🔒O homem que se esqueceu de como arremessar

Markelle Fultz foi a primeira escolha do draft de 2017, a peça final para o longo processo de reconstrução do Sixers. Teve passagem brilhante pelo basquete universitário, um jogador atlético, criativo e realmente capaz de criar jogadas para si mesmo e para os outros. Seu arremesso não ganharia nenhum concurso de beleza, mas era digno: em seus 25 jogos na universidade, acertou 41% de suas bolas de três pontos e não demonstrava receio algum de tentar todos os tipos de arremesso, em qualquer canto da quadra. O único receio real era com seu lance livre: 65% de aproveitamento pode não ser o pior do mundo, mas é um problema para um armador e certamente seria explorado pelos adversários com frequência. Coisa pequena, a se pensar para o futuro, e que de forma alguma impediu que o Sixers usasse sua primeira escolha no armador.

Sua participação nas Ligas de Verão em julho foi promissora: em Utah, teve média de 20 pontos por jogo, parecendo confortável em quadra e convertendo seus arremessos com tranquilidade. As expectativas para a temporada do Sixers dispararam rumo ao teto: como seria um time com Fultz acompanhado de Joel Embiid e Ben Simmons? E então, em outubro, Fultz fez sua estreia na temporada regular: não tentou nenhum arremesso de três pontos e errou todos os lances livres que tentou, com algo visivelmente diferente em sua mecânica. Na partida seguinte, acertou apenas 22% de seus arremessos de quadra. Em sua terceira partida como profissional, foi ainda pior: 20% de aproveitamento. Sua quarta partida, em que acertou apenas um dos quatro arremessos que tentou, foi sua última. Algo estava errado e ele precisava ser tirado de quadra. Foi imediatamente afastado pela equipe com apenas 4 partidas disputadas – e nenhuma bola de 3 pontos sequer tentada.

A princípio, as informações eram de que entre julho e outubro Markelle Fultz esteve nas mãos de seu treinador pessoal que o acompanha desde os 7 anos de idade, Keith Williams, o homem que o tornou um jogador profissional – e que negociou todos os contratos de patrocínio que ele assinou desde que entrou na NBA. Pelo jeito, Williams resolveu fazer mudanças drásticas na mecânica de arremesso de seu pupilo e, ao retornar ao Sixers, as bolas simplesmente não entravam mais. A comissão técnica disse que a tentativa havia sido “bem intencionada”, mas que precisaria ser “recalibrada”. Não funcionou; não faltavam imagens de treinos em que Fultz era incapaz de acertar sequer o aro com seus arremessos. Após sua quarta partida como profissional, o Sixers descobriu um problema muscular em seu ombro direito e passou a afirmar que ele poderia estar prejudicando seu arremesso. Foi desligado de qualquer atividade envolvendo basquete, mas ainda assim continuou sendo filmado inúmeras vezes arremessando em treinos – e errando sem parar, com uma mecânica travada, artificial e muito distante do que deveria ser um arremesso profissional. No meio de dezembro Fultz foi liberado pela comissão médica, mas entramos em março sem nenhum sinal de que ele retornará às quadras. Informações desencontradas vão de técnicos refazendo seu arremesso do zero como se ele estivesse numa categoria de base, preocupações mais sérias com seu ombro ou até amnésia. Markell Fultz se tornou o homem que se esqueceu de como arremessar.

O jornalista Kyle Neubeck fez um longo exercício de investigação para tentar descobrir o que aconteceu, coletando vídeos de como o arremesso de Fultz modificou-se durante os últimos meses e se munindo de impressões médicas sobre o impacto real que a musculatura de um ombro pode ter sobre um arremesso. Minha conclusão após ler esse trabalho minucioso é que Fultz não está pronto mentalmente para retornar a uma quadra da NBA – e que é surpreendente e assustador que qualquer outro jogador esteja.


Chegar à NBA é uma jornada bastante severa. Crianças e adolescentes são julgados constantemente por adultos bem e mal intencionados, por gente eufórica e por gente ressentida, que quer que os infantes sejam tudo aquilo que os adultos não conseguiram ser. Nada do que esses jovens apresentam é suficiente, sempre há algo que precisa ser melhorado. São colocados para enfrentar uns aos outros numa espécie de “Jogos Vorazes” sem sangue (e sem padeiros, ainda bem), em que apenas os melhores dentre os melhores conseguem as vagas cobiçadas, e mesmo esses não conseguem garantir minutos numa quadra de basquete universitário. Há uma cobrança constante, uma competição severa e absolutamente nenhuma garantia. Quando finalmente chegam ao topo e entram na NBA, são dissecados por todos nós: analisamos seus PONTOS FORTES E PONTOS FRACOS, fazemos previsões muitas vezes cruéis, cobramos que amadureçam e contribuam rapidamente para os seus times. Existe uma expectativa com jogadores que são escolhidos com as primeiras escolhas do draft que muitas vezes não podem ser concretizadas, especialmente porque o jogador não tem nenhum controle sobre a posição em que ele será escolhido. Alguém pode simplesmente ter acreditado em demasia no seu potencial, mas toda a raiva e a frustração serão direcionadas para o jogador que não as concretizou. É muito fácil que esses jogadores estejam inteiramente inseridos numa lógica em que tudo que se faz é para os OUTROS: é para agradar a família, o empresário, as expectativas do draft, o treinador, a estrela do time, o patrocinador. Para o jogador, nada – exceto o cheque de milhões, claro.

Falamos muito sobre o impacto que o esporte profissional tem sobre os CORPOS desses jogadores; discutimos sobre lesões, períodos de descanso, técnicos que poupam jogadores, temporadas mais curtas. Sabemos que o esporte cobra um preço alto, força os corpos ao limite, com objetivos arbitrários para os quais a fisiologia humana não está necessariamente preparada. Mas quase sempre deixamos de lado o impacto que o esporte profissional tem sobre as MENTES desses jogadores. Perdemos de vista o quanto esses jogadores devem sofrer com ansiedade, com estresse, com insônia, e o quanto devem sentir seu desejo sequestrado de si próprios, jogando sempre para agradar a todos os outros. Queimamos em fogueiras virtuais os jogadores que “amarelam”, falhando nos momentos decisivos, sem nos lembrar do impacto emocional que um arremesso decisivo pode ter na carreira de um jogador que se sacrificou e se anulou por anos e anos para estar ali naquela situação. E que pode errar, sentindo que todo o esforço foi em vão, e não querer acordar novamente no dia seguinte.

Markelle Fultz mal chegou à NBA como uma primeira escolha do draft, uma sensação, um ídolo, com contratos milionários recém-assinados com a Nike e a Sansung, e já estavam lhe dizendo que seu arremesso não era bom o bastante, que seu lance livre era inaceitável, que sua mecânica precisava ser modificada. E aí o jogador, que se sacrificou para chegar naquele momento tão sonhado, precisa começar tudo do zero, devastado pelas críticas, e se tornar uma outra coisa nova – porque seu treinador, ou seu time, ou seu patrão, ou o que quer que seja, lhe falou que aquilo que ele é infelizmente não é suficiente. É preciso ser uma outra coisa.


Muita gente ficou chocada quando há menos de duas semanas atrás DeMar DeRozan, provavelmente o melhor jogador do atual melhor time da Conferência Leste, admitiu sua luta constante contra a depressão. Em meia dúzia de palavras no Twitter, como se um pequeno gemido tivesse escapado sem querer para o mundo: “Essa depressão leva o melhor de mim…”

O choque vem do fato de que DeRozan é bem-sucedido, milionário, famoso, um dos melhores jogadores de basquete de sua geração, a face de sua franquia e finalmente no topo de sua Conferência. Ou seja, ele não teria qualquer motivo para estar deprimido. Mas o que não se entende é que, quando há um motivo claro e óbvio, estamos falando apenas de tristeza: a depressão é aquilo que ataca também quando tudo está bem, esvaziando todas as coisas de sentido e substituindo por um medo radical de ser inadequado, quebrado, de estar colocando tudo a perder, incapaz de ver qualquer objetivo. Já ouvi gente dizer que para curar um depressivo basta levar a uma festa ou ao cinema, quando a depressão é justamente aquele momento em que nenhuma festa ou filme tem qualquer cor ou sentido.

Após o breve desabafo – e as demonstrações de apoio e carinho que recebeu – DeRozan admitiu que sofre com isso a vida inteira. DeRozan estava lutando contra sua depressão enquanto entrava num dos ambientes mais competitivos do planeta, enquanto perdia jogos decisivos dos Playoffs em casa, enquanto era criticado por não ter um arremesso de três pontos, enquanto lhe diziam que não era bom o bastante para liderar uma equipe a um título. Sua depressão certamente foi vista nesse ambiente como fraqueza, como falta de “instinto matador”, como “falta de liderança”. E ele não é o primeiro a passar por isso, nem será o último. Se o ambiente competitivo e exigente da NBA não causou sua depressão, certamente não ajudou a tratá-la.


No último acordo coletivo entre jogadores e donos dos times, a Associação dos Jogadores conseguiu garantir uma verba para um programa de apoio ao “bem estar mental” para seus membros após assumidamente ter negligenciado essas questões por anos. “Fomos ingênuos em pensar que não precisávamos lidar com a parte mental com a mesma intensidade com que lidamos com a parte física”, confessou Michele Roberts, diretora da Associação dos Jogadores. O programa ainda não está em vigor, mas em breve receberá jogadores que por enquanto sofrem nas sombras com crises de ansiedade, depressão, insônia e muitos outros distúrbios psíquicos.

Markelle Fultz não acordou um dia sem saber arremessar, num pesadelo kafkaniano como o do personagem de “Metamorfose”, que de repente acordou, após uma noite de sonhos intranquilos, metamorfoseado em um inseto gigantesco. Sua mecânica já estava terrivelmente comprometida antes da lesão no ombro. O que aconteceu é que alguém pegou aquilo que lhe era natural e confortável e tentou transformar em uma outra coisa, uma outra mecânica, um outro modo de jogar basquete. Acrescentou, portanto, uma camada gigantesca de estranhamento, de insegurança, de desconforto e de ansiedade a um adolescente que certamente já estava lidando com a pressão suficiente de ser a primeira escolha de draft, de ser a peça final de um “Processo” que dura anos e frustra milhares de torcedores, de ter que jogar contra os melhores jogadores do planeta em altíssimo nível desde o primeiro dia.

Jogadores de basquete não são máquinas, não podem ser simplesmente reprogramados. Dwight Howard sempre foi um excelente cobrador de lances livres nos treinos, beirando os 80%, enquanto seu aproveitamento em jogos oficiais na carreira é de míseros 56%. Não é uma simples questão de mecânica, mas de desconfiar do próprio arremesso, de si mesmo, fazer ajustes mentais o tempo inteiro na mecânica porque ela não está a contento, nunca está a contento, nada está a contento. Fultz não sabe mais arremessar como ele arremessa – agora ele precisa pensar o tempo inteiro, assimilar dicas, movimentos, expectativas, ângulos, técnicos e o horror que seus erros causam aos nossos olhos numa geração em que todo vídeo vai parar no YouTube e vira motivo para humilhação. É tanta coisa ao mesmo tempo que não é nada surpreendente que seus ombros não estejam dando conta.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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