🔒 Bolas de três sob suspeita

Quando as bolas de três pontos surgiram na temporada 1979-80, eram vistas como uma aberração. Técnicos e dirigentes achavam que a mudança nas regras não passava de desespero por parte de uma NBA que perdia mais e mais audiência. A imprensa acreditou que o arremesso só seria usado como último recurso, em momentos de total desespero ou então nos segundos finais dos quartos. Para muitos, só veríamos bolas de três pontos em arremessos de quadra inteira no estouro do cronômetro. Os próprios jogadores acharam a adição da linha de três pontos “desnecessária”, uma bobagem em que nenhum jogador “sério” ousaria se apoiar.

O desprezo pelos arremessos de três pontos era justificado: em sua temporada inaugural, apenas 28% desses arremessos foram convertidos. Para termos ideia, três times ficaram abaixo dos 20% de aproveitamento nessas bolas, com o pior colocado acertando míseros 17% em menos de uma tentativa por jogo. Percebemos, portanto, que as bolas de três não eram nada confiáveis, especialmente se levarmos em consideração que nenhum time na temporada 1979-80 acertou menos de 46% dos arremessos que valiam dois pontos, com a média de aproveitamento ficando acima dos 48%. Eram tempos de marcação individual, defesa por zona proibida, em que arremessos de média e curta distância eram uma opção muito mais segura do que qualquer arremesso vindo do perímetro.

No entanto, os arremessadores foram pouco a pouco se tornando cada vez melhores nas bolas de três pontos – e as defesas, cada vez melhores em impedir as bolas de dois pontos. Vimos na primeira metade dos anos 2000 potências defensivas como o San Antonio Spurs e o Detroit Pistons, ambos campeões nesse período e mantendo seus adversários na casa dos 42% de aproveitamento em bolas de dois pontos, com placares abaixando progressivamente a cada temporada. As bolas de três pontos foram se estabelecendo, portanto, como uma alternativa para desafogar os ataques cada vez mais sufocados na NBA. Ano após ano a média de aproveitamento em bolas de três crescia, até atingir o número mágico de 33%.

Assumindo um aproveitamento em bolas de dois pontos de 50% (um aproveitamento bem alto, viável apenas em alguns momentos da história da Liga), chegamos à conclusão de que um jogador converte 2 pontos a cada 2 arremessos – uma média de um ponto por posse de bola. Para conseguir essa mesma produção no perímetro, basta acertar uma cesta a cada três tentativas – 33% de aproveitamento é suficiente para produzir igualmente um ponto por posse de bola. Ou seja, um aproveitamento alto em bolas de dois pontos gera a mesma quantidade de pontos que 33% de aproveitamento em bolas de longa distância.

Isso significa que qualquer aproveitamento acima disso já compensa – passa a ser melhor arremessar de três pontos do que buscar o arremesso de dois. Por isso começaram a surgir os “especialistas”, os jogadores com 35% de aproveitamento ou mais, com carta branca para arremessos longos. Mas a questão central aqui é que a NBA não para de evoluir, de melhorar: os jogadores passaram a ter acesso a melhores condições físicas, nutrição, engenharia do esporte, treinadores mais estudados, toda uma indústria disposta a construir a estrutura para que os atletas sejam melhores do que nunca. E isso, claro, reflete nos arremesso: na temporada passada, o aproveitamento nas bolas de três pontos da NBA foi acima de 35%; na temporada atual, já supera os 36% com apenas DOIS TIMES abaixo dos 35%. Isso significa que o arremesso de três pontos de praticamente todos os times da NBA já dão mais pontos por posse de bola do que um arremesso de dois pontos que víamos lá nos anos 80. É uma questão de matemática: arremessar de três pontos simplesmente vale mais a pena. Por isso a média de 2.8 arremessos do perímetro por time em 1979-80 saltou para 29 arremessos por time nessa temporada, com o Houston Rockets sozinho tentando mais de QUARENTA E DOIS desses arremessos por jogo (mais do que as 41 bolas de dois pontos que o time arremessa por partida). Nos anos 80, arremessar de três pontos não compensava – agora, como o Rockets tenta nos mostrar, são as bolas de dois pontos que já não valem a pena.

No entanto, precisamos lembrar que nenhuma dessas tendências ou estratégias de jogo são absolutas, ou seja, nenhuma delas valeria em toda e qualquer circunstância. As tendências da NBA em arremessar bolas de três pontos não são um CAMINHO NATURAL, predestinado desde a concepção do esporte, mas sim uma RESPOSTA às dificuldades, regras, tendências e vencedores das últimas décadas. Arremessar de três pontos não vai ser SEMPRE a resposta certa, mas foi uma resposta extremamente eficaz contra as defesas que assolaram a NBA nos últimos 10 ou 20 anos.

As Finais de Conferência da NBA nesse ano nos deram indícios de que as bolas de três pontos não são uma resposta universal e nem um caminho sem volta. O Houston Rockets, baseado inteiramente na matemática das bolas de três pontos, errou VINTE E SETE desses arremessos seguidos no Jogo 7 das Finais do Oeste contra o Golden State Warriors. Esse número de erros arrastou o aproveitamento do time em bolas de três pontos na série para 31% – abaixo daquele “número mágico” que faria as bolas valerem a pena. Ou seja, arremessar de três simplesmente não compensou matematicamente nesse confronto em particular.

Mas não se trata de um caso isolado: o Boston Celtics (o segundo melhor aproveitamento em bolas de três pontos na temporada regular) errou arremessos importantes no Jogo 7 das Finais do Leste e terminou a série também com um aproveitamento de 31%. O Cleveland Cavaliers, por sua vez, ficou ali no limite do “número mágico”: acertou 32% de suas tentativas. Com esses números, os arremessos de longe são menos justificáveis e criam uma sensação de “desconforto” no torcedor comum justamente nas Finais, quando todos os olhos estavam sobre o Liga.

O que não faltam são torcedores por aí reclamando do fato de que as bolas de três pontos tomaram a NBA por completo, o que seria para alguns um jogo mais “feio”, “sem graça” ou qualquer outra reclamação puramente estética. As reclamações acabam engrossando quando essa enorme quantidade de arremessos de três pontos sequer ENTRA NA CESTA. Bolas de três pontos já geram mais erros do que os demais arremessos – lembrem-se de que só é necessário acertar uma em cada três cestas para valer a pena -, mas quando são convertidas abaixo do “número mágico” criam uma sensação de que o jogo SÓ TEM ERROS, o que alimenta um discurso de que o nível do basquete é baixo, que a qualidade está diminuindo, que nos anos 80 se acertava mais, etc, etc.

Mas o que poucos percebem é que os erros estão aumentando simplesmente porque os times estão se ADEQUANDO aos arremessos de três pontos. As defesas estão cada vez mais focadas em parar essas bolas, marcando de maneira pressionada no perímetro, abrindo mão de defensores de garrafão e – como vimos mais do que nunca nesses Playoffs – orientando os defensores a TROCAREM de alvo defensivo a cada corta-luz para que os arremessadores sempre tenham alguém grudado em seus pescoços. Por isso tantos times tentam arremessar de três pontos em transição, nos contra-ataques, que é quando as defesas estão mais vulneráveis – e também por isso as defesas estão cada vez melhores na transição, espaçando seus jogadores na quadra e tentando impedir esses arremessos. Arremessar de três pontos está cada vez mais e mais difícil, e é uma prática que aos poucos começa a cobrar seu preço.

Vemos isso no que é, talvez, o arremesso de três pontos mais importante da NBA: o arremesso da zona morta. Sua importância se dá por dois motivos diferentes: o primeiro é que bons arremessadores ali forçam a defesa a ficar longe do garrafão, facilitando as infiltrações dos outros jogadores; o segundo é que o aproveitamento médio da região, provavelmente graças à menor distância, é de absurdos 43%. Isso torna a zona morta uma área preferencial para os arremessos longos, mas os times aprenderam a se beneficiar disso – ainda que seja do outro lado da quadra. Quando um arremesso vindo da zona morta bate no aro, o autor do arremesso tem o caminho mais longo possível até a sua própria cesta – nenhum outro jogador na quadra está tão distante do outro aro. Isso faz com que as defesas contestem o arremesso como podem e imediatamente disparem em contra-ataque numa situação de 5 jogadores contra 4 defensores, o que gera um arremesso muito mais fácil e de melhor aproveitamento do que qualquer arremesso da zona morta poderia sonhar. Times como o Warriors se especializaram em punir os adversários nessas situações, o que faz com que seus adversários tentem menos desse arremesso – ou, ao menos, que passem a TEMÊ-LO mais. Não é só isso: bolas de três pontos erradas dão rebotes mais longos, de modo que os times já entram preparados para pegar rebotes defensivos que são mais facilmente transformáveis em contra-ataques.

Faz parte dessa resposta contra os arremessos de três pontos o fato de que um “especialista” como Ryan Anderson, que já foi uma das peças essenciais para o Houston Rockets ter arremessadores em todas as posições, mal tenha conseguido ficar em quadra nesses Playoffs. Isso porque os times estão atacando esses arremessadores que são vulneráveis defensivamente, especialmente fora do garrafão, com infiltrações e cortes para a cesta. Dessa maneira, times que colocam apenas arremessadores em quadra estão recebendo defesas específicas, de um lado, e sofrendo infiltrações do outro em jogadas de mano-a-mano. Arremessar demais de três pontos está deixando os times mais expostos aos adversários preparados – algo que estamos vendo particularmente nessa pós-temporada, quando as equipes tem mais tempo para preparar os ajustes táticos necessários, mas que eventualmente virará uma espécie de “saída padrão” para todos os times na temporada regular.

Certamente ninguém criou tantas tendências no basquete atual quanto esse Golden State Warriors e seus arremessos de longe, mas a NBA ainda não percebeu que o Warriors está arremessando CADA VEZ MENOS do perímetro. Se na temporada passada eram 31 tentativas por jogo (quinto maior em tentativas da NBA), nessa temporada já são menos de 29 (suficiente para um décimo sexto lugar, ou seja, a metade de baixo da lista). Isso mostra que quanto mais os times querem subir nesse trem que o Warriors iniciou, mais o Warriors desce desse trem ele próprio. Arremessando menos, o time ainda lidera a NBA em porcentagem de aproveitamento nas bolas de três pontos, com surreais 39% – contra o Rockets nas Finais do Oeste foram 38%, mesmo usando e abusando de Kevin Durant nas jogadas individuais de média distância.

Nos 4 times que mais tentaram bolas de três pontos ao longo da temporada temos o Houston Rockets (que não conseguiu converter nada em um Jogo 7 crucial) e o Toronto Raptors (que foi destroçado nos Playoffs), além do Brooklyn Nets e do Dallas Mavericks (dois dos piores times da NBA). São times que podem até jogar do jeito “matematicamente correto”, mas que ou carecem de talento necessário para executar o plano (Nets e Mavs) ou foram colocados para fora de sua zona de conforto (e de suas médias de aproveitamento) por defesas mais preparadas do que nunca para fechar o perímetro.

Todo o preceito das bolas de três pontos é que elas valem mais a pena – um conceito que só é verdadeiro dependendo dos resultados, das circunstâncias e das defesas adversárias, sempre sob suspeita. De repente, da noite para o dia, uma NBA que parecia caminhar na direção de se transformar num campeonato de três pontos do All-Star Weekend virou uma liga de mano-a-mano, aproveitamento baixo nos arremessos de longe, contra-ataques fulminantes e elencos exaustos em que se focar na bola de três não parece mais valer tanto a pena assim – tudo porque as defesas reagiram àquilo que acontecia ao seu redor.

Curiosamente, as bolas de dois pontos caminham em sentido contrário: as bolas de três ABRIRAM ESPAÇO para um maior aproveitamento nos arremessos próximos ao aro, que nessa temporada atingiu a incrível marca de 51%. Times como o Cavs agora usam arremessadores com frequência para atrair defesas e facilitar as infiltrações mais do que lhes ceder de fato a bola, dando a LeBron James mais espaço do que teve em momentos anteriores de sua carreira. Agora vale a pena infiltrar – se fecharem o caminho, valerá a pena arremessar de fora, e assim sucessivamente, até que outras possibilidades atinjam a NBA.

Ainda acredito que a escolha do Rockets em arremessar 40 bolas de três pontos por jogo é acertada – bastava que apenas 3 ou 4 daqueles VINTE E SETE arremessos errados tivessem caído para o time estar nas Finais da NBA ditando tendência, num frenesi maluco em que todos os times viveriam apenas no perímetro. Mas a derrota do time justamente porque essas bolas não caíram, depois de jogos extremamente sofridos em que a defesa do Warriors estava preparada, nos mostra que a opção do Rockets é apenas isso, UMA OPÇÃO, não um caminho do qual é impossível escapar. O Warriors continua acertando suas bolas do perímetro mas por outros caminhos, com um basquete extremamente diversificado, em menos tentativas, movimento de bola constante e jogadas fora do padrão – um trajeto distinto do que qualquer outro time por aí. Talvez, querendo imitar o histórico de vitórias do Warriors, tenhamos apenas prestado atenção na coisa errada: o fator fundamental não eram as bolas de três, afinal, mas algo mais. Um algo mais que ainda não sabemos como decifrar ou imitar.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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