🔒Depois de Brad Stevens

Antes de estrear pelo Cleveland Cavaliers, Isaiah Thomas era uma espécie de “salvador” para a torcida. Tudo que havia de errado com a equipe seria salvo quando ele finalmente retornasse de lesão. Suas aparições breves no telão levavam a torcida ao delírio e sua estreia foi uma festa monumental que deixou torcedores e companheiros de equipe impressionados. Mas desde então, a torcida está convencida não apenas de que Isaiah Thomas não é a solução para os problemas da equipe mas também de que o armador talvez seja o responsável direto por alguns desses problemas. Agora, toda vez que Isaiah Thomas erra um arremesso de três pontos é possível ouvir a torcida vaiando; suas limitações defensivas geram protestos enfurecidos das arquibancadas.

Parte disso é simplesmente a frustração de que as dificuldades do Cavs não se resolveram, esperanças irreais de resolução sendo esmagadas pela dura realidade. Isaiah Thomas seria incapaz de arrumar todas as mazelas que afligem a equipe nesse momento, da dinâmica nos vestiários às dificuldades táticas em quadra. Mas parte dessa insatisfação é também motivada pelas próprias atuações de Isaiah: o armador está acertando míseros 23% de seus arremessos de três pontos e, contra todo o bom senso, está PIORANDO. Nas últimas 7 partidas, Isaiah converteu apenas 5 de suas 33 tentativas no perímetro, assustadores 15% de aproveitamento. Seu aproveitamento em todos os arremessos, incluindo bandejas, é de 35%, disparado o pior de toda sua carreira. Mesmo que o armador não mereça a quantidade de ódio e o teor das críticas que está recebendo da torcida, o que não faltam são motivos para vaiar todas as vezes em que ele tenta um arremesso de quadra.

A distância dessa para a temporada anterior, em que Isaiah Thomas era um sério candidato ao prêmio de MVP, é colossal. Sua lesão no quadril deve realmente ter comprometido sua capacidade de pontuar, concluímos. Mas quando nossa atenção se volta para outros ex-membros do Boston Celtics que também estão em casas novas, vemos que um padrão começa a emergir.

Avery Bradley era um sério candidato ao prêmio de Melhor Defensor da NBA e muitos torcedores do Celtics ficaram ENLOUQUECIDOS quando descobriram que ele havia sido trocado. Bradley se tornou um símbolo dos últimos anos em Boston, um ícone de superação, esforço e defesa. Cansei de ver torcedores se sentindo roubados com a troca, afirmando que o Celtics sentiria falta demais não apenas da defesa de Bradley, mas também de seus arremessos de três pontos. Avancemos alguns meses no futuro e aqui estamos nós, com Bradley sendo trocado MAIS UMA VEZ por ter se mostrado completamente desnecessário no Pistons: seu aproveitamento nos arremessos caiu vertiginosamente e todas as métricas possíveis (plus/minus, valor comparado com os jogadores que substitui, pontos que concede a cada 100 posses de bola, índice de produção de vitórias, etc, etc) apontam que o Pistons é melhor quando ele não está em quadra. Mesmo analistas que ignoram as estatísticas começaram a apontar que a obsessão de Bradley por pressionar os armadores adversários acaba prejudicando a defesa coletiva de sua equipe, quebra alguns combinados de troca de marcação e o torna um alvo fácil para qualquer corta-luz. Mesmo no teste do olho, já não faltam indícios de que Avery Bradley na verdade nunca foi um defensor tão bom assim.

Se pensarmos em Jae Crowder, a situação fica ainda mais evidente. Muitos se opuseram à troca por Kyrie Irving afirmando que Irving não era bom o suficiente para o time abrir mão de Jae Crowder, um talento incrível, promissor e incrivelmente barato para o que fazia em quadra. Chegou no Cavs com gente considerando que o time de Cleveland tinha se dado melhor na troca, titular absoluto e um jogador que supostamente se encaixaria imediatamente por ser versátil e completo. Pois bem, nesse momento ele está acertando apenas 41% dos seus arremessos (contra 46% de sua última temporada em Boston) e diminuiu drasticamente sua produção em absolutamente tudo, pontos, rebotes, assistências, roubos e tocos. Pior: sua dificuldade em acertar arremessos, se envolver no ataque e acertar as rotações ofensivas muitas vezes lhe força para fora da quadra, podando minutos cruciais para seu desenvolvimento.

Enquanto isso, Kyrie Irving, historicamente um mal defensor e muitas vezes criticado por forçar arremessos impossíveis, está no Celtics acertando quase 49% de seus arremessos, tendo a temporada mais eficiente de sua carreira e números defensivos muito acima da média. Irving compõe agora a melhor defesa da NBA (com larga vantagem para o segundo colocado, o San Antonio Spurs) e as conversas de que ele comprometeria o poder defensivo de qualquer equipe parecem hoje completamente absurdas.

Mas, oh não, Irving lesionou seu quadril e teve que ficar fora por 3 partidas consecutivas. Como substituir seus 25 pontos e 5 assistências de média por jogo? Basta usar Terry Rozier, um pirralho em seu terceiro ano de NBA, vindo de médias de 5 pontos por partida na temporada passada. Substituindo Irving ele fez um triple-double em sua estreia como titular na carreira (17 pontos, 11 rebotes, 10 assistências) e 31 pontos no jogo seguinte. Terminou seus três jogos como titular com médias de 23 pontos, 8 rebotes e quase 6 assistências. Já vejo torcedores do Celtics convencidos de que ele é um gênio e de que qualquer troca que envolva o jovem armador seria uma loucura – como foram as trocas de Jae Crowder e Avery Bradley.

Talvez seja a hora de admitirmos que todos os jogadores que tem oportunidade de atuar pelo Celtics nos últimos anos rendem em altíssimo nível – um nível que eles não conseguem repetir quando deixam a equipe. Isaiah Thomas era bom no Suns, mas tinha baixo aproveitamento e era um desastre defensivo. No Celtics passou a ter situações melhores de arremesso e passou a ser bem escondido na defesa, comprometendo muitíssimo menos e às vezes até parecendo um defensor decente ao atacar as linhas de passe. No Cavs, voltou a ser um desastre defensivo especialmente porque o técnico Tyronn Lue quer que Isaiah cubra pivôs no garrafão quando há troca de marcação no corta-luz, o que é completamente absurdo e fora da realidade. Não se trata da capacidade individual defensiva do armador, mas sim das situações em que ele é colocado. No Celtics, ficava na zona morta; no Cavs, está sempre exposto com alguém atacando a cesta em cima dele no garrafão.

Desde que Brad Stevens chegou ao Celtics na temporada 2013-14, esse padrão se repete. Jeff Green, aquela famosa enganação porque todo mundo ainda acha que existe algum potencial ali, saltou de 12.8 pontos por jogo para 16.9 com a chegada de Stevens; na temporada seguinte, voltou a subir para 17.6 pontos por jogo, ambos máximos da carreira. Foi então trocado para o Memphis e seus pontos despencaram para 13 por jogo; trocado em seguida para o Clippers, afundou ainda mais ainda rumo aos 11 pontos por partida. Hoje, também no Cavs, são 10 pontos por jogo – ele simplesmente nunca mais foi o mesmo. Tyler Zeller, que hoje não vale quase nada na NBA – nessa semana foi trocado para o Bucks por uma escolha de segunda rodada – só teve uma boa temporada, justamente quando Stevens chegou no Celtics, com 10 pontos e 6 rebotes por jogo em 20 minutos de média. Jared Sullinger, que hoje faz 3 pontos por jogo, teve 13 pontos e 8 rebotes de média com Stevens. Situações similares se aplicam a Evan Turner, Jordan Crawford, Courtney Lee e Brandon Bass. Pareciam bons quando comandados por Brad Stevens e, fora de Boston, tiveram produções muito inferiores.

Ao meu ver, essa percepção muda um pouco a maneira como deveríamos analisar o processo que trouxe o Boston Celtics até as Finais da Conferência Leste no ano passado e a primeira colocação no Leste nessa temporada até aqui. Por muito tempo, acreditou-se que o Boston tinha feito um trabalho de reconstrução exemplar, dando espaço para jogadores jovens, acumulando escolhas de draft e COLECIONANDO gente promissora em todas as posições. Em alguns momentos o Boston parecia um depósito de jovens estrelas e muito se falava sobre qual seria o futuro de todas elas, como o time faria para renovar todos esses contratos. Essa narrativa se mantém: Jaylen Brown parece uma estrela em formação e Jayson Tatum ainda é sério candidato a novato do ano numa das melhores levas de calouros de todos os tempos. Mas e se nós tivermos sido enganados? E se na verdade o Boston não estava acertando com o draft, não estava de fato acumulando talento, e sim NOS FAZENDO ACHAR que aqueles jogadores completamente comuns e cheios de falhas valiam mais do que deveriam? E se, enquanto os torcedores do Celtics babavam por ser uma franquia que havia unido Isaiah Thomas, Marcus Smart, Avery Bradley e Jae Crowder, a realidade fosse que os quatro nem eram tudo isso mas Brad Stevens escondia suas falhas de uma maneira tal que ganharam valor suficiente para, em trocas, gerar como retorno talento genuíno?

Eu já vi Isaiah Thomas jogar com meus próprios olhos e ele é fenomenal; a defesa de Bradley já me tirou o fôlego muitas vezes. Mas também posso dar relatos empolgados das atuações de Jeff Green e Jared Sullinger no Celtics de Brad Stevens e hoje sei sem dúvida alguma que os dois são jogadores muito inferiores ao que pareciam. Cheguei ao ponto em que Brad Stevens me faz questionar MEUS PRÓPRIOS SENTIDOS e minha percepção de talento numa quadra da NBA. Nada é mais difícil do que julgar um jogador ENXUGANDO o peso que as escolhas táticas de seu time tem sobre suas atuações, e quando um técnico é espetacular e capaz de esconder as falhas de seus jogadores, esse processo fica ainda mais complexo. Jayson Tatum é um dos mais versáteis e maduros novatos que eu já vi jogar, mas como posso, depois de tantas evidências acima, atribuir isso a ele e não à situação tática em que foi colocado? Brad Stevens me deixa maluco: não sei mais confiar naquilo que Tatum me mostra todos os dias.

Muito se fala sobre o que o Boston Celtics deveria fazer com Marcus Smart, um dos melhores defensores da NBA  e um armador cada vez mais centrado. Valeria a pena cobrir as ofertas gigantes que ele certamente receberá de diversos times? Nesse momento, minha resposta é um categórico “não”. Marcus Smart é um grande defensor, uma força caótica que causa um nível altíssimo de pressão nos ataques adversários. Mas ele não chega a converter 30% dos seus arremessos de três pontos e está num time que faz Kyrie Irving parecer um bom defensor. Por que não deveríamos assumir que qualquer outro defensor razoável se encaixaria igualmente bem na função, tendo suas falhas escondidas e conseguindo produção similar por salários muito menores? Trocar Marcus Smart não seria a mesma estratégia que transformou Avery Bradley e Jae Crowder em jogadores sólidos, que já tinham produção mesmo antes de adentrar o esquema mágico de Brad Stevens?

Talvez o processo de reconstrução do Celtics não exija grande talento no draft e a sorte de encontrar jogadores talentosos todos os anos, mas sim um dos melhores técnicos da NBA e a capacidade de valorizar jogadores que não são espetaculares para lhes extrair valor em quadra e nas trocas. Quando times em reconstrução como o Sacramento Kings dão minutos para veteranos como George Hill ou Zach Randolph, deixam de criar valor para os novatos – mesmo que eles saibam que os novatos não sejam tão bons, ou que não estejam tão preparados. Certamente Jaylen Brown e Jayson Tatum não estavam preparados para a situação em que foram colocados nessa temporada, segurando a carga ofensiva que a lesão de Gordon Haywood criou. Mas Brad Stevens lhes deu não apenas a oportunidade de contribuir mas também lhes criou a SITUAÇÃO IDEAL para que possam produzir em larga escala. Os outros times não vão julgar que o esquema tático é impecável, vão apenas julgar que os jogadores são espetaculares; muitas equipes venderiam a mãe pela chance de ter Marcus Smart, por exemplo.

Não restam dúvidas de que a reconstrução do Celtics é um modelo a ser seguido – tudo leva a crer, por exemplo, que o Los Angeles Clippers planeja simular o plano. Mas talvez tenhamos entendido a reconstrução mal; talvez não tenhamos percebido qual era a real sacada da franquia. Talvez não tenhamos dado o mérito necessário a Brad Stevens, enquanto nos preocupávamos histericamente com os Avery Bradleys, Jae Crowders e Jared Sullingers da vida. Pra mim fica cada vez mais claro: o real valor dessa equipe estava o tempo todo em outro lugar.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

Como funcionam as assinaturas do Bola Presa?

Como são os planos?

São dois tipos de planos MENSAIS para você assinar o Bola Presa:

R$ 14

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro e texto do FilmRoom.

R$ 20

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bolões + Vídeo ao vivo para discutir Clube do Livro e FilmRoom.

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro e texto do FilmRoom.

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bolões + Vídeo ao vivo para discutir Clube do Livro e FilmRoom.

Como funciona o pagamento?

As assinaturas podem ser feitas pelo Aplicativo PicPay. Baixe, cadastre-se, busque o Bola Presa e escolha seu plano de assinaturas. Você pode pagar com cartão de crédito ou carregar sua Carteira PicPay com boleto ou depósito bancário. Depois de assinar, escreva para bolapresa@gmail.com para mais detalhes de como ter acesso ao conteúdo exclusivo.

DÚVIDAS SOBRE AS ASSINATURAS? Nos escreva: bolapresa@gmail.com

Assine já!