ūüĒíComo parar James Harden

A temporada ainda n√£o acabou, ent√£o as m√©dias conquistadas pelos jogadores ainda n√£o est√£o consolidadas.¬†Mesmo assim, acho que a maior parte das pessoas ainda n√£o percebeu o que significa ter um jogador,¬†j√° com a metade da temporada 2019-20 se aproximando, marcando – nesse momento – 38.3 pontos por jogo. Para termos ideia de qu√£o hist√≥rico e ABSURDO √© esse n√ļmero, √© preciso buscar algum contexto.

Wilt Chamberlain, o homem do jogo de 100 pontos e dos recordes completamente absurdos, teve m√©dia de mais de 37 pontos por jogo em 4 temporadas seguidas, entre 1959 e 1964. S√£o n√ļmeros t√£o fora da realidade que a gente nem sabe muito bem o que fazer com eles – durante esse per√≠odo, por exemplo, Chamberlain teve uma temporada com mais de 50 pontos por jogo de m√©dia. Mas quando tiramos Chamberlain da conversa, encontramos apenas outros dois jogadores a superar a marca dos 37 pontos de m√©dia: o primeiro √© Elgin Baylor e o segundo √© Michael Jordan.

Elgin Baylor teve 38.3 pontos por partida¬†na temporada 1961-62, mas √© preciso entender os tempos: naquela temporada o ritmo de jogo era surrealmente acelerado, com uma m√©dia de 126 posses de bola para cada equipe por jogo. Como compara√ß√£o, o basquete veloz de hoje em dia tem uma m√©dia de 100 posses de bola por time, um n√ļmero consideravelmente menor. A quantidade maior de posses nos anos 60 ajuda a compensar a aus√™ncia da linha de tr√™s pontos: Baylor n√£o podia pontuar do per√≠metro, que sequer existia, mas dava assustadores 33 arremessos por partida, al√©m de cobrar 13 lances livres (convertendo 10).

J√° os n√ļmeros de Michael Jordan s√£o muito mais f√°ceis de transpor para os dias atuais. Jordan teve m√©dia de 37.1 pontos por jogo na temporada 1986-87 numa √©poca em que o ritmo era praticamente id√™ntico ao que √© hoje (a m√©dia era de 100.8 posses de bola por time, contra as atuais 100.5). Al√©m disso, o estilo de jogo da √©poca – jogadas no mano-a-mano contra defesas individuais – lembra muito aquilo que James Harden tenta emular hoje. De novo as bolas de tr√™s pontos s√£o uma diferen√ßa fundamental – Jordan tentava menos de um arremesso do per√≠metro por partida – mas compensava com volume (eram quase 28 arremessos por jogo) e cobrando 12 lances livres¬†em m√©dia (e convertendo 10).

Harden est√°, estatisticamente, numa chave parecida: arremessa menos (24.6 tentativas por jogo), cobra praticamente a mesma quantidade de lances livres (pouco acima dos 12, convertendo quase 11), mas infla sua pontua√ß√£o convertendo mais de 5 bolas de tr√™s pontos por partida. Estamos falando aqui de n√ļmeros que pareciam inalcan√ß√°veis na era das defesas por zona e da efici√™ncia, mas Harden consegue retornar para o jogo de mano-a-mano e com isso jogar na privada todos os avan√ßos defensivos que a NBA construiu nas √ļltimas d√©cadas. Ao fazer de maneira eficiente um estilo de jogo que os n√ļmeros avan√ßados j√° haviam decretado obsoleto, Harden for√ßa as defesas advers√°rias a repensarem seu funcionamento. Voc√™ pode n√£o ter percebido qu√£o hist√≥rica √© a temporada ofensiva de James Harden, mas as defesas da NBA certamente perceberam – e est√£o desesperadas.

Ao contr√°rio do que muitos imaginam, os lances livres n√£o s√£o o prato principal de Harden, apesar de serem uma das de suas especialidades. Harden n√£o engana os √°rbitros, mas sim seus advers√°rios – ele coloca seus defensores em situa√ß√Ķes em que s√£o obrigados a sair de posi√ß√£o, esticar bra√ßos ou tentar parar sua movimenta√ß√£o √† for√ßa,¬†o que automaticamente se transforma em lances livres. √Č sofrendo faltas que Harden ganha quase 11 pontos por jogo, mas essa √© apenas a sobremesa – nas jogadas de mano-a-mano, enfrentando individualmente seus defensores, Harden faz em m√©dia mais de 17 dos seus pontos.

De novo, um pouco de compara√ß√£o: o segundo colocado em pontos nas jogadas de isola√ß√£o nessa temporada √© Russell Westbrook, com 6.3; o terceiro colocado √© LeBron James, com 5; o quarto colocado, Damian Lillard, faz 4.9. Giannis Antetokounmpo, o jogador mais fisicamente impar√°vel da NBA, faz 3.9; Luka Doncic, que muitos consideram extremamente similar a Harden em estilo de jogo e dist√Ęncia de arremesso, faz 3.8. E os DEZESSETE de James Harden n√£o s√£o apenas uma quest√£o de frequ√™ncia e insist√™ncia, n√£o: ele faz mais pontos em cada posse de bola de isola√ß√£o do que os outros 35 jogadores que mais tentam esse tipo de arremesso. Ou seja, n√£o √© apenas que ele tenta muito; ele tamb√©m tem melhor aproveitamento nessas situa√ß√Ķes do que qualquer outro jogador que tente mais do que 1.5 arremessos desse tipo por jogo. E o mais assustador √© que aumentar o n√ļmero de tentativas deveria, em teoria, diminuir o aproveitamento, seja por cansa√ßo, seja porque as defesas se acostumam com o que est√° acontecendo e ficam mais aptas a responder de acordo. Mas n√£o √© o caso de Harden, pelo jeito.

Isso √© particularmente preocupante para as defesas porque colocar um defensor individual num jogador deveria ser a melhor marca√ß√£o poss√≠vel para par√°-lo na maior parte das situa√ß√Ķes, especialmente se voc√™ pode optar por usar seu melhor defensor dispon√≠vel. Esquemas t√°ticos ofensivos s√£o inteiramente desenhados para comprar ESPA√áO para seus jogadores, encontrando atrav√©s de passes, movimenta√ß√£o e corta-luzes um lugar sem marca√ß√£o que possa ser usado para um arremesso ou infiltra√ß√£o. Defesas s√£o desenhadas, portanto, para¬†NEGAR esses espa√ßos e manter marcadores pr√≥ximos de todos os advers√°rios. Se voc√™ tem um defensor pr√≥ximo da estrela advers√°ria, voc√™ j√° fez o mais dif√≠cil – n√£o deix√°-la livre √© a grande prioridade e costuma ser uma tarefa √°rdua. Mas o que fazer, ent√£o, se uma estrela advers√°ria – no caso, James Harden – n√£o est√° nunca livre, tem sempre um marcador pr√≥ximo, e mesmo assim produz 17 pontos sob marca√ß√£o cerrada individual, sem nenhum tipo de ajuda, jogada ou movimenta√ß√£o sem a bola, apenas arremessando bolas de tr√™s pontos com um passo para tr√°s ou batendo sua marca√ß√£o no drible? Defesas querem parar as jogadas e as movimenta√ß√Ķes advers√°rias, mas como impedir que Harden fa√ßa mais de 38 pontos por jogo sem NADA ACONTECENDO que n√£o seja ele atacando um marcador advers√°rio? O que √© poss√≠vel fazer? Pois bem, essa √© a hist√≥ria de como as defesas passaram a se ajustar – e como James Harden quebrou o basquete.


Segundo Zach Lowe, da ESPN, tudo come√ßou no dia 20 de novembro de 2019, quando o Denver Nuggets enfrentou o Houston Rockets. Alguns dias antes, 12 de novembro, o Nuggets havia perdido para o Hawks ap√≥s um esfor√ßo individual de Trae Young com 42 pontos (e 8 bolas de tr√™s pontos) e o t√©cnico do time, Michael Malone, havia prometido que nunca mais iria permitir que¬†o Nuggets perdesse para um √ļnico jogador advers√°rio. Contra o Rockets, pouco mais de uma semana depois, foi a hora de testar sua promessa. Esperava-se alguma defesa sofisticada para dificultar a vida de James Harden, mas quando o jogo come√ßou vimos aquilo que Zach Lowe definiu como “uma defesa de times do s√©timo ano”.

Diferente do que vimos na NBA, o basquete ginasial e colegial dos Estados Unidos (os atuais Ensinos Fundamental e M√©dio) sofre com uma disparidade muito grande de talento dentro das pr√≥prias equipes. As escolas s√£o respons√°veis por atrair os melhores jogadores do pa√≠s e muitas vezes acabam convencendo um √ļnico grande talento e cercando esse jogador com outros de tamanho, f√≠sico e potencial limitad√≠ssimos – gente que mal deveria estar numa quadra de basquete. Por isso √© comum vermos, nesse n√≠vel do esporte, defesas RID√ćCULAS que usam marca√ß√Ķes duplas ou triplas num jogador advers√°rio durante o jogo todo, quer ele esteja ou n√£o com a bola, desafiando o resto do elenco a conseguir acertar bandejas absolutamente livres. √Č pat√©tico, √© desesperado e s√≥ faz sentido dada a diferen√ßa colossal de talento nos times de basquete adolescentes. Ningu√©m tentaria algo t√£o prim√°rio e infantil contra um time profissional em que todos os jogadores, independentemente de seus sal√°rios ou minutos, s√£o capazes de converter quaisquer tipos de arremesso quando deixados sem marca√ß√£o.

Mas Michael Malone tinha uma promessa a cumprir e estava disposto a permitir que todos os jogadores do Rockets vencessem o jogo, desde que não se chamassem James Harden. Assim que Harden tocou na bola, o Nuggets usou uma marcação dupla, forçando um passe. E continuou com o plano até o final do jogo, quando o Rockets perdeu por 10 pontos e James Harden tinha marcado apenas 27, sua menor pontuação na temporada desde o engasgo atípico na estreia. O que era pra ser uma defesa caricata a ser usada na escolinha funcionou entre os profissionais, afinal.

Harden continuou¬†encontrando maneiras de pontuar¬†e manteve o bom aproveitamento (acertou 8 dos 16 arremessos que tentou, incluindo 4 bolas de tr√™s pontos), mas na maior parte das vezes tomou a decis√£o correta: abriu m√£o da bola para que o seu time pudesse atacar enfrentando um defensor a menos. Seus pontos vieram quase todos de contra-ataques ou de arremessos r√°pidos antes das dobras chegarem, com algumas eventuais infiltra√ß√Ķes tentando contornar os dois defensores que se amontoavam. Comeu pelas beiradas, tentando acionar seus companheiros. E o resultado √© perfeitamente resumido pela jogada abaixo:

Vejam que assim que a dobra de marca√ß√£o de Paul Millsap acontece, mesmo que NADA esteja acontecendo na jogada, Harden imediatamente aciona Russell Westbrook com um passe picado. Westbrook tem espa√ßo para arremessar, mas com um defensor se aproximando (para impedir uma poss√≠vel infiltra√ß√£o), Westbrook manda a bola para a zona morta, onde Austin Rivers √© contestado, devolve para Westbrook e a√≠ a defesa do Nuggets j√° est√° totalmente recomposta. Westbrook decide, ent√£o, come√ßar TUDO DE NOVO: devolve para Harden, acontece mais uma dobra, e Harden tenta de novo passar para Westbrook. Mas nesse ponto j√° restam apenas 4 segundos no cron√īmetro de arremesso e Paul Millsap sabe exatamente o que vai acontecer na jogada, interceptando o passe e permitindo uma cesta f√°cil de contra-ataque.

Harden faz a coisa certa, que é passar a bola frente à dobra, mas Westbrook não quer arremessar, a defesa do Nuggets tem tempo de se recompor e Harden deixa de ser um pontuador imparável para ser um jogador tentando dar um passe bizarro contra uma defesa pronta para interceptar a bola.

Dois dias depois de enfrentar o Nuggets foi a vez do Rockets pegar o Los Angeles Clippers, uma das melhores defesas da NBA, com um elenco recheado de grandes defensores capazes de enfrentar Harden no mano-a-mano, incluindo Patrick Beverley, Paul George e Kawhi Leonard. Ou seja, estamos falando de um time que n√£o tem qualquer necessidade de dobrar a marca√ß√£o em Harden antes de uma jogada acontecer, e ainda assim o que vimos em quadra foi uma c√≥pia da defesa ginasial usada pelo Nuggets. Talvez o t√©cnico Doc Rivers tamb√©m tenha feito uma promessa, j√° que na primeira vez que o Clippers enfrentou o Rockets nessa temporada, Harden marcou 47 pontos.¬†Sofrendo¬†dobras em cima de Harden em qualquer posse de bola, o Rockets acabou¬†rodando a bola e tentando dar arremessos apressados da zona morta sem nenhum sucesso. No fim das contas, James Harden acabou tentando enfrentar a marca√ß√£o dupla, tentando trombar com os defensores em movimento, e saiu de quadra com bons n√ļmeros – 37 pontos, 9 acertos em 16 tentativas, 5 bolas de tr√™s pontos, 14 lances livres – mas com outra derrota nas costas. Na coletiva de imprensa ap√≥s o jogo, Harden foi categ√≥rico: “Nunca vi isso antes num jogo da NBA”. De fato, n√£o se v√™ isso quando os jogadores em quadra t√™m mais de 16 anos.

Dois dias depois foi a vez do Dallas Mavericks copiar essa defesa adolescente de maneira ainda mais caricata, muitas vezes sequer esperando Harden bater a bola. Nos primeiros 4 minutos de jogo, j√° vimos os resultados: o Mavs roubou 3 bolas seguidas, come√ßou abrindo um 7 a 0 no placar, e um Westbrook constantemente livre no per√≠metro recebendo passes de Harden sem parar arremessou 4 bolas de tr√™s pontos, acertando apenas uma. Para dar conta de uma defesa t√£o exagerada, o Mavs escolheu dobrar em Harden com qualquer jogador que n√£o estivesse marcando a zona morta, para usar defensores mais pr√≥ximos do aro e tentar impedir que os passes virassem enterradas. Quando o jogo acabou, Harden manteve seus n√ļmeros comendo pelas beiradas (32 pontos, 11 assist√™ncias), mas o Rockets acertou apenas 22% de suas bolas de tr√™s pontos na press√£o de ter que acertar esses arremessos ap√≥s os passes r√°pidos de Harden. Resultado: derrota por 14 pontos. No terceiro jogo enfrentando defesas de escolinha, o Rockets sofreu sua terceira derrota seguida.

O pr√≥ximo jogo s√≥ aconteceu¬†tr√™s dias depois e o Rockets finalmente teve algum tempo para treinar. J√° estava evidente que todos os advers√°rios – mesmo aqueles dotados dos melhores defensores da NBA – estavam dispostos a tentar a nova defesa para impedir Harden de dominar os jogos no mano-a-mano, ent√£o o time precisava estar preparado. Ao fim desse curto treino, o Rockets que entrou em quadra para enfrentar o Miami Heat j√° era bem diferente. Para come√ßar, Harden come√ßou a receber corta-luzes no meio da quadra – √†s vezes at√© antes disso – para que o defensor que¬†est√° pressionando o Barba possa ser batido e n√£o componha imediatamente uma marca√ß√£o dupla, cedendo alguns segundos de defesa individual assim que Harden chega na quadra de ataque. Al√©m disso, Westbrook passou a usar seu espa√ßo no per√≠metro para infiltrar imediatamente, atrair a defesa e a√≠ sim devolver a bola para fora, ao inv√©s do passe imediato que vimos no v√≠deo contra o Nuggets. PJ Tucker tamb√©m passou a deixar a zona morta para receber passes de Harden na altura da linha de lances livres, podendo dali trocar passes r√°pidos para uma bandeja ao inv√©s de uma bola de tr√™s pontos. Clint Capela tamb√©m passou a se aproximar mais de Harden, ao inv√©s de se manter no garraf√£o √† espera de uma poss√≠vel ponte-a√©rea, recebendo passes na cabe√ßa do garraf√£o e devolvendo para¬†outros jogadores em movimento.¬†Com todas essas altera√ß√Ķes e um pouco mais de tempo no ataque antes de sofrer a dobra de marca√ß√£o, Harden voltou √† sua m√©dia: foram 34 pontos, 7 bolas de tr√™s pontos e uma vit√≥ria por 9.

Em seguida, o próximo adversário foi o Atlanta Hawks, que ficou tão empolgado com a ideia de dobrar em Harden a qualquer momento que em uma das primeiras posses de bola do jogo acabou se confundindo e mandou TRÊS defensores pra cima do armador. Dois passes rápidos depois e Tyson Chandler estava livre para uma enterrada.

Todo o novo arsenal do Rockets esteva ali contra o Hawks, com Westbrook infiltrando e passando para fora, PJ Tucker no garraf√£o e o corta-luz no meio da quadra, mas vimos ainda mais novidades, incluindo James Harden se movimentando sem a bola e recebendo passes enquanto cortava para a cesta e ele simplesmente enfrentando a marca√ß√£o dupla com dribles e arremessos r√°pidos ao inv√©s de se tornar previs√≠vel com os passes constantes. Al√©m disso, Ben McLemore (resgatado das cinzas por um Rockets desesperado por mais arremessadores de tr√™s pontos, frente √†s dobras em Harden) converteu 6 bolas de tr√™s pontos, punindo o plano do Hawks – que n√£o foi sequer suficiente para impedir Harden de marcar SESSENTA PONTOS, incluindo 8 bolas de tr√™s pontos e 20 lances livres. A vit√≥ria esmagadora, por 47 pontos, foi muito importante para o time: mostrou n√£o apenas que o Rockets estava se adequando √† nova “tend√™ncia defensiva”, mas tamb√©m que nem todo time podia se dar ao luxo de tentar a novidade. Defesas medonhas como o Hawks acabam ficando ainda mais expostas ao tentar as dobras pois s√£o incapazes de se recompor organizadamente enquanto a bola √© passada ao redor da quadra.

Alguns dias depois foi a vez de enfrentar o San Antonio Spurs, que imediatamente tentou a mesma defesa. As duas primeiras posses de bola do Rockets no jogo podem ser vistas abaixo e contam bem qual era o plano e a resposta a ele:

Assim que um corta-luz se aproxima, o Spurs dobra a marca√ß√£o. Das duas vezes, a jogada √© ID√äNTICA: Capela recebe um passe por estar mais pr√≥ximo de Harden, toca imediatamente para Westbrook no per√≠metro que ataca a cesta, e a√≠ devolve a bola para Capela, que ainda est√° livre. Na primeira jogada, uma bandeja; na segunda, enterrada. O t√©cnico Gregg Popovich parou o jogo imediatamente depois e as dobras passaram a ser mais eventuais, o que permitiu a James Harden marcar 50 pontos, converter 24 lances livres e dar aquela enterrada bizarra que foi invalidada pelos √°rbitros – o Rockets acabou perdendo por 2 pontos¬†no pol√™mico jogo de duas prorroga√ß√Ķes, mas n√£o foi por ser pego de surpresa dessa vez.

O próximo jogo foi então contra o Toronto Raptors, uma das melhores e mais criativas defesas dessa temporada. Será que até eles tentariam o modelo de defesa ginasial? Pois tentaram, e de maneira ainda mais absurda: que tal essa primeira jogada da partida em que Harden recebe marcação dupla SEM A BOLA, o que deixa PJ Tucker completamente livre para um arremesso de três pontos da zona morta?

A ideia foi n√£o deixar Harden jogar e desafiar n√£o apenas os arremessadores do Rockets a converterem suas bolas, mas tamb√©m Clint Capela a continuar dando os passes que vimos contra o Spurs. Nos primeiros¬†tr√™s minutos de jogo Marc Gasol roubou a bola tr√™s vezes das m√£os de Capela, por exemplo, inviabilizando completamente o uso do piv√ī fora do garraf√£o para receber os passes de Harden. Com a marca√ß√£o caricata que Harden recebeu e com um Capela sufocado, Westbrook assumiu completamente a condu√ß√£o das jogadas e Harden s√≥ cobrou 6 lances livres, arremessando meras 11 bolas, convertendo 7 e ficando com 23 pontos no total – marca ainda pior do que aquela primeira partida contra o Nuggets que inaugurou¬†a leva de marca√ß√Ķes duplas. O Raptors chegou ao ponto de marcar Harden de maneira pressionada mesmo quando ele estava sem a bola na QUADRA DE DEFESA. Tirei essa foto aqui para imortalizar o momento e poder gargalhar com voc√™s:

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Pode contar a√≠: esse √© o Rockets atacando com apenas 4 jogadores porque o Harden n√£o voltou para o ataque o Raptors manteve um defensor nele MESMO ASSIM, passando a defender com 4 jogadores tamb√©m. √Č mole?

Mas tudo bem, porque o Rockets soube se aproveitar dessa defesa exagerada para converter 22 bolas de três pontos, incluindo 8 do renascido McLemore e vencer o Raptors Рna época completo, com Kyle Lowry e Pascal Siakam Рpor 10 pontos. Foi um marco simbólico de que a defesa do Nuggets pode cobrar um preço caro, e que o Rockets sabe se aproveitar disso.

No dia 20 de dezembro foi a vez do Rockets se vingar do Clippers, um dos respons√°veis pela sequ√™ncia de 3 derrotas que¬†discutimos anteriormente. Novamente vimos as dobras, mas dessa vez o Rockets fez o ataque rodar atrav√©s de Westbrook – como havia acontecido contra o Raptors – e o armador saiu de quadra com 40 pontos, o bastante para deixar o jogo apertado at√© o finalzinho. E a√≠, com o placar estreito e o jogo avan√ßando no quarto per√≠odo, eis que o Clippers simplesmente ABANDONOU as dobras defensivas em Harden completamente. N√£o sei explicar, mas posso chutar: talvez o t√©cnico Doc Rivers tenha achado que deixar jogadores do Rockets inteiramente livres nos momentos finais poderia “pegar mal”, e que uma defesa considerada t√£o infantil seria criticada em caso de um arremesso decisivo. E a√≠, sem as dobras, James Harden converteu duas bolas de tr√™s pontos consecutivas com um passo para tr√°s em cima de sua marca√ß√£o individual e o Rockets venceu por 5 pontos. Fim.

Se uma decis√£o desesperada do Nuggets passou a ser copiada por tantos times no per√≠odo de um m√™s – sem que as equipes pudessem sequer treinar e aperfei√ßoar essa escolha defensiva – foi porque √© consenso na NBA que n√£o √© poss√≠vel deixar James Harden sob marca√ß√£o individual, como vimos pelos n√ļmeros hist√≥ricos que ele tem conseguido. Seu aproveitamento √© t√£o alto no mano-a-mano que √© prefer√≠vel passar a vergonha de usar uma defesa prim√°ria¬†do que v√™-lo dar um arremesso de tr√™s pontos contestado com um passo para tr√°s durante um jogo. Coube ao Rockets ent√£o se adequar a isso e punir essa escolha¬†prim√°ria a ponto de que, no fim de um jogo, Doc Rivers tenha receio de manter o plano e prefira o sangramento menos pior – Harden no mano-a-mano, porque pelo menos parece, para os torcedores e a imprensa, que a defesa est√° “fazendo sua parte”. Com os bons resultados do Rockets e t√©cnicos como Popovich e Doc Rivers desistindo do plano no meio dos jogos, era¬†para essa defesa ser apenas uma hist√≥ria moment√Ęnea, algo que passa batido¬†em meio aos causos de uma longa temporada – um time tentou algo inusitado, outros copiaram, o Rockets se adequou e a√≠ todo mundo pensou melhor, viu que era absurdo e desistiu. Mas ao inv√©s dessa hist√≥ria morrer,¬†eis que a vimos ser imortalizada pela¬†memor√°vel Rodada de Natal.


Com a pior campanha da NBA, o Golden State Warriors sequer deveria estar na Rodada de Natal, famosa vitrine para os¬†melhores e mais empolgantes times da temporada – a presen√ßa¬†do time na data festiva se deve somente ao fato de que ningu√©m poderia imaginar qu√£o ruim eles seriam no momento em que foi desenhada a programa√ß√£o televisiva. Com uma das piores defesas da NBA e absolutamente nada a perder, era de se esperar que o Warriors tamb√©m tentasse a “defesa Nuggets”, dobrando em Harden sem nenhum contexto, mas o Rockets deveria se aproveitar disso em todas as jogadas, assim como aconteceu logo no quarto inicial:

Ou então como nessa jogada abaixo, em que Harden sofre marcação dupla ainda na quadra de defesa, aciona PJ Tucker que (assim como vimos acontecer com Capela nos vídeos anteriores) passa imediatamente para Westbrook, que ataca a cesta:

Mas ao inv√©s disso, nada resume mais a derrota do Rockets no Natal do que essa METRALHADORA GIRAT√ďRIA DE COC√Ē que vemos no v√≠deo abaixo. Preparem o est√īmago:

https://streamable.com/mqaxq
Na primeira posse de bola, um repeteco da jogada ideal: dobra em Harden na quadra de defesa, passe para um Danuel House livre na cabe√ßa do garraf√£o e outro passe para um Westbrook cortando para a cesta. Problema: Westbrook erra a bandeja, cedendo um contra-ataque. Na segunda posse de bola, Westbrook tenta tocar o ataque sem Harden, √© bem marcado por Draymond Green, faz uma quantidade gigantesca de NADAS e no final do cron√īmetro de posse devolve a bola para o Harden num incr√≠vel “se vira a√≠”. E n√£o √© que d√° tempo de Harden receber a marca√ß√£o dupla, encontrar um passe de costas incr√≠vel para PJ Tucker, que roda a bola para um arremesso de tr√™s livre na zona morta de Danuel House? Problema: o arremesso simplesmente n√£o cai. Com Harden cobrando apenas um lance livre e o Rockets acertando apenas 31% das bolas de tr√™s pontos, o Warriors conseguiu uma vit√≥ria suada e fez parecer que Harden n√£o estava preparado para as dobras, que n√£o foi agressivo, que n√£o tinha respostas – justo em rede nacional, com a galera enchendo o bucho de comida no Natal e comentando sobre um dos jogadores que j√° est√° entre os mais criticados e mal compreendidos da NBA.

Voltando no tempo at√© novembro de 2019, vemos que Harden estava preparado e o Rockets tinha respostas, elas apenas n√£o funcionaram porque os arremessos n√£o ca√≠ram quando estava todo mundo olhando. Prova¬†de que a derrota para o Warriors foi um lapso √©¬†o √ļltimo jogo de 2019, quando o Rockets enfrentou novamente o Denver Nuggets, o time que come√ßou essa bagun√ßa toda: j√° sabendo como responder √†s dobras, Harden somou 35 pontos, o Rockets acertou 47% das suas bolas de tr√™s pontos e o Nuggets perdeu por 26 pontos de diferen√ßa, um atropelamento de trem.

O √ļnico problema √© que o Rockets tem um dos jogadores mais dominantes ofensivamente de todos os tempos e, gra√ßas a uma defesa infantil que qualquer time da NBA pode reproduzir, n√£o pode usar esse jogador exatamente como gostaria. Talvez isso n√£o impe√ßa Harden de marcar 50 pontos nos Playoffs, e ainda permita que Clint Capela, PJ Tucker e Westbrook decidam jogos importantes com mais espa√ßo e oportunidade do que teriam em qualquer outro time de suas vidas. No entanto, a ideia de que sejam eles a decidir num jogo decisivo – ou que Harden precise sair totalmente da sua zona de conforto para manter sua m√©dia de pontos – √© apavorante para qualquer torcedor com bom senso. N√£o √© que o Rockets n√£o tenha encontrado solu√ß√Ķes – pelo contr√°rio, as encontrou bem rapidamente, e com a temporada regular andando. Mas essas solu√ß√Ķes parecem, especialmente em jogos importantes, menos eficientes do que o bom e velho James Harden no um-contra-um. Na hora do desespero, precisando par√°-lo, os advers√°rios n√£o hesitar√£o em recorrer √† t√°tica ginasial, preferindo testar um arremesso de PJ Tucker do que de um dos maiores pontuadores de todos os tempos. A¬†ideia de Michael Malone talvez n√£o valha a pena na temporada regular, mas nos Playoffs faz todo o sentido: com a corda no pesco√ßo, √© prefer√≠vel perder para qualquer outro jogador n√£o chamado James Harden. E contra isso, n√£o h√° muito que o Rockets possa fazer.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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