, tenha flexibilidade salarial e faça seus jogadores felizes. Caso contrário, jogadores simplesmente vão embora – escolhem situações mais adequadas, cidades que agradem suas famílias, chances de título, mais minutos, jogadores amigos, salários maiores, etc. A variedade de desejos é tão grande quanto o é a multiplicidade humana, e os jogadores podem dar vasão aos seus desejos quando os anos iniciais chegam ao fim. Não à toa Anthony Davis, agora em seu sétimo ano com o New Orleans Pelicans, contratou Rich Paul como agente e pediu uma troca – é sua chance de finalmente escolher em quais condições quer jogar. Isso significa, também, escolher caminhos mais fáceis ou mais difíceis para o título, porque são infinitas as narrativas que cada jogador almeja para si mesmo. Já não há mais um caminho “correto” a se trilhar porque as regras, que sempre foram ditadas pelos torcedores e pelas franquias, agora são ditadas pelos jogadores. São eles que decidem o que é satisfatório ou não; o que caracteriza sucesso ou não; o que eles querem que faça ou não parte de suas “marcas” pessoais.


O fato de que os jogadores agora querem e podem escolher – e que o façam cada vez mais cedo, muitos saindo de suas primeiras extensões contratuais – está mudando não apenas a mentalidade dos jogadores, mas também a estrutura dos times da NBA. Adam Silver, atual comissário da Liga, estima que 40% de todos os jogadores da NBA serão “agentes livres” ao fim dessa temporada. Para alguns analistas, esse número pode chegar a 50% se levarmos em consideração os jogadores que tem a opção de encerrar seus contratos. Isso significa que METADE dos jogadores pode simplesmente não ter contrato quando a temporada atual terminar e poderão escolher seus times. Ao fim da temporada que vem, em 2020, essa porcentagem pode ser AINDA MAIOR, se forem assinados mais contratos de um ano, como vem sendo a tendência.

Na prática, isso significa não apenas que jogadores estão definitivamente no controle de seus destinos, mas também que as franquias já não conseguem fazer planos de longa duração. É impossível para um time saber quais jogadores de seu elenco conseguirá manter daqui há 3 anos, e quais jogadores será capaz de contratar para substituí-los. Um time como o New York Knicks não tem como saber quem conseguirá assinar na temporada que vem, por exemplo, e o cenário de toda a Liga dependerá de uma quantidade colossal de jogadores decidindo seus futuros num interessante efeito dominó. O Knicks certamente terá que reagir no calor do momento se seus jogadores mais cobiçados forem para outro lugar, o que os forçará a pegar jogadores diferentes, o que mudará imediatamente os planos de outras franquias e assim por diante.

Na ânsia por não ficarem condenados a contratos prejudiciais muito longos, os donos dos times criaram uma situação igualmente complexa: os times estão condenados a não poder se planejar muito à frente, ao menos não das maneiras convencionais com as quais nos acostumamos nas últimas décadas. O que resta de planejamento está mais nos bastidores e nas comissões técnicas do que nos jogadores que de fato estarão no elenco: é possível planejar um centro de treinamento, uma identidade ofensiva ou defensiva, um novo ginásio, uma política econômica de gestão de salários, uma boa relação com funcionários, as redes sociais, o técnico, os médicos, os olheiros, o draft. Mas quais jogadores farão parte desse sistema tornou-se uma incógnita impossível de prever com precisão. Sobre os jogadores, agora quem decide são os jogadores, simples assim. Talvez em breve sejamos obrigados a julgar as franquias a longo prazo pela sua estrutura, não pela exata composição de seus elencos. Será que o Knicks conseguirá sucesso mesmo se não conseguir Kevin Durant e tenha que se contentar com jogadores bons, mas nem tão espetaculares, por exemplo? Ou será que times com identidade mais consolidada, como o San Antonio Spurs, terão mais facilidade de lidar com esse mundo em que os elencos podem variar imensamente de um ano para o outro? E, mais importante: o quanto essas identidades e essa preparação prévia serão importantes para que os jogadores, agora com todo o poder nas mãos, decidam para onde querem ir na hora de assinar seus novos – e curtos – contratos?

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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