ūüĒíDuas d√©cadas de enganos

Em 1985, o New York Knicks¬†conseguiu com a primeira escolha do draft o piv√ī Patrick Ewing. Com ele no elenco o time levou ainda mais dois anos para conseguir chegar aos Playoffs, mas a partir de ent√£o n√£o saiu mais da p√≥s-temporada. Sob comando do piv√ī, o time foi aos Playoffs 13 vezes consecutivas, incluindo 4 Finais da Confer√™ncia Leste e duas Finais da NBA, em 1994 e 1999. Em 2000, ap√≥s o¬†Knicks ser derrotado nas Finais de Confer√™ncia, Patrick Ewing foi trocado para o Seattle Supersonics. Ewing j√° se aproximava do final de sua carreira e apenas dois anos depois se aposentaria, incomodado por constantes les√Ķes nos joelhos. Sem ele o Knicks precisava de um plano de reconstru√ß√£o para voltar ao topo. Dezenove anos depois, nem sinal de reconstru√ß√£o bem sucedida. O Knicks voltou √† p√≥s-temporada apenas 5 vezes desde ent√£o: uma na temporada seguinte √† sa√≠da de Ewing, uma outra que acabou numa varrida na primeira rodada com Stephen Marbury na arma√ß√£o e tr√™s sob comando de Carmelo Anthony. Se faltaram campanhas de sucesso, sobraram trocas absurdas, contrata√ß√Ķes indefens√°veis e esc√Ęndalos de todos os tipos. Quem v√™ Kristaps Porzingis ser trocado para o Mavs e quer entender de verdade o que est√° acontecendo precisa encaixar essa decis√£o numa hist√≥ria de quase 20 anos de fracassos e confus√£o.

Na segunda temporada do time sem Patrick Ewing, 2001-02, o ent√£o t√©cnico do Knicks, Jeff Van Gundy, se desligou da franquia ap√≥s 19 jogos. Sua alega√ß√£o, “problemas de foco” ap√≥s ter levado o time a uma Final da NBA alguns anos antes, parece ter tentado encobrir as crescentes desaven√ßas entre ele e James Dolan, o recente dono do Knicks, a respeito do futuro do time. Ap√≥s um ano sab√°tico, Van Gundy voltaria a um cargo de t√©cnico no Houston Rockets, enquanto o Knicks teria outros DEZ T√ČCNICOS¬†a partir de ent√£o. Sem Van Gundy o time deixou de ir aos Playoffs pela primeira vez em 14 anos.

Para tentar se recuperar desse baque, em 2002 o time resolveu abrir m√£o de sua escolha de draft (nosso Nen√™, que ajudou a levar o Nuggets aos Playoffs¬†nos primeiros anos de carreira e est√° a√≠ firme e forte jogando at√© hoje) e de Marcus Camby (que nos anos seguintes seria eleito Melhor Defensor do Ano), parte fundamental do time nas temporadas anteriores, numa troca por Antonio McDyess. A aposta era de que McDyess, apesar de estar lutando contra uma s√©ria les√£o nos joelhos, devolveria a New York uma “estrela de verdade” para tapar o buraco deixado por Ewing. Na pr√°tica, McDyess jogou MENOS DE DOIS MINUTOS de um jogo de pr√©-temporada e estourou novamente seu joelho, perdendo todo o resto da temporada.

Quando voltou na temporada seguinte, jogou apenas 18 partidas e j√° foi novamente trocado, dessa vez por Stephen Marbury, ent√£o armador do Phoenix Suns. A troca marcou a primeira atua√ß√£o de Isiah Thomas como General Manager do Knicks, cargo que ele assumiu em 2003 e que se tornou uma das piores passagens de um executivo por uma equipe da NBA em toda a hist√≥ria. A troca por Marbury n√£o apenas mandou McDyess embora como tamb√©m limou o time de qualquer profundidade, enviando v√°rios jogadores de apoio, e tamb√©m de uma escolha de primeira rodada – que no futuro se tornou Gordon Hayward. Querendo mostrar servi√ßo e construir uma equipe forte “imediatamente”, Isiah fez ainda outras trocas,¬†demitiu¬†o ent√£o t√©cnico Don Chaney, e depois¬†mandou Dikembe Mutombo embora para poder apostar em “piv√īs melhores”. Eddy Curry, aposta que estava tendo dificuldades para engrenar no Chicago Bulls e que havia sido diagnosticado com um problema card√≠aco que poderia impedi-lo de jogar basquete, foi o escolhido. O piv√ī criou uma crise com o Bulls por se negar a fazer um teste gen√©tico que mostraria os reais riscos dele ter uma quest√£o card√≠aca s√©ria no futuro, ent√£o Isiah achou que seria uma boa ideia oferecer uma troca por ele envolvendo v√°rios jogadores do Knicks, duas escolhas de segunda rodada no draft, uma escolha de primeira rodada que se tornaria LaMarcus Aldridge e a possibilidade de inverter a ordem da escolha entre Bulls e Knicks em 2007, o que permitiu que o Bulls ficasse com Joaquim Noah.

Al√©m de Curry, Isiah Thomas ofereceu um contrato de 30 milh√Ķes de d√≥lares (uma fortuna ainda maior¬†na √©poca) para Jerome James, piv√ī que vinha de meia d√ļzia de bons jogos pelo Sonics.¬†O jogador chegou ao Knicks completamente fora de forma, se tornou reserva de Eddy Curry e jogou 9 minutos por partida, com 3 pontos e 2 rebotes de m√©dia. Al√©m de contratar Jerome,¬†Isiah tamb√©m tentou trazer para o time uma “estrela”, Steve Francis. O armador havia sido uma sensa√ß√£o no Houston Rockets, mas acabara de ser trocado para o Orlando Magic e estava em evidente decl√≠nio f√≠sico e t√©cnico. Mal possou dos 10 pontos por jogo em New York, embora ganhasse um sal√°rio milion√°rio e o time tenha aberto m√£o de Trevor Ariza, draftado em 2004, por ele. O time tamb√©m recebeu Jalen Rose, uma ex-estrela que o Raptors desesperadamente tentava se livrar por ter um contrato gigante e um jogo apagado pela idade. N√£o √† toa o¬†Knicks foi o √ļltimo colocado da Confer√™ncia Leste na temporada 2005-06 mesmo ultrapassando o teto salarial em 75 milh√Ķes de d√≥lares, fora as multas. E n√£o demorou para Francis ser trocado por Zach Randolph, com um sal√°rio ainda maior e mais longo, e que tamb√©m chegou ao time completamente fora de forma.

Nem Marbury (que tinha brigas p√ļblicas frequentes com seu ent√£o t√©cnico Larry Brown) nem Eddy Curry (que teve 13 pontos e 6 rebotes de m√©dia¬†em sua primeira temporada pelo¬†Knicks) estavam dando certo em New York nesse ponto e os gastos alt√≠ssimos n√£o se justificavam, ent√£o Isiah Thomas resolveu demitir Larry Brown e SE CONTRATAR como t√©cnico do time para ver se¬†colocava ordem na casa. O time at√© melhorou um pouco, mas Isiah e Marbury come√ßaram a ter brigas frequentes e, dizem, tentaram se socar numa viagem de avi√£o quando o t√©cnico disse que o armador passaria a ser reserva do time. Para piorar, nessa mesma √©poca Isiah foi processado¬†num esc√Ęndalo de abuso sexual¬†por uma funcion√°ria do Knicks, foi considerado culpado e¬†teve que pagar 11 milh√Ķes de d√≥lares. No meio dessa bagun√ßa o time continuou incapaz de chegar aos Playoffs e a torcida pedia a cabe√ßa de Isiah (e de Marbury) diariamente no gin√°sio.

Em 2008 a situação ficou insustentável e Isiah foi finalmente demitido. O saldo final de sua passagem por lá foi uma folha salarial abarrotada de contratos péssimos, Marbury brigando com técnicos, Eddy Curry, Zach Randolph e Jerome James totalmente fora de forma e incapazes de jogar basquete em alto nível e escolhas de draft enviadas para outros times capazes de formar um elenco com Nenê, Gordon Hayward, Joaquim Noah e LaMarcus Aldridge (e mais Trevir Ariza, que foi mandado ainda pirralho).

Para tentar arrumar a situa√ß√£o, Donnie Walsh assumiu o cargo de General Manager da equipe com a promessa de que iniciaria uma “nova era de reconstru√ß√£o”. Sua primeira a√ß√£o foi contratar o t√©cnico Mike D’Antoni, que¬†teve¬†no Phoenix Suns¬†muitos anos de sucesso. O problema √© que Eddy Curry e Zach Randolph eram incapazes de jogar no esquema t√°tico acelerado de D’Antoni e Marbury n√£o suportava o t√©cnico por nada no mundo. Ao ser colocado no banco,¬†Marbury¬†chegou a fugir¬†da equipe sem dar not√≠cias, fazer amea√ßas a membros da comiss√£o t√©cnica e eventualmente foi PROIBIDO de se aproximar do gin√°sio do Knicks enquanto o time tentava se livrar do seu contrato. Ele estava t√£o pirado na √©poca que chegou a fazer transmiss√Ķes pela internet COMENDO VASELINA, algo que supostamente sua av√≥ havia lhe ensinado para cuidar da sa√ļde. Quando finalmente resolveram pagar o resto do seu¬†sal√°rio s√≥ pra ele ir embora e deixar todo mundo em paz, Marbury ainda jogou algumas partidas pelo Celtics antes de se mudar em definitivo para a China, onde jogou basquete at√© se aposentar no ano passado como uma estrela por l√°.

O plano de Walsh como novo General Manager era de pensar no futuro, n√£o tentar vencer no desespero. Trocou¬†Jerome James e Zach Randolph (quando Randolph finalmente estava jogando bem!) por pacotes de bolacha s√≥ para abrir espa√ßo salarial para a free agency de 2010, quando poderiam tentar contratar LeBron James, e trocou Jamal Crawford, j√° um¬†jogador estabelecido, pelo pirralho Al Harrington. Em 2009 a ideia era inclusive draftar Stephen Curry com a oitava escolha, mesmo que ele fosse considerado ainda “muito cru”, mas como Curry foi pego uma escolha antes, acabaram tendo que se contentar com Jordan Hill (ao inv√©s de DeMar DeRozan, que tamb√©m estava dispon√≠vel). A press√£o por contratar LeBron come√ßou a aumentar por parte do dono James Dolan (que amea√ßou trazer Isiah Thomas DE VOLTA como consultor, porque pelo menos ele era “mais agressivo”), ent√£o o time abriu m√£o de¬†uma escolha de primeira rodada,¬†mais Jordan Hill e Jared Jeffries (que D’Antoni estava transformando num piv√ī ultra-vers√°til, muito √† frente do seu tempo) para receber o contrato expirante de um combalido e melanc√≥lico¬†Tracy McGrady, j√° em franca decad√™ncia gra√ßas a problemas nos joelhos,¬†tudo pra ter certeza de que teriam espa√ßo em 2010. Ali√°s, parece fetiche: o Knicks virou o CEMIT√ČRIO DE JOELHOS, o lugar em que todos os joelhos do mundo¬†iam¬†para poder morrer em paz.

Quando 2010 chegou, o Knicks contratou sua primeira grande estrela em uma d√©cada: Amar’e Stoudemire, vindo de campanhas impressionantes com o Phoenix Suns. Havia preocupa√ß√£o com seus joelhos, d√ļvidas sobre como seria seu jogo ultra-agressivo quando seu f√≠sico desse uma deteriorada e receios sobre seu funcionamento em outros esquemas t√°ticos, mas a ideia de ter um √≠dolo era grande demais para recusar. S√≥ faltava, claro, trazer tamb√©m LeBron James para ficar ao seu lado. Dizem que a tentativa de convencer LeBron teve de tudo: reuni√£o com o t√©cnico Mike D’Antoni mostrando como seu esquema t√°tico levaria o jogador a um outro n√≠vel, outdoor com o LeBron na frente do Madson Square Garden, o ex-jogador Allan Houston dizendo que o time tratou ele bem quando descobriram que seus joelhos n√£o lhe permitiriam mais jogar basquete, depoimentos de ex-jogadores sobre como jogar no gin√°sio do Knicks √© o que existe de mais espetacular no esporte, e a promessa de, via contratos publicit√°rios em New York, tornar LeBron o “primeiro atleta bilion√°rio do mundo”. Tudo lindo e maravilhoso, com a exce√ß√£o de que LeBron preferiu abrir m√£o disso tudo e ir jogar com Dwyane Wade, um sonho de longa data. Acabou escapando de uma furada: at√© o depoimento do Allan Houston era mais prova de INCOMPET√äNCIA do Knicks do que de boas maneiras. O jogador tinha um contrato de mais de 100 milh√Ķes de d√≥lares quando descobriram que seus joelhos haviam virado farofa, de modo que o jogador era imposs√≠vel de trocar e o espa√ßo salarial que ele ocupava era gigante. A NBA criou ent√£o uma regra que permitia √†s equipes se livrar de um jogador do seu elenco e desocupar o espa√ßo na folha de pagamento, e o Knicks usou essa regra, claro, mas com OUTRO JOGADOR, uma outra contrata√ß√£o merda, o piv√ī Jerome Williams. Tudo com a expectativa de que Allan Houston eventualmente voltasse ao time, o que – claro – nunca ocorreu.

Sem LeBron, Mike D’Antoni resolveu construir com o que tinha em m√£os, evoluindo jogadores como Danilo Galinari e at√© Jared Jeffries, que voltou ao time depois de ser dispensado pelo Rockets. Mas Dolan queria refor√ßos e o time¬†trocou um surpreendente David Lee (que seria muito importante para a volta por cima do Warriors nos anos seguintes) por Ronny Turiaf, o piv√ī que s√≥ era famoso de verdade por suas dancinhas no banco de reservas, e v√°rias outras apostas que n√£o deram certo. Quando Carmelo Anthony disse que assinaria com o Knicks no ano seguinte, Dolan simplesmente n√£o conseguiu esperar: resolveu desmontar o time que D’Antoni havia transformado em um grupo coeso e divertido de se assistir NA UNHA em nome de uma aquisi√ß√£o imediata de Carmelo. Dentre as trocentas pe√ßas¬†que o Knicks teve que abrir m√£o para obter Carmelo um ano antes, destacam-se¬†Danilo Gallinari, Wilson Chandler, Raymond Felton, Timofey Mozgov e escolhas de draft que viraram no futuro Dario Saric e Jamal Murray. Ou seja, o time perdeu quatro titulares e mais duas escolhas importantes s√≥ porque FICOU COM PRESSA.

Para compor o elenco, que ficou completamente pelado pela troca, o Knicks recebeu do Nuggets o armador Chauncey Billups e contratou o piv√ī Tyson Chandler. Isso levou a uma sequ√™ncia de tr√™s idas seguidas aos Playoffs, mas n√£o sem sua dose de loucuras e deslizes: Amar’e estourou os joelhos (ser√° que estamos vendo UM PADR√ÉO AQUI?), Tyson Chandler tamb√©m teve s√©rias quest√Ķes nas costas, e com a chance de usar uma regra de anistia para se livrar de um dos dois para abrir espa√ßo salarial e poder colocar outra estrela ao lado de Carmelo, o Knicks optou por anistiar Billups, que estava tendo uma temporada bem digna apesar da idade e n√£o ganhava um sal√°rio t√£o alto assim. Carmelo tamb√©m n√£o se salva: brigou com D’Antoni, n√£o gostou do papel t√°tico que recebeu no time e, dizem, ficou incomodado demais quando Jeremy Lin despontou como um √≠dolo do time de uma hora para a outra, o que por sua vez levou o Knicks a n√£o segurar Lin, que acabou indo parar no meu Houston Rockets. Com a diretoria trazendo o tempo todo veteranos em fim de carreira, como Mike Bibby e Baron Davis e nenhum tipo de planejamento para o futuro, Mike D’Antoni acabou torrando o saco e deixou o time no meio da temporada em 2012. Mike Woodson assumiu e poderia ter ido mais longe nos Playoffs se Amar’e n√£o tivesse SOCADO UM EXTINTOR depois de uma derrota na primeira rodada e desfalcado a equipe durante todo o resto da s√©rie. Na temporada seguinte, 2012-13, tivemos o melhor Knicks desde Patrick Ewing, com Carmelo Anthony jogando um absurdo e o time sendo eliminado nas Semi-Finais da Confer√™ncia Leste para o Pacers, um time contra o qual eles tinham enorme dificuldade de encaixe. Nas Finais do Leste teriam pego o Heat de LeBron, que curiosamente havia perdido tr√™s das quatro partidas naquela temporada contra o Knicks de Carmelo. O que o time precisava, ent√£o, para vencer aquele Pacers na temporada seguinte e poder sonhar com uma zebra em cima do Heat?

A resposta, claro, foi TOTALMENTE EST√öPIDA: mandaram Marcus Camby, uma escolha de primeira rodada e duas escolhas de segunda rodada para o Raptors em troca de Andrea Bargnani, um piv√ī arremessador de tr√™s pontos incapaz de defender, pegar rebotes e correr pela quadra, not√≥ria piada j√° na √©poca. Bargnani tinha duas temporadas nas costas, sofria com les√Ķes e acertava apenas 30% dos seus arremessos de longe, uma vergonha. A escolha que o Knicks mandou virou Jakob Poeltl, que o Raptors enviou junto com DeRozan para o Spurs para conseguir Kawhi Leonard – curiosamente, tanto Poeltl quanto DeRozan poderiam ter sido do Knicks. Em sua passagem por New York, Andrea Bargnani ficou famoso por essa jogada abaixo, o melhor resumo poss√≠vel de sua carreira:

Com ele no elenco e Amar’e e Tyson Chandler com quest√Ķes f√≠sicas s√©rias, o time sequer chegou aos Playoffs, resultando na demiss√£o de Mike Woodson e o come√ßo de mais uma nova era no Knicks. Phil Jackson assumiu o cargo de Presidente de Opera√ß√Ķes na equipe e resolveu impor o “sistema dos tri√Ęngulos”, o esquema t√°tico que ele tanto popularizou quando foi m√ļltiplas vezes campe√£o como t√©cnico tanto do Chicago Bulls quanto do Los Angeles Lakers. Precisando de algu√©m que conhecesse o sistema para comandar o time, Phil Jackson trouxe Derek Fisher, ex-jogador rec√©m-aposentado, sem nenhuma experi√™ncia como t√©cnico mas uma vida inteira ao lado de Phil. A promessa era de que¬†Fisher teria tempo para aprender, se estabelecer na franquia, e que o time iria entrar num longo processo de reconstru√ß√£o. Ainda assim, Phil Jackson tentou convencer Carmelo Anthony de que ele seria “seu Kobe Bryant“, e que se ele tivesse um pouco de paci√™ncia e reassinasse com a franquia, seria premiado com um campeonato at√© o fim de seu contrato. Carmelo caiu como um patinho –¬†uma decis√£o que condenou em definitivo sua carreira.

Depois de uma s√©rie de esc√Ęndalos amorosos envolvendo Derick Fisher nos tabloides, recusa dos jogadores a usar o “sistema dos tri√Ęngulos” e total falta de experi√™ncia do ex-jogador para lidar com seus atletas, Phil Jackson demitiu o treinador em 2016 sem pr√©vio aviso. A partir de ent√£o Jackson ficou ainda mais controlador e obcecado em fazer o time dar certo PARA ONTEM, com uma s√©rie de contrata√ß√Ķes e trocas bizarras. Trocou Tyson Chandler, que parecia n√£o conseguir mais jogar basquete, apenas para v√™-lo retomar sua carreira no Mavs como se nunca tivesse se lesionado; trocou JR Smith e Iman Shumpert por coisa nenhuma apenas para v√™-los serem campe√Ķes no Cavs; contratou Derrick Rose apesar da sa√ļde comprometida do armador, viu o jogador ter tantos conflitos no time que chegou a DESAPARECER no meio da temporada para ser encontrado sofrendo de depress√£o escondido na casa de sua av√≥, e agora l√° est√° Rose tendo uma temporada incr√≠vel de sucesso no Wolves; assinou Joaquim Noah (aquele que o Knicks poderia ter escolhido no draft se n√£o tivesse trocado por Eddy Curry) por mais de 70 milh√Ķes quando j√° era not√≥rio que seu f√≠sico era incapaz de jogar basquete, o que levou inevitavelmente a uma cirurgia que o deixou fora por todo seu contrato; escolheu Kurt Rambis, ex-jogador do Lakers, para ser t√©cnico e ensinar os “tri√Ęngulos” para a molecada, que n√£o queria jogar sob esse modelo. √Č claro que essa reconstru√ß√£o, que n√£o passava por conseguir jogadores novos e nem usar um esquema t√°tico que usasse aquilo que os jogadores tinham de melhor, foi um fracasso. Carmelo Anthony come√ßou a ser atacado publicamente por Phil Jackson por “boicotar o esquema t√°tico” e ser “individualista”, mesmo com diversos jogadores clamando por uma mudan√ßa t√°tica nos vesti√°rios.

O plano de dar a Carmelo um t√≠tulo em New York n√£o teve p√© nem cabe√ßa: na primeira dificuldade que teve, Phil Jackson queimou seus t√©cnicos e seus pr√≥prios jogadores, apontando dedos para todos os lados. Em 2014-15, o Knicks teve a pior campanha da sua hist√≥ria, com apenas 17 vit√≥rias, incluindo uma sequ√™ncia de 13 derrotas consecutivas in√©dita na franquia. Como pr√™mio de consola√ß√£o, draftaram Kristaps Porzingis e, para comemorar, resolveram pagar o contrato completo de Amar’e Stoudemire s√≥ para ele ir embora e dar um ar de “novo come√ßo”. Em 2017 foi a vez de trocarem Carmelo Anthony, o fim de uma briga interna, o fim de uma longa mentira, e tamb√©m o fim simb√≥lico da carreira de Carmelo. Na troca, receberam Enes Kanter – o jogador que agora, dois anos depois, o Knicks ter√° que pagar mais de 15 milh√Ķes s√≥ para ele ir embora e liberar espa√ßo salarial. Criticado por ter tentado pagar para Carmelo ir embora ao inv√©s de troc√°-lo e por ter um relacionamento “dif√≠cil” com Porzingis, que chegou a fugir de uma reuni√£o de encerramento de temporada com o Knicks por achar tudo “uma bagun√ßa”, Phil Jackson tamb√©m foi desligado do time em 2017. Foi o fim do segundo CICLO DE HORROR do Knicks em 19 anos, com os tr√™s anos de Playoffs sob tutela de Mike D’Antoni como o √ļnico respiro desse per√≠odo – nem foi um respiro muito grande, mais para um suspirinho mesmo.

Agora, depois de sofrer com as les√Ķes de Porzingis e a incapacidade de Phil Jackson de comunicar √† sua jovem estrela quais os planos futuros da franquia ao redor dele (dizem as m√°s l√≠nguas que no fundo Phil Jackson nunca achou que Porzingis era jogador o bastante para ancorar a franquia), eis que o Knicks troca seu maior acerto no draft desde Patrick Ewing para o Dallas Mavericks. Em troca, apenas jogadores que servir√£o para abrir espa√ßo salarial para a temporada que vem,¬†quando¬†grandes estrelas estar√£o dispon√≠veis. Assim como fizeram com LeBron James em 2010, ser√° a vez de tentar convencer Kevin Durant¬†a jogar por l√° em¬†2020, al√©m de contratar outra estrela para lhe fazer companhia com um segundo contrato m√°ximo. Porzingis foi trocado com a alcunha de “jogador problema” que foi “reclamar e intimidar a diretoria”, mas o jovem let√£o deixou claro em suas redes sociais que os torcedores do time devem ficar “atentos” e “acordados” para conhecer a verdade. N√£o nego que talvez o √ļnico respons√°vel pela troca tenha sido mesmo Porzinigs, com uma insatisfa√ß√£o adolescente e uma pressa sem cabimento por lutar por t√≠tulos, mas tendo em vista esse longu√≠ssimo hist√≥rico de cagadas nas √ļltimas duas d√©cadas, √© bem prov√°vel que o Knicks apenas n√£o tenha conseguido lidar com seu jogador, tenha enfrentado problemas de comunica√ß√£o e, claro, de PLANEJAMENTO e ORGANIZA√á√ÉO. Desde Isiah Thomas, as finan√ßas do time nunca voltaram √† normalidade; quando Walsh tentou, houve press√£o para “conseguir mais refor√ßos”. Quando Mike D’Antoni finalmente montou um time jovem, interessante, moderno e BARATO, foi todo mundo trocado por Carmelo Anthony e o resto do espa√ßo salarial foi entregue nas m√£os dos joelhos agonizantes de Amar’e Stoudemire.

O padr√£o aqui √© √≥bvio: James Dolan, dono do time, cobra por refor√ßos, tem pressa, interfere nas decis√Ķes da diretoria e dos t√©cnicos, tem uma prefer√™ncia bizarra por jogadores velhos em decad√™ncia f√≠sica (os mais otimistas diriam que ele gosta de “jogadores veteranos” ou “consagrados”) e √© t√£o insanamente afoito por qualquer grande nome que ignora completamente os alertas m√©dicos ou o hist√≥rico de les√Ķes dos atletas. Os 20 anos relatados acima incluem um n√ļmero obsceno de contratos ruins dados por pura pressa, gente lesionada nos primeiros jogos com a equipe e decis√Ķes ruins que for√ßam o time a ter que se livrar de contratos pesados – o que por sua vez significa pagar AINDA MAIS DINHEIRO, perder espa√ßo salarial ou abrir m√£o de escolhas de draft e jogadores jovens.

Se desde 2000 o Knicks n√£o tivesse FEITO NADA, ou seja, nenhuma contrata√ß√£o, nenhum veterano bichado chegando como apoio, nenhuma estrela em decad√™ncia para estampar os jornais, nenhuma troca maluca por jogadores estabelecidos, o time teria mantido todas as suas escolhas de draft – e teria conseguido escolhas ainda melhores por ter perdido mais. Aldridge, Noah, Ariza, Jamal Murray, Saric teriam sido desenvolvidos por D’Antoni e eventualmente recebido o refor√ßo de Carmelo Anthony, que queria ir para l√° s√≥ porque tinha tes√£o pelo Knicks, o que volta e meia acontece. O que temos aqui √© um desses casos de que n√£o fazer COISA NENHUMA √© bem melhor do que se mexer o tempo todo como se n√£o houvesse amanh√£.

A troca de Porzingis √©, para muitos torcedores, o come√ßo de mais uma nova era, com sonhos de Kevin Durant (e talvez Kawhi Leonard, ou Kyrie Irving) vestindo o uniforme do Knicks e jogando no gin√°sio mais famoso do planeta. Mas quando encaixamos essa era numa hist√≥ria de longa dura√ß√£o, inaugurada com a troca de Patrick Ewing, s√≥ nos resta temer pelo futuro da franquia. E se Durant n√£o vier? E se s√≥ lhes restar contratar uma estrela em decad√™ncia, com s√©rias quest√Ķes m√©dicas? Ser√° o Knicks um time t√£o CARENTE que aceitar√° qualquer coisa para n√£o deixar a free agency de m√£os abanando, especialmente agora que precisam justificar ter trocado Porzingis? Se tanto se repete a necessidade de conhecer o passado para n√£o repetir seus erros, no caso do Knicks¬†isso √© ainda mais evidente: conhecer o passado nos permite saber que, sem uma mudan√ßa radical de planejamento (e, possivelmente, de DONO), veremos o Knicks cometer eternamente os mesmos enganos. Mesmo que o time consiga contratar as estrelas que sonha, ser√° capaz de mant√™-las? Segurar√° um t√©cnico com elas por tempo o bastante para construir um trabalho s√≥lido e competitivo?

Nesse texto, optei por destacar algumas das trocas, contrata√ß√Ķes e causos extra-quadra que considero mais importantes para pensarmos o PADR√ÉO que persegue o Knicks nesse tempo. No entanto, existem d√ļzias de outras situa√ß√Ķes t√£o ruins ou piores, jogadores cujos nomes n√£o significam mais nada, ou escolhas de draft que por sorte n√£o viraram ningu√©m especial nas m√£os dos advers√°rios. Sobram tamb√©m hist√≥rias de bastidores, com birras de Dolan com ex-jogadores do Knicks se tornando casos de pol√≠cia, processos rolando na justi√ßa e relatos de jornalistas sobre acontecimentos inacredit√°veis nos vesti√°rios. O recorte que fiz serve inclusive para mostrar como o caos de uma franquia √© contagioso, se espalha de uma √°rea para a outra, interferindo na vida pessoal e profissional de cada funcion√°rio e atleta, e de alguma maneira influenciando nas decis√Ķes de contrata√ß√£o, troca ou draft – no desespero de sair do caos, parece que todas as nossas decis√Ķes s√£o mais desesperadas, mais afoitas, mais inconsequentes e, portanto, ainda mais ca√≥ticas.

O Knicks terá, ao fim dessa temporada, uma chance de novo começo. Terá escolhas de draft, espaço na folha salarial e os melhores marketeiros do mundo para tentar convencer jogadores a embarcar nesse projeto. Só nos resta esperar para descobrir se esse novo começo acontecerá não pela chegada dos novos jogadores, mas pela chegada de uma nova POSTURA, de uma nova maneira de pensar o time, seu futuro e seus deslizes. Sem isso, nem Kevin Durant poderá salvar o Knicks de si mesmo.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

Como funcionam as assinaturas do Bola Presa?

Como s√£o os planos?

São dois tipos de planos MENSAIS para você assinar o Bola Presa:

R$ 14

Acesso ao nosso conte√ļdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro, FilmRoom e Prancheta.

R$ 20

Acesso ao nosso conte√ļdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bol√Ķes.

Acesso ao nosso conte√ļdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro, FilmRoom e Prancheta.

Acesso ao nosso conte√ļdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bol√Ķes.

Como funciona o pagamento?

As assinaturas s√£o feitas no Sparkle, da Hotmart, e todo o conte√ļdo fica dispon√≠vel imediatamente l√° mesmo na plataforma.