🔒Audiência em queda

Nessa altura da temporada passada um dos assuntos mais discutidos era o quanto o Golden State Warriors estaria fazendo mal para a NBA. Muitos temiam que a certeza do título de um time tão acima dos demais faria o público perder o interesse em acompanhar a temporada e se a liga deveria fazer algo a respeito. Não foi o caso: Não só todos estavam loucamente atentos assistindo aos jogos da NBA, com níveis altíssimos de audiência, como o Warriors acabou perdendo a final para o Toronto Raptors, um time que nunca havia conquistado um título. Nada mal para um campeonato previsível.

Ao fim da temporada aconteceu o sonho molhado dos que estavam sonhando com o fim da Dinastia Warriors. Não só o time perdeu Kevin Durant, como a NBA inteira foi tomada por uma imensa dança das cadeiras: Kawhi Leonard, Paul George, Anthony Davis, Kemba Walker, Kyrie Irving, Russell Westbrook, D’Angelo Russell, Al Horford, Jimmy Butler e mais uma enxurrada de jogadores mudaram de time. Foi quase um RESET na liga e com o bônus de que três dos times mais beneficiados – Clippers, Lakers e Nets – ficam nos dois maiores mercados dos Estados Unidos.

Todos se animaram com o fato de que pela primeira vez na história os dois times de Los Angeles, Lakers e Clippers, têm times fortes ao mesmo tempo. Será possível uma rivalidade local num dos mercados mais ricos do planeta? Uma série de Playoff com os sete jogos no mesmo ginásio e uma cidade dividida e apaixonada? Foram tantas perguntas sobre o assunto que alguns jogadores dos dois lados realmente acabaram cutucando os novos rivais e a NBA ajudou colocando o duelo em duas datas chave do calendário, o dia da abertura da temporada e a rodada de Natal. Em teoria tinha tudo para essa ser uma temporada de sucesso de público.

Mas acontece que, passados quase dois meses de temporada, a audiência dos jogos da NBA nos Estados Unidos caíram bastante. Entre TNT e ESPN, as duas redes que transmitem jogos em rede nacional no país, a queda está em 18% em comparação ao mesmo período da temporada passada. Desde a semana de abertura da temporada, 14 das 18 janelas de transmissão que podem ser comparadas com o ano passado, com dia da semana e horário semelhante, viram quedas bruscas.

O efeito cascata da divulgação da queda na audiência tem sido uma experiência interessante. Nas redes sociais, muitos torcedores passaram a criar suas próprias explicações para o fracasso na audiência, com a maioria dizendo que o jogo estava mais chato e que ninguém quer assistir só bolas de 3 pontos sendo lançadas ao alto o tempo todo. Outros adicionavam a chatice das paradas para replays da arbitragem, faltas fantasma e até culparam comentaristas como o Jeff Van Gundy, que adoram criticar a NBA enquanto fazem transmissões da NBA, quase que uma antipropaganda ao vivo do produto. Nada disso é novo, das bolas de 3 pontos ao rabugentismo hilário de Van Gundy, mas voltou à tona agora.

Um radialista da Fox Sports americana chegou a argumentar que dois dos grandes responsáveis pela queda de público seriam o imbróglio com a China e o fato da NBA ter se tornado uma liga “too woke“, que significa “muito desperto” e que é um termo usado, agora até de maneira irônica por alguns, para se referir a quem se diz ligado nas grandes questões sociais. Ou seja, a disposição da liga e dos jogadores em se posicionar politicamente estaria afastando telespectadores.

No mar de opiniões, o sempre folclórico Nick Young chegou a culpar a falta de jogadores como ele na NBA atual. Segundo o ala, a “audiência está baixa porque estão contratando um monte de jogadores que ninguém conhece e deixando os caras mais populares ir embora”. Ele diz que “as pessoas tem uma conexão” com jogadores como Lance Stephenson ou JR Smith.

O único dono a se posicionar sobre o assunto foi Mark Cuban, do Dallas Mavericks, que apontou uma questão tecnológica como responsável pela queda da audiência. Segundo ele, as pessoas estão trocando suas TVs a cabo por serviços de streaming onde não encontram jogos da NBA ao vivo. Ou seja, elas não veem partidas na ESPN ou na TNT simplesmente porque não possuem os canais. Muitos até acreditam que essas pessoas continuam acompanhando a NBA, mas o fazem via transmissões piratas que não são contabilizadas ou que vivem de acompanhar apenas compilações de melhores momentos no YouTube.

Até pouco tempo atrás a NBA via esses canais de highlights como seus parceiros: eles divulgam a NBA praticamente de graça, editam vídeos bem feitos com os melhores momentos de jogos ou de alguma atuação de destaque e isso atrai o público jovem que passa o dia no Twitter e no YouTube, que então pode passar a ver os jogos de verdade ao vivo na TV. Alguns, porém, acham que muitos podem estar ficando satisfeitos em acompanhar a temporada regular apenas por esses vídeos. Não se sabe se a queda dos números de audiência tem a ver com isso, mas a NBA tem atacado alguns de canais do YouTube nos últimos meses, seja tirando-os do ar ou impedindo a monetização do conteúdo.

O tema pode até ser mais explorado: como os jovens consomem NBA hoje? Preferem podcasts, Twitter e melhores momentos aos jogos? Por que? O que faz os sites terem melhores audiências com rumores de troca do que com conteúdo sobre basquete de verdade? Audiência da TV ainda é a maneira de se medir a popularidade em 2020? O dinheiro das emissoras ainda é essencial, mas talvez a tendência seja mesmo a de queda no longo prazo.

Podemos também especular que todas essas trocas de jogadores pela qual a NBA sofreu na última offseason não sejam boas logo de cara. Mudanças demais podem fazer algo ficar muito diferente daquilo que nos acostumados a gostar. Quem aqui nunca hesitou ou até parou de ver uma série de TV quando um dos personagens favoritos saiu ou quando a coisa ficou distante demais daquele começo apaixonante? Uma liga completamente diferente significa não saber para onde olhar. O Golden State Warriors podia irritar muita gente, mas era um ponto de referência: o vilão, o favorito, o time a ser batido, a meta do estilo de basquete jogado nos anos 2010. Nunca podemos esquecer do poder da narrativa no esporte. Nós podemos até gostar da modalidade, da técnica e da tática, mas somos pegos pra valer quando somos inseridos na boa e velha HISTORINHA. É importante saber de onde vem cada time e jogador, qual a expectativa para cada um deles, quem está decepcionando ou surpreendendo, quem é herói ou vilão. E se tudo praticamente recomeçou do zero é difícil até saber para onde olhar, são novidades se desenrolando a cada semana e é muito cedo ainda para conclusões. Em casos assim um desinteresse geral é até compreensível.

Há uma explicação muito mais desinteressante para explicar a queda, porém. Azar. Nada menos que 64% (21 de 33) das transmissões da ESPN americana até a divulgação da audiência no último dia 2 de dezembro foram de jogos que tinham ao menos uma estrela machucada. Foram até aqui muitos jogos do New Orleans Pelicans, uma aposta pesada na estrela de Zion Williamson que ainda não estreou na temporada por lesão. Algum fã casual realmente faz muito esforço para assistir Brandon Ingram e Jrue Holiday? Isso sem contar os inúmeros jogos do Warriors, que estavam sem Steph Curry, Klay Thompson e em alguns casos até sem D’Angelo Russell e Draymond Green. Coloque na lista o LA Clippers sem Kawhi Leonard, Brooklyn Nets sem Kyrie Irving e Kevin Durant e nesta semana até uma partida do Milwaukee Bucks sem Giannis Antetokounmpo. Não tem jeito, as pessoas ligam a TV para ver esses caras jogarem basquete.

O problema de explicar a queda da audiência com as lesões é que para isso só há uma resposta: esperar e torcer para melhorar. E não é assim que grandes empresas funcionam, não é assim que fãs apaixonados nas redes sociais reagem nem como analistas e jornalistas na imprensa se comportam. Nos exemplos acima vemos como cada um usa o resultado para empurrar um diagnóstico que lhe diz respeito. O torcedor saudosista que quer um basquete ~raiz~ vai criticar as bolas de 3 pontos, quem está incomodado com os jogos longos vai trazer isso à tona. Alguém que trabalha no ramo da tecnologia, como Mark Cuban, vai achar a resposta dentro do seu mundo, assim como fez Nick Young ao enxergar que a questão principal está na falta de jogadores-palhaços e o radialista polêmico vai achar uma justificativa polêmico. Eu, que vivo de contar a história da NBA enquanto ela acontece, acabei culpando o reboot narrativo do campeonato alguns parágrafos acima.

Não é estranho que justo no meio de toda essa discussão a NBA tenha vazado convenientemente para a imprensa o seu desejo de realizar mudanças drásticas na liga a partir da temporada 2020-21. Como comentamos em podcast recente, há a possibilidade de uma Copa da NBA no meio da temporada, de uma reorganização dos quatro finalistas no fim dos Playoffs, ignorando a questão das conferências, e até um mini mata-mata para definir as últimas vagas para a pós-temporada. Algumas dessas coisas, em especial a Copa, são desejos de Adam Silver há muitos anos. É curioso que a proposta ganhe fôlego justamente quando esses números de audiência sugerem que mudanças precisam ser feitas para que a NBA não perca dinheiro no futuro próximo. A crise com o mercado chinês também já tinha acendido alertas sobre como a liga não pode se desligar demais do seu mercado interno.

O grande perigo aqui é o de buscar soluções para problemas que não existem ou resoluções drásticas para problemas pequenos, o famoso dinamite para abrir a porta que o Danilo cita nos podcasts. É o que vemos na arbitragem, onde todo ano a NBA inventa novos artifícios (multa para flop, relatório dos últimos dois minutos, replay center, desafio dos técnicos) e nunca parece que o problema original foi resolvido, apenas novos foram criados no caminho.

Em um universo que envolve tanta pressa e dinheiro como o do esporte profissional é difícil convencer todos a esperar, mas só uma temporada inteira poderá trazer respostas sobre a queda de audiência da NBA nos EUA e só então poderemos começar a descobrir quais (se alguma) das suposições vindas de tantos os lados é verdadeira. Até lá cada um fará de todo para conseguir as mudanças que deseja, desde Adam Silver com sua Copa até Nick Young em busca de um time maluco para contratá-lo.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

Como funcionam as assinaturas do Bola Presa?

Como são os planos?

São dois tipos de planos MENSAIS para você assinar o Bola Presa:

R$ 14

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro e texto do FilmRoom.

R$ 20

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bolões + Vídeo ao vivo para discutir Clube do Livro e FilmRoom.

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro e texto do FilmRoom.

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bolões + Vídeo ao vivo para discutir Clube do Livro e FilmRoom.

Como funciona o pagamento?

As assinaturas podem ser feitas pelo Aplicativo PicPay. Baixe, cadastre-se, busque o Bola Presa e escolha seu plano de assinaturas. Você pode pagar com cartão de crédito ou carregar sua Carteira PicPay com boleto ou depósito bancário. Depois de assinar, escreva para bolapresa@gmail.com para mais detalhes de como ter acesso ao conteúdo exclusivo.

DÚVIDAS SOBRE AS ASSINATURAS? Nos escreva: bolapresa@gmail.com

Assine já!