🔒As torres solitárias

Juntar no mesmo quinteto titular Anthony Davis e DeMarcus Cousins pode parecer um sonho, a princípio. Com apenas 24 e 27 anos respectivamente, a dupla ainda é jovem, caminhando para o auge de suas carreiras, e em termos de talento são sem sombra de dúvidas dois dos melhores jogadores da NBA na atualidade. Mas essa união cobra um preço imediato: como unir dois pivôs simultaneamente em quadra num momento em que o basquete mostra cada vez mais o sucesso de times sem pivô algum? Com os pivôs tradicionais perdendo valor de maneira frenética, desaparecendo dos principais elencos da Liga, eis que presenciamos o técnico Alvin Gentry encarar a ingrata tarefa de usar dois pivôs ao mesmo tempo – e, mais do que isso, dois pivôs que nunca estiveram cercados por muita disciplina tática e que não conhecem muito bem o prazer de vencer jogos de basquete.

Não é só que os dois nunca tiveram elencos razoáveis e chances reais de lutar pelos Playoffs, mas também que ambos possuem muita dificuldade de se manter em quadra. Até a temporada passada, levando em consideração os seus primeiros 4 anos de carreira, Anthony Davis nunca havia sequer alcançado a marca de 70 jogos, sempre assolado por lesões. Seu recorde, alcançado justamente na temporada anterior, foram 75 partidas disputadas – um marco que mesmo longe do ideal deu aos fãs um breve respiro, depois de anos achando que o joelho dele vai desmontar quando ele agacha para amarrar os sapatos. DeMarcus Cousins, por sua vez, soma ao seu histórico de lesões uma longa e polêmica lista de suspensões, multas e expulsões, liderando a NBA em faltas técnicas e em faltas cometidas. Tirando seu ano de novato, em que bateu na trave, Cousins também nunca jogou mais de 75 partidas numa temporada.

Como estrelas solitárias de seus respectivos times – Cousins estava em seu sétimo ano em Sacramento antes de ser trocado na data limite da temporada passada, Davis entra em sua sexta temporada pelo Pelicans sem nunca ter passado da primeira fase dos Playoffs – essa falta de constância sempre foi muito prejudicial tanto para eles mesmos quanto para suas franquias. As equipes passaram tempo demais reféns, esperando suas estrelas voltarem, incapazes de criar ritmo ou padrão de jogo. Além disso, o medo de perder essas estrelas sempre foi suficiente para lhes dar uma carta branca exagerada, aceitando os problemas de comportamento de Cousins em Sacramento e oferecendo uma liberdade excessiva em quadra para Davis em New Orleans. Faltou para ambos, durante toda a carreira, uma sensação de estrutura, de planejamento, de ter que se encaixar num modelo em nome de vitórias. Pelo contrário, a falta de vitórias sempre fez qualquer sacrifício parecer inteiramente despropositado, de modo que jogavam numa liberdade transloucada que nunca fez nada além de acumular ainda mais derrotas, que diminuíam ainda mais o valor de qualquer sacrifício possível. Perder em ambientes sem esperança – e sem sequer o discurso de um recomeço possível a qualquer instante – é uma bola de neve, um ciclo sem fim que apenas consolida os maus hábitos de todo o elenco. Sem o prêmio da vitória, por que o esforço de mudá-los?

O maior problema de resetar esses hábitos AGORA é que o Pelicans não tem um plano tático ou uma identidade anterior em que Cousins e Davis devam se encaixar. Justamente pelos dois serem incrivelmente versáteis e poderem jogar, ao menos em termos de potencial, de múltiplas maneiras diferentes, o técnico Alvin Gentry não faz a menor ideia do que fazer. Não existe uma escolha óbvia, um planejamento estrutural inicial. Quase sempre conhecer as limitações de um time ou se prender a uma identidade inventada anteriormente – D’Antoni sabendo que seu Phoenix Suns não seria capaz de defender, o Memphis Grizzlies decidindo vencer no esforço e na defesa, o San Antonio Spurs dando papéis importantes para jogadores secundários, etc – gera um alvo, um objetivo, que permite ao time muito mais foco e confiança do que uma folha branca de possibilidades. Com um time “tabula rasa” em que é possível jogar de qualquer maneira, nada dura: qualquer pequeno fracasso é motivo para que se tente algo diferente, de novo e de novo, sem nunca obter clareza de qual seria o caminho duradouro a ser seguido.

O que Alvin Gentry bolou para esse time, portanto, é apenas UMA de muitas possibilidades. E embora essa possibilidade escolhida peça algumas concessões de Cousins e Davis, minha principal reclamação é que ela também permite demais que eles se apoiem em velhos hábitos – justamente aqueles hábitos de jogador solitário, desprovido de outras estrelas, que os levou a tantas e tantas derrotas e nenhum senso de responsabilidade. Isso porque a escolha de Gentry é baseada na improvisação, num ataque “dinâmico” com abertura para que os jogadores tomem decisões em tempo real, o que nesse caso permite muitas estratégias – incluindo o individualismo, que é o modus operandi dos dois. Muitas vezes vemos Cousins inventando uma jogada para si enquanto Anthony Davis apenas olha e vice-versa. É muito fácil se esquecer de que o time tem duas grandes opções quando eles tem permissão para jogar como sempre jogaram em suas vidas solitárias anteriores.

A única coisa que Gentry exige que quebra um pouco a dinâmica conhecida pela dupla é que quando um deles está no garrafão, o outro precisa estar no perímetro no lado OPOSTO à bola, para evitar dobras de marcação e minimizar as chances de recuperação defensiva. A princípio, quem chega primeiro no contra-ataque assume o garrafão, com o outro correndo para o perímetro, aproveitando a versatilidade de ambos para não lhes prender em posições fixas na quadra. Mas a verdade é que, uma vez estabelecido o espaçamento, quem tiver a bola joga virtualmente sozinho, inventando para si um arremesso. A concessão exigida é simplesmente esperar sua vez de atacar quando o outro está lá tentando pontuar sozinho na marra.

O fato de que tanto DeMarcus Cousins quanto Anthony Davis estão praticamente empatados com 26 pontos por jogo cada um é prova inegável de quão talentosos ofensivamente eles são. Ambos são muito difíceis de serem parados quando batem para dentro do garrafão, melhoram cada vez mais o arremesso de média e longa distância e são um problema para as defesas no mano-a-mano, cavando faltas constantes, o que garante o sucesso ofensivo mesmo quando remetem aos velhos hábitos. Mas é quando quebram esse molde que podemos ver o que essa dupla PODERIA ser num modelo mais inteligente de jogo, em que ambos tivessem que abrir mão de mais coisas, incluindo volume e liberdade total nos arremessos, em nome de arremessos mais garantidos, fáceis e consistentes.

Os melhores momentos do Pelicans surgem quando DeMarcus Cousins recebe a bola não no garrafão, mas no perímetro, porque lá ele pode usar sua visão de jogo para encontrar bons passes, criar opções de arremesso para os outros e para si mesmo. Arremessos de qualidade são extremamente raros nesse time de jogadas forçadas e individuais, com uma ausência extrema de arremessadores em que Jrue Holiday chegou a passar 4 jogos consecutivos sem acertar um único arremesso de 3 pontos – seu aproveitamento médio na temporada é de MEDONHOS 23%. Quando cria passes inteligentes, Cousins oferece arremessos minimamente melhores para o time, criando sequências de pontos fáceis que ajudam a abrir vantagem no placar.

O problema é que nessas circunstâncias parece que o time depende única e exclusivamente da criatividade de Cousins, sem nada muito rígido ou trabalhado – cabe a ele improvisar e encontrar as soluções necessárias. Quanto mais o time patina, mais seus companheiros procuram Cousins no perímetro e mais sobrecarregado ele fica. Para termos uma ideia, Cousins é nesse momento o quarto jogador que mais toca na bola em toda a NBA –  bem acima de Russell Westbrook, LeBron James e Kyrie Irving, por exemplo. Não à toa ele é também o líder em desperdícios de bola da temporada e o grande responsável por fazer com que o Pelicans perca absurdos 15% de suas posses de bola com desperdícios de passe. São muitas bolas perdidas, muitas posses de bola que viram contra-ataques adversários e consequentemente muito medo de passar a bola, especialmente de maneira agressiva e decisiva. Isso faz com que Cousins e Davis passem longos períodos dos jogos preferindo simplesmente finalizar ao invés de movimentar a bola, ou então tentando estabelecer uma posição no garrafão nos primeiros segundos da posse de bola, mesmo que o resto do time não acompanhe e que isso acabe gerando ainda mais desperdícios. A ânsia de decidir a jogada muito cedo para não perder a bola acaba justamente levando a mais bolas forçadas e portanto perdidas, fora que o ritmo acelerado vai exaurindo especialmente Cousins, que consegue correr rápido pela quadra mas está sempre carregando o peso de um TRANSATLÂNTICO e eventualmente fica com a língua de fora.

Na maior parte das vezes, o único benefício dos dois estarem juntos é que eles atraem marcação o tempo inteiro, o que acaba criando espaço para o outro jogar no mano-a-mano contra alguém ou então simplesmente cria um erro defensivo na transição, com a defesa fechando em um e esquecendo do outro. É o que chamo de AJUDA PASSIVA, uma ajuda que vem sem jogada, sem movimentação específica, sem nada. É o bônus que surge simplesmente de você estar na mesma quadra que o outro sujeito.

Vejam na jogada abaixo, por exemplo, que a defesa se foca tanto no pick-and-roll de Anthony Davis que acaba esquecendo que o DeMarcus Cousins cumpria sua função de ficar parado no perímetro do lado oposto da bola:

 

A jogada abaixo é parecida, no sentido de que Cousins não precisa fazer NADA para ganhar um arremesso de três pontos. A defesa do Clippers está preocupada com Anthony Davis perto da cesta e DeAndre Jordan precisa defender uma possível infiltração do armador que está bom a bola, de modo que Cousins sobra mais uma vez livre para a bola de três pontos:

 

Às vezes esse bônus de estar com dois jogadores que atraem tanta marcação acaba ajudando os outros jogadores, que ganham espaço para finalizar. Na jogada abaixo, DeAndre Jordan tem que marcar Cousins no perímetro e enquanto o Clippers não decide se dobra ou não em Anthony Davis no garrafão, outro jogador do Pelicans pode cortar para a cesta e receber um passe simples, sem nada muito trabalhado:

 

Mesmo com Rajon Rondo de volta – que em apenas 6 partidas, retornando de lesão e com apenas 20 minutos por jogo já tem média de 6 assistências por partida – o jogo de pick-and-roll do Pelicans ainda se restringe a ele e um dos membros da dupla, deixando o outro sempre parado, olhando, no máximo atraindo a marcação. Na jogada abaixo, faço o desafio: depois de pegar o rebote, ONDE ESTÁ DEMARCUS COUSINS?

 

No vídeo acima, Cousins não se dá sequer ao trabalho de voltar para o ataque, chega atrasadíssimo quando a jogada já terminou. Talvez isso explique o Pelicans ser um dos piores times da NBA em rebotes ofensivos, já que um dos membros da dupla está sempre completamente fora do garrafão, o outro está finalizando muitas vezes contestado, e constantemente um dos dois NÃO VOLTA para o ataque, porque sabe que não precisa mesmo. Podem até estar compartilhando a mesma quadra e se beneficiando do espaço que um gera para o outro, mas a verdade é que ainda jogam tão solitários quanto sempre jogaram nos piores momentos de suas carreiras.

O mais impressionante é que mesmo assim, perdendo tantas bolas, jogando de maneira individualizada e muitas vezes parecendo um dos ataques mais desorganizados da Liga, ainda conseguiram vencer o Spurs por 17 pontos essa semana, rumo a 3 vitórias seguidas e a sétima colocação na Conferência Oeste. Parte disso é talento puro, mas parte disso é aquela fresta por onde Cousins e Davis se olham, se percebem, rompem sua solidão sistêmica e conseguem fazer jogadas assim:

 

É o mesmo padrão, Cousins com a bola tentando encontrar alguma coisa sozinho. Mas aqui ele abre mão de bater para dentro, de criar o próprio arremesso, enquanto Anthony Davis abre mão de ter a bola nas mãos e de ficar parado espaçando a quadra – os dois se tornam algo que não são, e o resultado é que eles se tornam MELHORES do que a simples soma de ambas as partes. É assim que eles seriam incríveis, é assim que eles seriam imparáveis. É assim que eles seriam JUNTOS. Por enquanto isso ainda depende da criatividade dos dois, de momentos de genialidade em que surge uma conexão. Mas resta a esperança de que ao longo da temporada ambos percebam que podem criar algo verdadeiramente especial se estiverem dispostos a sacudir os velhos hábitos e tornar jogadas como essa acima em um padrão, uma constante. É a única saída para que esse time não se desmonte, condenando mais uma vez os dois às derrotas e à solidão que tanto os perseguem por toda a carreira até aqui.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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