🔒O mínimo esforço

Nos últimos anos a NBA foi profundamente abalada por uma questão aparentemente simples: o que é, afinal de contas, um “bom arremesso”? Muitas vezes acreditamos, indevidamente, que praticar bem um esporte é apenas ser capaz de realizar uma ação fisicamente melhor do que os demais atletas – que para ser um bom corredor, por exemplo, basta “correr” como qualquer um só que mais rápido; e que para ser um bom jogador de tênis basta atingir a bola, mas com mais precisão e força. Daí ficamos com a noção de que os melhores atletas são aqueles com mais poder FÍSICO para realizar as ações exigidas por cada esporte; são os mais rápidos, os mais ágeis, os mais fortes, os mais precisos. Esquecemos que em qualquer jogo um dos elementos mais importantes é compreender as regras e encontrar, MENTALMENTE, as melhores maneiras de cumpri-las.

Takeru Kobayashi é competidor de um esporte bizarro: por anos participou de campeonatos de QUEM COME MAIS. Takeru quebrou todos os recordes existentes desses torneios depois de perceber, numa competição de quem comia mais cachorros-quentes, que os MÉTODOS que as pessoas utilizavam para competir eram incorretos. A história dele pode ser acompanhada em inglês no podcast Freakonomics e mostra como pensar em maneiras alternativas de lidar com as regras e as restrições dos jogos pode ser a diferença entre um competidor amador e um verdadeiro profissional.

Tendemos a assumir constantemente que nossa maneira de mover as pernas é a melhor para correr, e que levantar a bola no alto da cabeça é a melhor mecânica para um arremesso. Criticamos sem dó quem dá aqueles arremessos “tortos”, de Leandrinho a Ben Simmons, como se eles fossem errados em si. No entanto, nem sempre os padrões foram os mesmos de agora: na corrida pessoas diferentes experimentaram com diferentes modos de se mover, ângulos distintos para manter as costas, maneiras de balançar os braços, até encontrar os movimentos mais eficientes para aumentar a velocidade humana. No basquete, era comum dar arremessos de “lavadeira”, jogando a bola da altura dos joelhos, até o arremesso da altura do peito se tornar mais popular. Alguém teve que pensar em fazer bandejas, arremessar do alto da cabeça, dar uma enterrada, tentar um “gancho”, quebrar a munheca. Nenhum desses movimentos é ÓBVIO ou NATURAL, todos eles são invenções que fazemos para tentar lidar com as regras bizarras impostas pelo esporte.

Isso significa que um “bom arremesso” não é algo óbvio ou evidente, mas sim algo que precisamos pensar, bolar e experimentar. Independente da capacidade física dos envolvidos, é possível pensar em melhores ou piores maneiras de colocar uma bola dentro da cesta, e quando temos diferentes maneiras de fazê-lo passa a ser complicado comparar e julgar cada uma delas. Será que um gancho é melhor do que um floater? É melhor enterrar a bola ou soltá-la na tabela? Vale mais a pena arremessar de dois ou de três pontos?


Ao meu ver existem duas maneiras fundamentais dos jogadores encararem o basquete. A primeira é priorizar a EXECUÇÃO, a capacidade de realizar os movimentos da maneira mais bonita, atlética, limpa ou elegante possível. Há um prazer estético aqui: é BONITO ver movimentos sendo feitos com precisão, com explosão ou com força. Se todos correm com a mesma mecânica física, passa a ser incrível ver o que corre com mais graça, com mais fluidez e com mais velocidade.

Enquanto Shaquille O’Neal dominava o garrafão fazendo com mais força e velocidade aquilo que os pivôs tentavam a décadas, Tim Duncan retirava dos movimentos do basquete tudo que existia de exagerado, de desnecessário, de supérfluo, fazendo o essencial com primor. Eram estilos opostos de jogo, mas a abordagem é a mesma: executar com perfeição aquilo que já é conhecido ao ponto de nos mostrar o ápice de cada movimento. Ver os dois jogar era uma experiência inesquecível que parecia mostrar o limite da ação humana. O prazer estético de quem assistia era inegável e mesmo pessoas que não conheciam o esporte a fundo podiam perceber que algo estava sendo feito de uma maneira impressionante.

Mas a segunda maneira de encarar o basquete é se focar na capacidade dos jogadores de CRIAR novas soluções para um problema, dissecar as regras e encontrar caminhos pouco explorados para alcançar os objetivos propostos. Esses jogadores são como aquelas pessoas que se debruçam sobre os manuais de regras, encontram as brechas, exploram as falhas dos videogames, encontram os bugs, percebem que uma jogada simplesmente gera mais pontos do que outra. São pessoas que parecem ENTENDER o jogo melhor do que os outros, que levam a sério a proposta do jogo de vencer desafios e obstáculos da maneira mais fácil ou simples possível. Muitas vezes nos esquecemos, mas o basquete é apenas uma situação-problema: como levar a bola para dentro de um cesto dada uma série de limitações e dificuldades fixas (as regras sobre bater bola, falta, andadas, etc) e móveis (os adversários, as defesas, sua própria capacidade física, sua própria altura, etc).

Eu entendo que ver alguém fazendo algo que já conhecemos de uma maneira AINDA MELHOR do que estamos acostumados é incrível, encanta, enche os olhos, faz lagriminha sair do canto do olho. É uma busca pela perfeição com que todos podemos nos relacionar, conversa com uma certa concepção de arte e simplesmente nos gera PRAZER estético. Quem nunca se emocionou com um campeonato de enterradas tem uma bola de pelos no lugar do coração.

Mas acredito que exista uma certa resistência desproporcional àqueles jogadores que estão OBEDECENDO ao princípio do jogo de vencer os problemas de uma maneira que envolva o mínimo de esforço possível. Ao invés de entender a genialidade de dissecar o esporte e desenvolver novos caminhos, muitos desenvolvem uma AVERSÃO a essas tentativas – como esses jogadores se atrevem a encontrar um caminho nas regras ao invés de fazer aquilo que sempre se fez, só que mais rápido, com mais força, com mais precisão? Especialmente porque nosso senso estético muitas vezes reconhece esses novos caminhos como “chatos”, “apelativos”, “repetitivos”, usam leituras do jogo que parecem “quebrar” o desafio. Tornar fácil algo que deveria ser difícil pode ser um tanto brochante para quem está assistindo se nos esquecemos da genialidade envolvida em PERCEBER que há um caminho mais fácil para a vitória.


Acredito que ninguém recebeu mais ódio e insatisfação na NBA dos últimos anos do que três jogadores em particular: Stephen Curry, acusado de “só arremessar de três pontos” e levar a NBA nessa direção “chata” em definitivo; Kevin Durant, por ter escolhido se juntar a um time que já era campeão; e James Harden, por “cobrar lances livres demais” e “fazer todos os seus pontos sozinho”. Os três possuem algo em comum: um certo modo de “burlar de regras” através de escolhas e invenções que tornaram mais fácil vencer os desafios do basquete.

Arremessar de três pontos é algo que existe há décadas, mas Stephen Curry não apenas se tornou o emblema de que um alto aproveitamento era possível no perímetro como também passou a arremessar DE AINDA MAIS LONGE, às vezes quase do meio da quadra. A lógica é simples mas inovadora: se um “bom arremesso” é um arremesso livre, então arremessar de mais longe do que a linha de três pontos será sempre um bom arremesso caso você seja capaz de convertê-lo. Hoje, dos 33 arremessos de três pontos que o Golden State Warriors tenta por partida, 22 deles são dados a dois metros atrás da linha de três. A distância é compensada pela falta de marcação tão longe da cesta: o Warriors acerta 37% desses arremessos.

Ver alguém parando dois ou três passos atrás da linha de três pontos parece absurdo, estúpido, ridículo. Não é uma jogada trabalhada, a defesa não está ali, arremessar de tão longe parece ser simplesmente lançar a bola e contar com a sorte. Mas quando se acerta uma porcentagem tão alta, o que temos é um time que encontrou um arremesso “mais fácil” do que ficar trabalhando a bola perto da cesta. Nenhuma regra está sendo quebrada, pelo contrário: é de um maior entendimento das regras, do valor dos pontos, das estatísticas e do espaçamento dos adversários na quadra que surge essa IDEIA BIZARRA e CONTRA-INTUITIVA de arremessar de mais longe. Chegamos a um ponto em que mesmo que as bolas de três pontos não valessem mais do que as bolas de dois pontos, arremessá-las ainda valeria a pena: em 2016, Jon Bois recriou a temporada 2015-16 em que o Warriors foi campeão fazendo todos os arremessos valerem dois pontos, e todas as faltas cometidas em arremessos de três gerarem apenas dois lances livres, e descobriu que AINDA ASSIM o Warriors teria sido campeão e pouca coisa teria mudado ao longo da temporada.

Na prática, mesmo se valessem menos os arremessos de três pontos são simplesmente arremessos de melhor aproveitamento, mais difíceis de marcar, e portanto valem a pena mesmo se só resultassem em dois pontos. Talvez não sejam tão interessantes ou esteticamente agradáveis quanto ver alguém ter que enterrar uma bola, pontuando na marra, mas são mais eficientes, inteligentes e práticas do que a maior parte das possibilidades de se pontuar no basquete.

O mesmo acontece com James Harden: ele tenta arremessos idiotas, que nunca deveriam ser tentados, em momentos em que seus adversários, justamente por não temerem um arremesso, estão em péssimas posições defensivas e acabam cometendo faltas. Não se trata de uma leitura dos juízes, mas de um uso prático das REGRAS: quando alguém estica o braço, em qualquer situação, Harden tenta um arremesso. O que incomoda é que esses arremessos não são dados com a intenção de converter arremessos, mas sim de cavar faltas. A falta acontece, mas o objetivo de Harden era justamente sofrê-la. Os poucos defensores mais disciplinados que se recusam a morder a isca muitas vezes são recompensados com James Harden tentando arremessos MEDONHOS, que sequer chegam no aro. Acertar a cesta não era, afinal, a intenção inicial.

Por mais bizarro que isso seja – um jogador que não quer acertar a cesta -, a lógica está no fato de que o objetivo do basquete não é acertar arremessos, é FAZER PONTOS. Se os pontos podem vir de outros lugares (lances livres, por exemplo), e se esses lugares são mais simples, então a saída é legítima. Harden cobra, por jogo, quase 12 lances livres, máximo de sua carreira. Não está muito longe dos quase 10 lances livres por jogo de Joel Embiid, nem dos mais de 9 lances livres por jogo de Giannis Antetokounmpo. O que incomoda, no entanto, é que esses outros jogadores NÃO QUEREM sofrer faltas, já que estão tentando chegar ao aro; James Harden, por sua vez, prefere a falta e usa as regras para consegui-las.

Outro estranhamento causado por Harden está nos outros tipos de arremesso que ele converte. O Barba encerrou nessa semana sua sequência de TREZENTOS E QUATRO pontos consecutivos marcados sem receber uma assistência sequer:

Isso contraria uma noção fundamental do basquete moderno: para conseguir arremessos livres é necessário construir jogadas, se movimentar sem a bola, usar corta-luzes, enganar a marcação. Isso dá trabalho. Harden ignora essa concepção porque para ele um arremesso consideravelmente livre exige apenas um PASSO PARA O LADO. Harden acerta 36% dos seus arremessos de três pontos, um aproveitamento bom o suficiente para ele arremessar todas as bolas de um jogo, se quiser. Mas apenas 11% desses arremessos de três que ele converte precisam de uma assistência, todos os outros ele consegue fazer sozinho. Em média, 82% de todos os arremessos de três pontos convertidos na NBA são fruto de uma assistência – no Sixers, esse número chega a NOVENTA E CINCO POR CENTO. Mas Harden encontrou uma maneira de manter o aproveitamento sem precisar disso. Em seu primeiro ano na NBA, Harden recebeu uma assistência em 92% de suas bolas de três pontos; hoje, em sua décima temporada, ele entende melhor as regras do esporte (e do seu corpo) a ponto de saber que nas atuais circunstâncias, com as lesões do Rockets e a porcentagem de aproveitamento dos seus companheiros, essas assistências não são necessárias. Ele passar um jogo inteiro dando um passo para o lado e arremessando de longa distância é o melhor que o time pode fazer.

Como efeito de comparação, Stephen Curry recebe assistências em 68% de suas bolas de três pontos convertidas, mas isso dá trabalho: exige um time entrosado, grandes talentos, gente correndo sem a bola, Klay Thompson chamando a marcação no lado contrário. Klay, aliás, recebe assistências em 92% de suas bolas de três pontos convertidas. Ele brilha num esquema tático desenhado para que ele quase nunca tenha a bola nas mãos. Mas nem todo mundo pode ser o Warriors, claro; soluções precisam ser diferentes em situações diferentes. E às vezes isso significa “explorar a máquina”, encontrar as brechas das regras, descobrir o que de mais simples pode fazer o mesmo serviço que uma série de movimentações complexas que não são acessíveis a qualquer um. Já comentei aqui em outro post: na época de Michael Jordan, ninguém se atrevia a arremessar bolas de três pontos em transição porque era preciso “trabalhar a bola”, mesmo sem perceber que os arremessos resultantes disso nunca era tão bons quanto aqueles que estavam disponíveis na correria da transição ofensiva.

Talvez as jogadas mais trabalhadas dos anos 80 fossem mais “agradáveis”, “bonitas”, ou qualquer outro termo que demonstre nossa sensação estética com aqueles acontecimentos. Talvez o que nós gostemos de ver seja gente SOFRENDO, tendo que suar horrores para ultrapassar os desafios que a gente inventou, e as soluções fáceis – as saídas inteligentes – quebrem um pouco o nosso barato, reduzam nossa percepção de dificuldade e, portanto, nosso maravilhamento com a vitória do desafio. As bolas de três, os passos para o lado de Harden e até a decisão de Durant de ir jogar num time já campeão são tentativas de diminuir a dificuldade do jogo, mesmo que não quebrem as regras. Causam incômodo, exploram as regras, não são a velha fórmula sendo levada à perfeição, são gente comendo pelas beiradas, fugindo do desafio “original”. O problema é que, no fundo, todos os jogadores estão fazendo o mesmo, de um modo ou de outro: um drible também é uma maneira de tentar escapar do desafio de um defensor; um arremesso no alto da cabeça é uma maneira de tentar escapar do desafio de um marcador mais alto; uma bandeja na tabela é uma maneira de escapar do desafio de soltar a bola no aro. Qual o limite? Quais soluções estamos dispostos a aceitar sem comprometer nossa sensação de dificuldade, sem a qual não há esporte? Deveríamos levar em consideração nosso “senso estético”, nossa vontade de que o esporte seja BONITO E EMPOLGANTE, quando tudo que pedimos dos jogadores é que eles VENÇAM, que resolvam o desafio, que solucionem uma situação-problema? Se o que queríamos era assistir a jogadores vencendo adversidades, por que nos incomodamos quando os métodos não são aqueles que havíamos imaginado?

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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