🔒O basquete como trabalho

Jogos são definidos como um intervalo da vida, um conjunto de regras distintas daquelas que seguimos em nosso cotidiano. São regras auto-impostas, delimitações que forçamos apenas para inventar um mundo diferente, novos desafios, criar objetivos claros e desafiar nossos limites ao tentar concretizá-los. É por isso que são tão apaixonantes: ao contrário da vida, onde os objetivos são diversos e nunca explícitos, jogos nos dão metas específicas, limitam todas as possibilidades do mundo num pequeno conjunto de elementos que podemos compreender melhor, analisar, estudar. Mergulhados nessas regras arbitrárias que impomos sobre nós mesmos temos mais facilidade em entender o que ocorre ao nosso redor. No esporte existem regras claras para quando sentir alegria ou tristeza; para saber se algo que aconteceu é banal ou extraordinário; para perceber beleza; para julgar o que é ou não permitido e, portanto, ético. O esporte é um mundo complexo, mas de complexidade pré-definida e limitada, onde é mais fácil entender o que está acontecendo, as motivações e as estratégias, e onde é inteiramente permitido amar e sofrer, vibrar e amaldiçoar, sem que isso traga quaisquer consequências reais ao “mundo-da-vida”, aquele que compõe nosso cotidiano.

É fácil separar o mundo do esporte do mundo do trabalho. No esporte, regras combinadas entre todos nós são seguidas simplesmente porque assim queremos; se alguém não concordar com as regras pode mudá-las ou negar-se ao jogo. Pode dizer “esse esporte eu não jogo” e escolher outro conjunto de regras – ou até criar o seu. No trabalho, pelo contrário, as regras impostas não são negociáveis e nem permitem escolha. Em nosso modelo econômico, trabalhar não é escolha mas necessidade, já que a sobrevivência mais básica está atrelada à sua execução. Quem não trabalha mal sobrevive, tem seus direitos de subsistência negados e depende do trabalho de outro. As regras do trabalho são, agora, as regras da vida, do cotidiano, da vida “séria”. São as regras que regem a sobrevivência do indivíduo. São regras difíceis, muitas vezes opressivas, que permeiam quase todas as nossas ações. Em geral, são regras que nos levam a produzir mercadorias, produtos, tecnologias às quais nossa simples existência está atrelada. O esporte, por outro lado, não produz absolutamente nada, não há existência que dependa dele, não há imposição ou necessidade a ele atribuída. Talvez por isso tantos de nós escolham viver e morrer pelo esporte: porque ao menos ele é uma escolha, um conjunto de regras que gostamos ou com o qual concordamos e nos identificamos. Justamente porque poderiam ser diferentes, essas regras acabam nos dando certa identidade – ninguém se diferencia por ter algo normal, como um nariz, mas por aquilo que o distingue ou por aquilo que se escolhe, como seu formato ou um piercing. Ser alguém que gosta de basquete é algo que diz quem você é, quais regras escolheu para si, ao contrário de ser alguém que trabalha, algo que é uma regra universal e totalizante em nosso modelo econômico.

No entanto, o capitalismo mudou consideravelmente nas últimas décadas conforme fomos adentrando aquilo que chamou-se de “capitalismo pós-industrial”, ou seja, conforme o trabalho deixou de restringir-se à produção de mercadorias. Hoje as regras do trabalho envolvem uma série de atividades que não geram mercadorias que alterem o mundo-da-vida, a existência cotidiana: desde trabalhos no setor financeiro, que geram riquezas em cima de riquezas sem que nenhuma mercadoria seja ligada a isso, até blogs de basquete que produzem conteúdo digital sobre basquete e tentam com isso comprar o leite das crianças. Com isso, as linhas entre a vida cotidiana e o esporte tornaram-se irremediavelmente nubladas: o esporte, que deveria ser o grande intervalo da vida, agora é também um conjunto de regras impostas não-negociáveis para quem precisa usá-lo para pagar as contas. Jogadores da NBA estão tanto jogando – e, portanto, participando de um intervalo na vida – quanto estão trabalhando, realizando uma atividade que lhes garante a subsistência.

Isso gera um enorme descompasso entre a maneira que os torcedores e os jogadores encaram um esporte como basquete, por exemplo. Para os torcedores, as regras do basquete são um conjunto de restrições aleatórias que criam um universo divertido, interessante, desafiador, e recheado de certas nuances que fazem valer a pena aceitá-las. Ao proibir a utilização dos pés, força-se a habilidade das mãos; ao levantar a cesta numa altura exageradamente alta, força-se o jogo aéreo; ao colocar cinco jogadores de cada lado, força-se o jogo coletivo ao mesmo tempo em que facilita-se que o indivíduo desequilibre. A partir de tudo isso surgem as narrativas, as histórias que criamos para colar todos os elementos, para fazer com que todas essas coisas façam sentido, para que pareçam naturais e não inteiramente aleatórias. Inventamos coisas arbitrárias como um preceito de igualdade de condições e oportunidades, tentamos fazer com que a mesma regra valha para todos e que os times fiquem equilibrados, criamos tetos salariais na NBA, louvamos os jogadores que vencem as limitações das regras para se sagrarem campeões contra todas as adversidades, valorizamos o esforço e a vitória utilizando melhor as limitações das regras e não a força bruta, esperamos que os melhores jogadores duelem entre si para render os melhores espetáculos ao invés de se juntarem em nome de vitórias mais fáceis, etc, etc. A visão do torcedor tenta construir o universo mais divertido, fascinante e prazeroso possível, de acordo com preceitos éticos, ideias competitivos e construção de “famílias” simbólicas (a torcida para times específicos). Queremos regras que nos divirtam quando o mundo-da-vida falha em nos ser prazeroso, e no basquete podemos mudar essas regras para garantir a diversão a todo custo. Mas a visão do jogador muitas vezes está simplesmente focada na melhor oportunidade de emprego.

Se antigamente era quase impossível sequer conceber o esporte como um emprego – basta pensar que por muito tempo só existiu o esporte amador – hoje em dia é mais fácil entender um trabalhador que não gere mercadorias porque a maior parte de nós já faz isso em seus empregos no banco, nos escritórios, nos jornais, nas escolas. Ser um jogador de basquete passou a ser um emprego tal como qualquer outro: exige certas habilidades, certas capacidades, possui um duro processo seletivo, tem muitas restrições e alguns benefícios. Quando crianças, gostamos do intervalo da vida – especialmente porque a vida é dura para crianças num mundo que não é feito para elas, em que não alcançam sequer uma maçaneta de porta e não são capazes de escolher absolutamente nada. O prazer está em jogar, no faz-de-conta, em viver uma outra realidade, um outro conjunto de regras. Muitas crianças, quando entendem que ao crescer é preciso “fazer uma coisa para sempre” (aquilo que chamamos de “trabalho” ou “profissão”) escolhem o jogo: querem ser jogadores de futebol, de basquete, de videogame. É natural que, ainda com o ponto de vista do torcedor, sonhem em ser profissionais do jogo, com a percepção de que poderão jogar infinitamente dentro de regras melhores do que as regras da vida. Jovens novatos da NBA entram ainda apaixonados, fascinados pelas regras do esporte, deslumbrados com a ideia de que brincarão para sempre. E então, no século XXI, são recebidos pelo “Programa de Transição para Novatos”.

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O programa consiste de quatro dias com 12 horas cada de aulas e palestras para levar o novato da NBA de sua visão de torcedor, de criança que quer jogar para sempre, para a visão do trabalhador, o adulto que precisa garantir sua subsistência. Embora exista desde os anos 80, o programa obrigatório passou a focar em gestão financeira nos últimos anos depois de relatos de muitos jogadores da NBA que acabaram falindo depois de suas aposentadorias, se contundiram e não conseguiram mais se sustentar financeiramente, perderam sua carreira nas drogas ou que destruíram a própria imagem com deslizes sociais. Numa NBA dominada pelas redes sociais, jogadores são treinados para lidar com a imprensa e com suas contas pessoais, usar seus nomes como marcas, investir o dinheiro dos seus salários e terminar seus estudos para ter planos de emergência para eventuais desastres na carreira esportiva. Dinheiro, contratos, salários, bônus e gestão financeira apagam inteiramente uma linha que já era nublada: para essas pessoas, o basquete é uma profissão, é seu trabalho, são as regras do “mundo-da-vida”, da existência cotidiana. Nada mais justo: quando eu perco um jogo de basquete, ou quando meu Houston Rockets perde uma partida, nada acontece na minha vida normal. Continuo com meu emprego, com minha família, com meus afazeres. Mas quando um jogador da NBA perde um jogo, seu salário passa a estar em perigo – talvez não o salário imediato, mas certamente seu salário futuro. Sua vida financeira depende das escolhas que ele faz em quadra e é natural que suas decisões levem em conta aspectos diferentes daqueles que um torcedor convencional.

Enquanto um torcedor usa expressões como “honra”, “paixão”, “coragem”, “covardia”, um jogador da NBA precisa mesclar esse posicionamento infantil pelo esporte – infantil não em termos de inferioridade, mas por lhe ser familiar no primeiro contato com o esporte na infância – com um posicionamento de quem depende do esporte para sobreviver e garantir o sustento de si mesmo e de sua família, gerando expressões como “negócio é negócio”, “decisões da carreira” e “melhores contratos”. Para um torcedor parece absurdo sequer cogitar migrar para um time rival; para um jogador, a migração pode até parecer estranha a princípio (a parte lúdica reage!), mas logo justifica-se do ponto de vista do trabalho, das melhoras condições para o indivíduo trabalhador de um capitalismo pós-industrial.

Isso explica, em parte, a bagunça de discurso que ouvimos de diversos jogadores da NBA. O basquete, enquanto esporte, exige uma abordagem coletiva; o basquete, enquanto trabalho, exige um foco mais individual. Talvez por isso jogadores criem “famílias” com seus companheiros de time para “ir à guerra”, esse combate simulado que inventamos para passar o tempo mas que não mata ninguém no processo, e depois abandonem tudo em busca do melhor contrato disponível quando seus empresários sentam-se à mesa. Talvez por isso Kevin Durant, ao entrar na NBA com sua visão apaixonada de torcedor, tenha ficado ofendido com o desequilíbrio criado no princípio lúdico de igualdade pela junção de LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh – mas depois juntou-se com o Warriors em busca da melhor oportunidade para sua carreira, não para o prazer lúdico do basquete. Talvez por isso o dinheiro colocado na mesa interfira tanto na decisão de Wade de abandonar a franquia na qual esteve desde o seu início na NBA. Mesmo que todos os valores sejam sempre exorbitantes e possamos argumentar que nenhum deles precisa de tanto dinheiro para viver – e que, portanto, as decisões financeiras deveriam ficar sem segundo plano frente às decisões pelo bem do lúdico – a busca pelos melhores valores e pelas melhores oportunidades de trabalho é inevitável quando o esporte é visto pela ótica do trabalho. Mesmo os jogadores mais apaixonados, mais mergulhados na magia do esporte, são obrigados a olhar para os cifrões. Fomos todos ensinados para isso, para acreditar que o sucesso financeiro é o sucesso derradeiro, o sinal definitivo de uma vida bem-sucedida, o medidor do valor de um indivíduo. Quando falamos para um jogador de basquete sobre “legados”, “amor à camisa”, “dinastias”, etc, estamos tentando reforçar as linhas desse mundo inventado pelas regras, esse mundo de fantasia e faz-de-conta que chamamos de basquete, tão rico de história, beleza e significado. Mas esse mundo não consegue se sobrepor à vida que chama, à conta que urge, à pressão social pela conta bancária. Queremos que Kevin Durant e LeBron James escolham de acordo com o coração, com o legado, com a história, com a paixão dos torcedores, mesmo quando isso é incrivelmente ingênuo e desconectado do mundo no qual o basquete se insere.

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Para nossa sorte, mesmo com as linhas entre trabalho e esporte nubladas o esporte ainda sobrevive, ainda tem o mesmo efeito para todos nós que estamos aqui fora – mesmo que funcione de maneira confusa, misturada e contraditória para a maioria daqueles que trabalham com isso, que jogam para viver. Mais sorte ainda é que alguns jogadores tenham consciência disso – como Rasheed Wallace, que deixava explícitas as relações trabalhistas com seu discurso de “somos escravos milionários” – e que outros mergulhem com mais força do que a habitual no lúdico, infantilmente mais apaixonados pelo esporte do que pelo trabalho que exercem. Mas precisamos entender que, nos tempos atuais, não apenas no basquete mas no esporte em geral, a relação dos jogadores com suas profissões é ambígua, por vezes apaixonada, por vezes extremamente fria e profissional, e que seria absurdo que não fosse dessa maneira. Em tempos complexos como os nossos, bradar que Kevin Durant é covarde é ignorar que existe um ser humano lá atrás, cravado por todas as pressões e contradições do esporte numa sociedade capitalista. Ser apaixonado pelo esporte, mergulhar em suas regras deliciosamente arbitrárias, não pode ser sinônimo de esquecer que existe um mundo fora dele, com regras próprias e exigências cruéis, e que os jogadores habitam esses dois mundos simultaneamente. Levar o esporte a sério é também não esquecer que, para os jogadores, a relação com o esporte é outra, mais complexa e contraditória do que a nossa, e que isso interfere indiretamente nas regras que criamos e amamos. Todo jogo é perpassado pelo mundo que existe fora dele e precisamos aprender a levá-lo em consideração quando fazemos nosso julgamento sobre o que acontece dentro de quadra. O Bola Presa sempre insistiu que o basquete não acontece num vácuo, ele ocorre dentro de toda uma vida social, e é preciso se lembrar disso mesmo nos momentos mais difíceis, quando um jogador abandona seu time para jogar em seu maior rival. Até o que está fora acaba fazendo parte do jogo.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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