🔒Da arte de perder

Não interessa para a NBA, enquanto Liga e enquanto marca, que um time simplesmente desista de tentar vencer partidas. Um time que não tem a menor chance de ser competitivo perde torcedores, diminui seu mercado, reduz os lucros da Liga como um todo, e influencia negativamente a qualidade e os resultados de 82 jogos durante uma temporada. Outras equipes são prejudicadas porque o interesse pelas partidas diminui quando sabemos que o jogo não será minimamente interessante, e até a classificação das equipes para os Playoffs acaba alterada, já que times da mesma Divisão da equipe que não tenta vencer enfrentam os desistentes mais vezes e ganham com isso uma vantagem no número final de vitórias. A NBA como um todo se beneficia ao construir uma competição disputada e parelha em que os piores times e os menores mercados possuem sempre chances reais de ganhar um título, e por isso existem tantas regras diferentes para tentar reduzir as disparidades: há repasse de verbas para os times com mais dificuldade, teto salarial para limitar o gasto máximo com salários, multas para quem extrapola o limite que são enviadas para os times que gastaram menos, e o sistema de draft para os jogadores que querem entrar na Liga.

No modelo atual de draft, o time com menos vitórias na temporada possui 25% de chance de conseguir a primeira escolha no leilão de novatos. As chances do segundo pior time são de 19%, as do terceiro são de 15%, as do quarto são de 11%, as do quinto são de 8%, e assim sucessivamente até o décimo quarto pior time, que possui 0.5% de chance de garantir a primeira escolha. O formato tenta resolver dois problemas ao mesmo tempo: o primeiro é equilibrar a Liga, permitindo que os piores times consigam os melhores jogadores novatos ao invés de se afundar para sempre numa espiral descendente; o segundo é impedir que muitos times queiram feder de propósito só pra garantir a primeira escolha do draft, já que as chances do pior colocado são maiores mas ainda assim muito longe de serem uma garantia.

Para termos uma ideia, nos últimos 10 anos NENHUM time com o pior número de vitórias na temporada conseguiu vencer o sorteio do draft e ganhar a primeira escolha: desde 2005, o pior time teve a segunda escolha 6 vezes, a terceira escolha 1 vez, e a quarta escolha (pior resultado possível para o time com o pior recorde da temporada) 3 vezes. Ter as primeiras escolhas no draft, em geral, garante uma melhora considerável do pior time da temporada anterior, mas por simples ironia do destino a primeira escolha não costuma ir parar no colo de quem mais precisa. Esse simples fato permite que perder deliberadamente não seja receita de sucesso instantâneo e, portanto, as derrotas aconteçam ou porque foram inevitáveis ou por escolha de equipes desesperadas, em último caso, quando não há mais para onde correr.

Um estudo feito pelo MIT mostrou que conseguir a primeira escolha do draft aumenta em média o número de torcedores no ginásio em 5% nas próximas 5 temporadas e o número de vitórias em cerca de 9% nos primeiros 4 anos do novato escolhido. Esse tipo de impacto é enorme, então é importante garantir que ele não se torne um presente certeiro para qualquer time que escolha perder deliberadamente. Lembro bem do Celtics abrindo mão da temporada 2006-07, colocando em quadra um time sem qualquer chance de vitória e terminando com o segundo pior recorde daquela temporada na esperança de draftar Greg Oden ou Kevin Durant. Resultado? Conseguiram apenas a quinta escolha no draft e o plano teve que mudar: fizeram muitas trocas, abriram mão da molecada acumulada durante a reconstrução, conseguiram Kevin Garnett e Ray Allen e ganharam um título. Exercício de recontrução histórica: já pensou se eles, ao invés disso, tivessem draftado o eternamente lesionado Greg Oden? Trocar jogadores jovens, ainda que com potencial limitado, costuma ser porta de entrada muito mais rápida e certeira rumo ao sucesso.

Embora alguns times que perderam deliberadamente tenham sido recompensados por isso (o Spurs em 1997 para draftar Tim Duncan, o Cavs em 2002 para draftar LeBron James), a primeira escolha não ser garantida dá um ar de aleatoriedade para todo o processo de reconstrução via draft. Se manter por muito tempo entre os piores times da NBA é um investimento arriscado: o time perde atenção da mídia, torcedores, patrocínios, interesse dos bons jogadores que querem assinar com times vencedores, e a chance de conseguir uma estrela incontestável – que não é algo garantido mesmo com a primeira escolha do draft porque pirralhada é sempre TERRA DE NINGUÉM – é ainda mais limitada pelo sorteio aleatório. Ainda que a NBA tema que muitos times abandonem suas campanhas medianas por melhores colocações no draft, o processo todo é inseguro o suficiente para que não se torne uma rota óbvia nem desejável.


A percep̤̣o do p̼blico Рe at̩ mesmo de in̼meros times da NBA Рquanto ao sucesso de reconstrṳ̵es via draft foi bastante alterada pelo passado recente do Oklahoma City Thunder. Escapando do acidente de trem que foi Greg Oden, o Thunder conseguiu Kevin Durant com a segunda escolha de 2007. No ano seguinte, conseguiram Russell Westbrook com a escolha 4 e Serge Ibaka com a 24. Em 2009, tiveram a terceira escolha e pegaram James Harden. Em 3 anos, a realidade da franquia foi completamente alterada Рdesde enṭo chegaram a jogar uma Final de NBA e ṇo tiveram qualquer escolha de draft melhor do que uma mediana d̩cima segunda posi̤̣o.

[image style=”” name=”on” link=”” target=”off” caption=”Projeto de reconstrução estilo DEI SORTE”]http://bolapresa.com.br/wp-content/uploads/2015/11/Thunder-capa.jpg[/image]

O sucesso do Thunder passa a falsa impressão de que draftar jogadores como Durant, Westbrook, Ibaka e Harden num período de 3 anos é algo corriqueiro – o que não tem como ser, já que escolher jogadores novatos é muitas vezes um tiro no escuro, sendo impossível precisar os resultados que terão em quadra quando jogarem no altíssimo nível da NBA. Essa sorte doida acaba camuflando os reais méritos do Thunder no período da reconstrução: colocar Kevin Durant para arremessar quantas bolas quisesse nas primeiras duas temporadas até ele se acostumar com a Liga, dar uma chance para todos os jogadores do elenco conquistarem espaço no futuro vencedor da equipe, tentar criar uma mentalidade vencedora na franquia e trazer jogadores veteranos ao primeiro sinal de vitórias. Foi essa abordagem que permitiu que Ibaka se consolidasse na NBA, que colocou o Thunder numa sequência de vitórias após o All-Star ainda em 2009, e que trouxe os veteraníssimos-quase-idosos Etan Thomas e Kevin Ollie em 2010, quando já chegaram aos playoffs. Se sorte no draft é impossível de copiar, talvez o resto do modelo é que seja de interesse para as outras franquias: o que fazer DEPOIS de conseguir jogadores de talento quando se está no fundo da NBA.


É interessante perceber que o Sixers, com sua abordagem radical de “ou é chance de título, ou é fundo do poço” que se foca única e exclusivamente em encontrar um par de grandes estrelas, vai na contramão daquilo que o Thunder propôs com sucesso alguns anos atrás. Vamos dar uma olhada nas escolhas de draft do Sixers desde 2009, quando podemos dizer que começam os primeiros sinais de um processo real de reconstrução na equipe.

[image style=”” name=”on” link=”” target=”off” caption=”Projeto de reconstrução estilo DEU RUIM”]http://bolapresa.com.br/wp-content/uploads/2015/11/Sixers-sucesso.jpg[/image]

Com a escolha 17 em 2009, o Sixers conseguiu Jrue Holiday. No ano seguinte, com a segunda escolha, foi a vez de Evan Turner. Em 2011, a escolha 16 rendeu Nikola Vucevic e a 50 rendeu Lavoy Allen. Em 2013, Michael Carter-Williams foi a escolha 11. Em 2014, Elfrid Payton foi a escolha 10 e Joel Embiid foi a 3. E agora em 2015 temos o sensacional Jahlil Okafor que caiu no colo do Sixers com a terceira escolha.

Junta essa galera inteira aí e temos um time novo e de respeito com titulares e banco de reserva pra avançar nos playoffs do Leste: Jrue Holiday é o armador titular no Pelicans, Elfrid Payton é o armador titular no Magic, Vucevic é um dos melhores pivôs da NBA no Magic, Lavoy Allen começou a temporada como titular no Pacers, Michael-Carter Williams é titular no Bucks, Evan Turner é titular no Celtics. Todos eles foram trocados por futuras escolhas de draft, jogadores ainda na Europa que não ocupam espaço no elenco, ou pelo Andrew Bynum que era um sonho de “estrela definitiva” para a franquia e pelo qual, segunda essa filosofia bizarra, valia a pena arriscar quantos moleques fossem necessário. Todos são jogadores sólidos, talentosos, cheios de potencial, mas que foram mandados embora porque não eram “a” estrela, porque não iriam sozinhos transformar o futuro da franquia.

Isso quer dizer que se você não é uma estrela óbvia e dominante, não há espaço para que você conquiste seu lugar no elenco – e portanto nenhum motivo para você se esforçar pela equipe, mostrar que se encaixa no esquema tático, etc. Raios, não existe sequer esquema tático definido! Não há como surgir um Serge Ibaka nesse tipo de ambiente. É por isso que 6 dos 12 jogadores que entraram em quadra pelo Sixers nessa temporada sequer foram draftados. Do total de minutos acumulados pelos jogadores do Sixers na temporada, 38% vieram desses jogadores não draftados, restos do resto. Nas outras equipes da NBA, esse número não passa de 8%. Jogadores minimamente veteranos, que poderiam ajudar a criar uma cultura de vitórias na franquia e não deixar os novatos inteiramente perdidos, também foram dispensados ao longo desses anos, como foi o caso de Thaddeous Young e Spencer Hawes, que alcançaram o melhor momento de suas carreiras após deixar o Sixers. O que temos aqui é um time colocando todos os seus esforços justamente em algo que depende da sorte (encontrar grandes estrelas) e se atrapalhando inteiro com algo que está perfeitamente dentro das possibilidades de qualquer franquia: colocar a molecada para jogar, permitir que mostrem seu valor, prometer um futuro vitorioso em breve, trazer veteranos que tornem essas vitórias possíveis, e se reerguer num período de 3 ou 4 anos.

Assim como muitos torcedores, o Sixers entendeu tudo errado: ainda acha que a NBA é uma liga dominada pelas grandes estrelas que surgem do draft, ou seja, vindas através de derrotas deliberadas e consecutivas, quando na verdade o draft é um espaço de aleatoriedade e que, portanto, exige que a equipe permita que talentos surjam e se consolidem dentro de quadra, com planos de reestruturação mais breves. As únicas reconstruções necessariamente demoradas são aquelas em que o time está inteiramente comprometido com salários milionários por uma década e precisa mudar tudo de repente sem a flexibilidade financeira para isso (né, Nets?), o que obviamente não é o caso do Sixers. Não há motivo nenhum para a equipe da Philadelphia não querer vencer agora e amargar 13 derrotas em 13 partidas. O que o Thunder nos ensinou com sua reconstrução, no fundo, foi que não adianta se manter no fundo da NBA para colher frutos infinitos, até porque se você conseguir talento DEMAIS, vai ter que abrir mão de alguns jogadores eventualmente. É necessário admitir a derrota, pegar aquilo que estiver disponível, e se erguer de novo o mais rápido possível, criando um lugar com chances de vitória que atraia outros jogadores experientes. É vencendo, e não perdendo, que os grandes talentos se consolidam.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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