🔒Até o fim

John Wall não aguardou o fim do seu contrato: preferiu assinar uma extensão, que funciona como um contrato que passará a valer imediatamente assim que seu contrato atual chegar ao fim em 2019. Dessa maneira, John Wall garante que estará no Washington Wizards até o longínquo ano de 2023 (quando já certamente teremos carros voadores, não é mesmo?) independente da situação em que a equipe se encontre até lá. James Harden seguiu a mesma linha: com bastante antecedência, assinou uma extensão que também o garantirá em Houston pelos próximos 6 anos, abdicando da possibilidade de ouvir ofertas de outros times. Num momento em que as grandes estrelas são disputadas a tapa, por que esses jogadores escolheriam ficar em suas equipes com antecedência ao invés de testar seu valor de mercado, podendo optar por times que inclusive estejam em melhores condições de lhes oferecer um título da NBA?

O que temos nesses dois casos acima é uma junção de fatores, mas o mais importante é certamente o financeiro. Trata-se da “Exceção para Jogadores Designados”, o nome cachimbo-na-boca daquilo que popularmente chamamos de “contratos super-máximos” ou, aqui no blog, de “POTE DE OURO”. Essa nova regra contratual permite que os times ofereçam o maior contrato possível na NBA (até 35% do teto salarial de uma equipe) para um jogador que esteja dentro dos seguintes parâmetros:

  • Tenha sido eleito para um time All-NBA (ou seja, eleito um dos 10 melhores jogadores da NBA) ou ganhado o prêmio de Melhor Defensor do Ano na temporada anterior ou em duas das três últimas temporadas, ou então ter sido escolhido o MVP (Jogador Mais Valioso) pelo menos uma vez nas últimas três temporadas.
  • Ter ao menos 8 anos dentro da NBA.
  • Estar no mesmo time desde o seu contrato de novato (ou seja, tudo bem ele ser trocado ainda no seu primeiro contrato, mas depois disso qualquer troca o desqualificaria dessa lista).

Essa regra tem a intenção de ajudar os times a manterem seus melhores jogadores que estejam com eles desde o começo de suas carreiras. Nas condições anteriores, era comum que um jogador muito bom passasse seu contrato de novato e mais uma extensão com o time que o draftou e, com 8 anos de Liga e provavelmente no auge de sua carreira, deixasse a equipe em troca de melhores oportunidades e mercados mais atraentes. Essa hipótese é particularmente assustadora para os times pequenos, que temem servir apenas como “formação” de estrelas de draft que sairão para ganhar títulos em outras franquias. Com a nova regra os jogadores realmente bons passam a ter mais motivos para ficar em suas equipes de origem, ganhando o maior salário possível dentro das regras. Supostamente essa oferta “super-máxima” poderia ter convencido Kevin Durant a ficar no Thunder, de modo que muitos chamam essa nova regra salarial de “Regra Durant”.

No entanto, os primeiros efeitos dessa regra foram efeitos colaterais bizarros que saíram pela culatra. O Sacramento Kings, vislumbrando a necessidade de ter que oferecer um contrato “super-máximo” para DeMarcus Cousins, preferiu trocá-lo por algumas paçocas para não comprometer uma parte tão grande do limite salarial num time ainda totalmente desestruturado. Na hipótese de Paul George ser eleito para um time “All-NBA” e se qualificar para o contrato “super-máximo”, o Pacers também preferiu se livrar dele antes. No fundo, oferecer esse pote de ouro é um compromisso gigantesco e ao invés de segurar suas estrelas, os times estão na verdade considerando se querem de fato se casar com elas por um prazo tão longo.

Foi Stephen Curry o primeiro a mudar essa história e ter o “pote de ouro” oferecido, num contrato de 201 milhões de dólares por 5 anos que lhe pagará, só nó último ano, a incrível fatura de 45 milhões de dólares. A negociação, entretanto, foi apenas simbólica: Curry provavelmente ficaria no Warriors com um contrato máximo comum, ao mesmo tempo em que o Warriors não pensaria duas vezes em jogar qualquer quantidade de dinheiro em sua direção. A formalização do “super-máximo” foi óbvia, esperada por ambas as partes e funcionou apenas como espécie de “prêmio” por Curry ter passado anos como um dos menores salários de sua franquia batedora de recordes.

Para John Wall e James Harden, essa questão é menos evidente. Os times precisam estar comprometidos a longo prazo e, mais do que isso, certos de que o elenco já está estabelecido o suficiente para lutar por títulos mesmo com a limitação no teto salarial que essas contratações ocasionam – e dispostos a pagar as multas necessárias quando esse teto for eventualmente ultrapassado. E os jogadores precisam abrir mão de futuras negociações e ofertas do mercado para garantir esse contrato “super-máximo” imediatamente, antes que seus times fiquem inseguros, cogitem possíveis trocas e potencialmente arruínem os critérios necessários para ser elegível para esse tipo de contrato.

A melhor maneira de entender essa parte da “insegurança” é olhar para o caso de outra estrela que poderia assinar esse “super-máximo” agora, mas ainda não aceitou a oferta: Russell Westbrook, do OKC Thunder. MVP na temporada passada, nove anos de NBA, vindo de sua extensão do contrato de novato e a carreira toda em Oklahoma, Westbrook se qualifica perfeitamente para o contrato “super-máximo”. Para garantir seu jogador e não perdê-lo em troca de nada, como aconteceu com Durant, o Thunder já colocou esse “super-máximo” na mesa como extensão, antes mesmo do contrato do jogador se encerrar ao fim da temporada 2017-18. O problema é que, embora Westbrook certamente fique tentado pelo contrato gordo (e merecido), comprometer-se com o Thunder por tantos anos é muito perigoso porque o time não tem qualquer garantia de sucesso. Paul George acabou de chegar para ajudar, mas não dá para saber nem se a união dará certo, nem se George irá continuar com a equipe ao fim da temporada. Por via das dúvidas, ao menos por enquanto, Westbrook resolveu esperar.

Essa cautela de Westbrook, perfeitamente compreensível, tem um efeito colateral: iniciar uma Guerra Fria entre jogador e franquia. A oferta de expansão só vale até o primeiro dia da temporada regular, em outubro, virando farofa se Westbrook não aceitá-la até o momento de entrar em quadra pela primeira vez na temporada 2017-18. Caso isso aconteça, o Thunder terá uma temporada inteira sem NENHUMA CERTEZA se Westbrook irá embora ou não quando os Playoffs do ano que vem chegarem ao fim. Se o pânico de perdê-lo sem nenhum tipo de compensação for demais e a temporada não estiver indo muito bem, é possível que o Thunder simplesmente troque o jogador para preparar a reconstrução – e o Westbrook, com isso, perderia os pré-requisitos para ganhar um contrato “super-máximo”, já que não estará mais com o mesmo time do seu contrato de novato. São medos reais se olhando nos olhos: o Thunder com o medo de perder sua estrela, e Westbrook com medo de ficar num time ruim e, ao mesmo tempo, de perder seu contrato “super-máximo”, já que ele é um dos poucos jogadores da NBA com as possibilidades de aceitar essa quantia assombrosa de dinheiro.

É esse tipo de situação que John Wall e James Harden acabam de evitar: estão garantindo para seus times que ficarão por muitos anos mais, de modo que as franquias não precisam se preocupar em perder suas estrelas e podem planejar o futuro de acordo. Os jogadores assinam os “super-máximos” desejados, e os times – embora tomem um baque na folha salarial – não correm o risco, tão palpável para nós nos últimos anos, de ver alguém como Durant simplesmente ir embora de mala e cuia na mão.

Evidente que a situação é mais fácil para James Harden, que está plenamente confortável em Houston, feliz com seu técnico e tem uma estreita relação com o dono da equipe e seu comprometimento em vencer imediatamente. Mas mesmo para ele a situação é de risco: o dono Leslie Alexander acaba de colocar o time à venda, o novo dono pode mudar os planos, técnicos não tendem a durar muito tempo e a química com o recém-chegado Chris Paul pode simplesmente não funcionar. A maior extensão contratual da história, que soma 227 milhões de dólares por seis temporadas (contando as duas temporadas do contrato atual), tenta compensar o risco que o jogador assume ao não esperar para ver qual será a situação ao término do seu contrato vigente.

John Wall, que recebia um contrato menor que Harden, ainda assim somará mais de 205 milhões de dólares ao término dos próximos 6 anos, equiparando-se a Harden com um salário anual de 46 milhões no último ano de seu contrato. Sua situação é a mais estranha: passará os próximos anos com um time de altos e baixos, que pode tanto ocupar o topo do Leste quanto sequer ir aos Playoffs, e tomando uma parte tão expressiva do espaço salarial que será difícil melhorar o time significativamente ao seu redor. Para o Wizards, ter Wall por esse preço significa estar disposto a pagar multas para manter outros jogadores e trazer apoio, mas isso só fará sentido se o time tiver chances reais de vencer, o que é uma afirmação questionável. O Wizards é certamente o pior time a oferecer um contrato “super-máximo” e nos servirá de indicativo dos resultados que um comprometimento desse tipo com um jogador causa numa equipe que ainda não está pronta para lutar por títulos. De todo modo, a mesma lógica se aplica aqui: o Wizards não quis arriscar perdê-lo (até porque paga uma fortuna para Bradley Beal que, sem Wall, tem tudo para render ainda menos), o jogador se tornou a cara da nova fase da franquia, há intenção de mantê-lo para além da aposentadoria, e Wall disse estar muito bem na região e na equipe, de modo que quer mesmo terminar sua carreira por lá.

Já ouvimos discursos como os de Harden e Wall antes, de jogadores alegando querer terminar a carreira numa franquia, mas essas afirmações não costumam vir tão cedo na carreira de um atleta. O medo de não ganhar um título ou de ficar preso numa situação ruim é grande demais para isso – ninguém quer ser Garnett desperdiçando seu auge no Wolves, ou Carmelo Anthony feito refém de sua burrice e do plano de reconstrução do Knicks. Jogadores gostam de deixar as portas abertas, considerando um passo de cada vez. LeBron James, por exemplo, assina contratos a CONTA GOTAS, um ano de cada vez com o Cavs, para ter certeza de que sempre haverá uma ROTA DE FUGA DESOBSTRUÍDA. São os novos “super-máximos” que estão mudando essa dinâmica, fazendo jogadores ainda em seu auge optarem por um time “até o fim”. É preciso que haja admiração comum, um time minimamente sólido, esperança de sucesso futuro, etc, etc, mas é a recompensa financeira e o caráter de “elite” que ela simboliza que está levando esses jogadores a, nessas circunstâncias, fecharem em definitivo as outras portas. O sucesso deles – e o discurso que proferirem ao aposentar – marcará um caminho importante para a próxima geração, que pode aprender a buscar ou fugir desse tipo de contrato.

Por enquanto, ainda estamos falando de um território incrivelmente novo. É por isso que Russell Westbrook está no limbo, em cima do muro, tendo que decidir até outubro se iniciará ou não uma Guerra Fria em Oklahoma. Por um lado, sua bravata em acusar Durant por deixar o Thunder de mãos abanando paira sob suas escolhas, assim como o peso do “super-máximo” que poderá receber se ficar; por outro lado, o medo de ficar preso num time que teve receio de gastar demais quando teve chance de fazer história, e que agora promete gastar o necessário mas não garante talento suficiente para fazer estrago é legítimo. Numa situação como essas, qual caminho seguir? O relógio está correndo para Westbrook e sua decisão, seja qual for, certamente fará história.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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