đź”’O garrafĂŁo resiste

NĂŁo Ă© novidade nenhuma que as mudanças de regras pelas quais a NBA passou na Ăşltima dĂ©cada tornaram a vida dos pivĂ´s mais difĂ­cil. Restrições aos toques na defesa de perĂ­metro facilitaram a infiltração dos armadores que atacam constantemente os pivĂ´s em movimento, enquanto o fim das restrições de marcação dupla e defesas por zona fizeram com que pivĂ´s tenham mais dificuldade de jogar de costas para a cesta e atĂ© de receber a bola no garrafĂŁo. Essa forte ĂŞnfase no perĂ­metro levou a uma super geração de armadores e alas, tornou o jogo mais rápido e dinâmico, consagrou a bola de trĂŞs pontos e a bandeja na transição como as melhores jogadas do basquete, e fez com que uma nova geração de pivĂ´s que jogam fora do garrafĂŁo – assunto de um dos nossos posts especiais – se tornassem cada vez mais populares, assim como os times sem alas de força ou os alas de força que arremessam de fora.

Mas Ă© surpreendente que no meio dessa transformação da NBA, surjam ainda jogadores de garrafĂŁo que resistem aos novos tempos: pivĂ´s fortes, defensivos, incapazes de arremessar de longa distância e que atacam a cesta. Contrariando aquilo que chamamos agora de “basquete moderno”, pivĂ´s como Dwight Howard, Hassan Whiteside e DeAndre Jordan sĂŁo um pesadelo para todos que os cercam: seus times precisam, para torná-los Ăşteis, lutar contra todas as dificuldades que se acumularam contra os pivĂ´s nos Ăşltimos anos, enquanto os times adversários nĂŁo estĂŁo mais acostumados a enfrentá-los ou nĂŁo se preocupam mais em ter as armas necessárias para contestá-los. Quando Shaquille O’Neal dominava completamente a NBA no começo dos anos 2000, todo time tinha um pivĂ´ grandĂŁo para tentar atrapalhá-lo e novos pivĂ´s fĂ­sicos eram escolhidos todos os anos no draft em posições ridiculamente altas para seus nĂ­veis de talento apenas porque eram altos o suficiente. Todo time estava disposto a usar uma escolha de draft para apostar num pivĂ´ com um mĂ­nimo de potencial, como foi o caso do nosso Rafael “Baby” AraĂşjo em 2004, escolhido na oitava posição sem nunca ter mostrado um minuto de basquete que justificasse esse investimento. Hoje em dia essas apostas em pivĂ´s no draft sĂŁo rarĂ­ssimas e os elencos nĂŁo se preocupam em ter que encontrar alguĂ©m para contestar pivĂ´s muito fĂ­sicos. Depois que ficou comprovado que defesas por zona e marcações duplas de jogadores nanicos sĂŁo o suficiente para anular a enorme maioria dos pivĂ´s da Liga, nĂŁo vale mais a pena contratar um qualquer sĂł para ocupar espaço no garrafĂŁo. Por isso, naqueles momentos em que DeAndre Jordan parece um jogador dominante que controla inteiramente o garrafĂŁo, os adversários nĂŁo possuem ninguĂ©m para tacar em cima dele – motivo principal de tantas equipes escolherem o “hack-a-Jordan”, a famigerada estratĂ©gia de descer a lenha no DeAndre Jordan para se aproveitar da defasagem cultural que os pivĂ´s tĂŞm com lances livres. AtĂ© por conta disso, o problema principal está em tornar DeAndre Jordan um jogador dominante – ou simplesmente relevante – dentro de regras e esquemas táticos que prejudicam enormemente sua performance.

[image style=”” name=”on” link=”” target=”off” caption=”Ă€s vezes pivĂ´s tem dificuldade de saber o que Ă© a bola e o que nĂŁo Ă©”]http://bolapresa.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Dwight.jpg[/image]

Por mais que eu tenha minhas eternas crĂ­ticas ao Dwight Howard, por exemplo, acredito inteiramente que caso ele tivesse nascido uma dĂ©cada antes e portanto jogado no fim dos anos 90 ou começo dos anos 2000, ele teria sido uma força da natureza imparável. Claro que ele nunca teria a habilidade de Hakeem Olajuwon ou mesmo a de Shaquille O’Neal, mas seu fĂ­sico, explosĂŁo e velocidade seriam suficientes para torná-lo imparável no ataque e um defensor fantástico numa NBA que forçava o jogo um-contra-um. Dwight, coitado, deu azar de nascer em outros tempos, num momento em que suas melhores atuações na carreira eram apenas como isca num Orlando Magic que jogava com quatro jogadores abertos no perĂ­metro que nĂŁo passavam a bola para seu pivĂ´ por longos perĂ­odos de jogo. No Rockets de agora, um dos papais do tal “basquete moderno”, atĂ© hoje nĂŁo se sabe exatamente o que fazer com Dwight Howard em quadra. Seus ganchinhos contestados no garrafĂŁo sĂŁo, estatisticamente, um arremesso pior do que bolas de trĂŞs pontos; colocar a bola nas mĂŁos do Dwight causa enorme comoção da defesa no garrafĂŁo e o pivĂ´ nĂŁo Ă© rápido ou habilidoso o suficiente para fazer a bola girar em busca de um arremessador livre. No fim das contas, Dwight acaba apenas finalizando um par de pontes-aĂ©reas por jogo que qualquer outro jogador poderia ter finalizado, e seu papel na defesa acaba sendo como bloqueador na cobertura, expondo suas dificuldades de proteger o aro e suas dificuldades quando os pivĂ´s adversários simplesmente saem para fora do garrafĂŁo. Volta e meia o fĂ­sico do Dwight Howard sozinho apresenta desafios que os outros times nĂŁo sabem defender, mas sĂŁo momentos isolados num Rockets que abandonou a ideia de ter um pivĂ´ como protagonista de sua movimentação ofensiva. A eles, basta que o pivĂ´ seja sĂłlido, competente e secundário.

O que compromete nossa percepção dos pivĂ´s, alĂ©m de times que nĂŁo tĂŞm mais interesse algum em encaixá-los adequadamente no esquema tático, Ă© a comparação inconsciente que fazemos com os pivĂ´s do passado. Depois de tanto tempo vendo pivĂ´s serem peças decisivas na conquista de campeonatos, Ă© difĂ­cil nĂŁo olhar com desdĂ©m para um Dwight Howard que Ă© terceira ou quarta força ofensiva de um elenco atual. Primeira escolha do draft de 2005, esperamos por muitos anos que Andrew Bogut fosse uma força imparável e vĂŞ-lo ganhar um tĂ­tulo em papel tĂŁo secundário no Warriors da temporada passada Ă© um tanto brochante. Mas talvez seja simplesmente questĂŁo de entendermos que, nos novos tempos, Bogut resiste em seu corpo de “pivĂ´ clássico” cumprindo as funções que podem lhe caber – no caso, sendo uma âncora defensiva e liderando toda a NBA em porcentagem de aproveitamento dos seus adversário debaixo do aro. Seu talento na defesa Ă© o que lhe cabe e o que eventualmente incomoda alguns adversários – quando nĂŁo Ă© o caso, ele simplesmente senta no banco e está tudo bem, ninguĂ©m deveria chorar pela estrela que nunca foi. Talvez Shaquille O’Neal tambĂ©m passasse mais tempo no banco de reservas se em seu tempo tivesse que enfrentar armadores ultra-velozes arremessando bolas de trĂŞs pontos. Caso continuemos incapazes de adequar nossas expectativas Ă s condições reais do basquete a que assistimos, todos os talentosos pivĂ´s da nossa geração parecerĂŁo uns fracassados, enquanto deverĂ­amos estar aplaudindo o simples fato de que vários deles ainda sĂŁo tĂŁo bons que conseguem TER UM TRABALHO, resistindo Ă s exigĂŞncias e picuinhas dos times modernos.

Caso importante para pensarmos nos pivĂ´s de hoje em dia Ă© Hassan Whiteside. Em 2010, foi draftado apenas na segunda rodada na escolha 33 – cinco anos antes, aquele draft cocĂ´ do “Baby”, certamente teria sido escolhido entre os cinco primeiros (talvez trĂŞs primeiros!) jogadores. Com o interesse por pivĂ´s em baixa, quase nenhum time em 2010 topou a aposta em mais um jogador alto e forte que poderia nĂŁo se tornar grandes coisas, especialmente um que tinha fama de ser egocĂŞntrico e super difĂ­cil de ser treinado. Praticamente ignorado em sua passagem inicial pela NBA, Whiteside acabou tendo que jogar na China, no LĂ­bano e na D-League, a Liga de Desenvolvimento da NBA. Quando recebeu uma chance num Heat devastado por lesões, surpreendeu todo mundo. Depois de um double-double antes da metade de sua primeira temporada com o Heat, o tĂ©cnico Spoelstra começou a acreditar que ele seria importante para a equipe e o pivĂ´ deslanchou, com outros 21 double-doubles nos 37 jogos restantes, incluindo um triple-double COM TOCOS, daqueles que a gente nĂŁo vĂŞ todo dia. Foram 2.6 tocos por jogo em meros 23.6 minutos por partida, com uma mĂ©dia INSANA de tocos em 9% dos arremessos dados ao seu redor, lĂ­der disparado na temporada. Para se ter uma ideia, a melhor temporada da histĂłria da NBA nesse quesito foi de Manute Bol em 1989, com tocos em 10.81% dos arremessos. Whiteside seria apenas um dos quatro jogadores da histĂłria a conseguir esse nĂşmero se tivesse jogado mais partidas no inĂ­cio da temporada, de modo a ter jogos suficientes para se qualificar para o recorde.

Agora pense que um jogador de apenas 25 anos tenha tido esses nĂşmeros em sua primeira oportunidade real na NBA, e que mesmo com tanto talento nenhum time da Liga tenha lhe dado um emprego em anos. E que mesmo liderando a NBA em tocos por jogo nessa temporada, com quase 4 tocos por partida, Whiteside ainda encontre tantos detratores pela Liga que acham que suas atuações “sĂŁo apenas uma fase” e que o Heat nĂŁo deveria jogar com um pivĂ´. Isso mostra quĂŁo difĂ­cil Ă© adentrar a NBA hoje sendo um pivĂ´ clássico. E mesmo o Heat, que agora sabe que o talento do seu pivĂ´ Ă© inegável, tem uma dificuldade brutal de encaixá-lo no plano de jogo. Whiteside Ă© o terceiro jogador que mais contesta arremessos na NBA, o que significa que seus tocos vem Ă s custas de que ele deixe seu posicionamento embaixo da cesta, comprometendo sua defesa do aro violentamente, algo totalmente diferente do que a defesa do Heat costumava fazer. AlĂ©m disso, o Heat esteve em seu auge com LeBron James e pivĂ´ nenhum em quadra, com Chris Bosh na linha de trĂŞs, e nĂŁo possui muitas jogadas para envolver Whiteside. Isso naturalmente faz com que pivĂ´s talentosos sejam ignorados, diminuĂ­dos ou simplesmente empurrados para fora da Liga – mas quando Whiteside salva jogos com seus tocos, ou quando sua explosĂŁo fĂ­sica Ă© demais para um elenco mais baixo lidar, fica evidente o motivo de ainda valer a pena investir em pivĂ´s de jogo mais tradicional: os adversários estĂŁo despreparados para isso. SĂŁo pegos de surpresa.

Draymond Green Ă© provavelmente o melhor pivĂ´ da NBA no momento, com seu jogo nada tradicional e sua defesa de garrafĂŁo baseada em sua velocidade lateral. Times se acostumaram com isso, enfrentam posicionamentos similares contra a maioria dos quintetos nanicos, e atĂ© os times mais altos possuem formações baixinhas alternativas que acabam jogando a maior parte dos minutos constantemente. Mas aĂ­ de repente vocĂŞ vai jogar em Utah e surge um pivĂ´ GIGANTESCO que força os adversários embaixo do aro a terem um aproveitamento de RIDĂŤCULOS 36% nos arremessos. Quando ele vai para o ataque, Ă© fácil impedir que a bola chegue em suas mĂŁos usando as rotações defensivas, marcações duplas e defesas por zona, mas eventualmente uma bola SOBRA no garrafĂŁo e ele simplesmente engole os adversários com rebotes ofensivos e enterradas indefensáveis. Estamos falando do – infelizmente contundido – Rudy Gobert, um dos melhores pivĂ´s da NBA, um dos destaques da temporada atĂ© sua lesĂŁo, e um lembrete de que um pivĂ´ hoje altera os jogos de maneiras diferentes. NĂŁo veremos ele liderando a NBA em pontos – George Karl, tĂ©cnico do Kings, disse isso recentemente quando falava do DeMarcus Cousins jogar sempre embaixo da cesta, explicando que as defesas modernas inviabilizam totalmente um ataque focado no jogo de garrafĂŁo de costas para a cesta porque dobram de surpresa toda vez que o pivĂ´ coloca a bola no chĂŁo. Mas veremos Rudy Gobert levar silenciosamente o Jazz para os playoffs, sem nĂşmeros nem pompa, assim como fez Tyson Chandler ao levar o Mavs a um campeonato, Bogut nas Finais da temporada passada e DeAndre Jordan no Clippers que finalmente Ă© um time sĂ©rio.

[image style=”” name=”on” link=”” target=”off” caption=”DeAndre bate bola com o lado errado da mĂŁo”]http://bolapresa.com.br/wp-content/uploads/2016/01/DeAndre.jpg[/image]

Com seu recorde de pontos na carreira acontecendo nessa atual temporada, DeAndre Jordan ainda nos mostra um novo caminho para que os pivĂ´s sejam relevantes no ataque: movimentações constantes, cortes em direção à cesta, pick-and-roll, pontes-aĂ©reas. O pivĂ´ que fica parado esperando a bola, ou que empurra seus adversários com as costas no mano-a-mano, Ă© algo inviável. Cabe Ă s equipes aprenderem a incorporar essas novas movimentações dos pivĂ´s em seus esquemas táticos de modo a nĂŁo perdĂŞ-los por completo. Se assim como Whiteside, DeAndre Jordan tambĂ©m escorregou no draft – foi a escolha 35 – por conta de questões de comportamento, hoje já vimos Mavs e Clippers se estapeando para ver quem ficaria com o pivĂ´ mesmo numa NBA dominada pelas formações diminutas. Alguns times já perceberam que Ă© justamente por conta das formações diminutas que os pivĂ´s sĂŁo surpreendentes. AtĂ© mesmo um time já consagrado como o Spurs se mostrou disposto a dar uma chance para Boban Marjanovic, o pivĂ´ sĂ©rvio de 2,21 que em minutos limitadĂ­ssimos consegue criar encrencas com que os quintetos adversários nĂŁo sabem lidar. É essa a resistĂŞncia inesperada que pode ser a prĂłxima mudança importante no modo de jogar na NBA nos prĂłximos anos, uma reação viável Ă s fragilidades que imitar o Warriors fazem surgir Liga adentro.

 

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamĂ­stico.

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