Resumo da Rodada 16/5 – Terceiro quarto da morte

Para alegria geral de quem esperava Finais da Conferência Oeste minimamente disputadas, o Portland Trail Blazers não repetiu as escolhas defensivas que realizou no Jogo 1 contra o Golden State Warriors. Continuar sem trocar a marcação após um corta-luz, permitindo que Stephen Curry e Klay Thompson saíssem completamente livres a cada bloqueio, não poderia ser novamente uma possibilidade. O problema, entretanto, era que a troca de marcação expõe Enes Kanter e os demais pivôs da equipe, motivo pelo qual o técnico Terry Stotts evitou essa abordagem na primeira partida.

Para o Jogo 2 tivemos então uma terceira via, um bom meio termo entre as duas maneiras de defender. Como havíamos proposto, o Blazers tentou uma prática consolidada pelo Boston Celtics nas últimas temporadas, fazendo a troca de marcação sem que o defensor original desista de vencer o bloqueio. Quando ele finalmente ultrapassa o corta-luz, retomando sua posição defensiva original, o defensor que realizou a troca pode retornar à sua função anterior ao invés de manter uma “dobra” no adversário.

Na prática, essa abordagem defensiva parece um pouco com uma dobra de marcação no instante em que o corta-luz acontece, mas com alguns diferenciais: ao invés do novo defensor “encostar” no adversário, assumindo para si aquela marcação em definitivo, ela apenas se aproxima para estar nas imediações caso seja necessário contestar um arremesso rápido. Essa aproximação acontece apenas durante o tempo necessário para o defensor original ultrapassar o corta-luz e recuperar sua função, permitindo que a dobra dure poucos segundos. Quando Enes Kanter teve que marcar Stephen Curry, por exemplo, o armador do Warriors tinha apenas um ou dois segundos para arremessar ou atacar a cesta até que seu defensor normal, Damian Lillard, voltasse à função e Kanter pudesse mais uma vez retornar ao garrafão.

Algumas vezes o Blazers até mesmo surpreendeu fazendo o esquema descrito acima sem usar o defensor envolvido no corta-luz, mas sim o marcador responsável por Draymond Green ou Andre Iguodala. Ou seja, “surgia” um terceiro defensor na jogada pronto para marcar Stephen Curry por alguns instantes até que o marcador original se recuperasse e Enes Kanter sequer precisava se mover. Com isso tivemos Draymond Green e Andre Iguodala momentaneamente livres na linha de três pontos mas com Enes Kanter entre eles e a cesta, de modo a incentivar o arremesso do perímetro. Nunca é ideal deixar jogadores inteiramente livres – vale lembrar que as 5 bolas de três pontos de Iguodala contra o Houston Rockets foram essenciais para a vitória do Warriors no Jogo 6 das Semi-Finais – mas pareceu um preço pequeno a se pagar para ter ao mesmo tempo os melhores arremessadores do time contestados e o garrafão do Blazers em posição razoável para defender o aro.

Estamos falando aqui, entretanto, de um esquema defensivo de DIFICÍLIMA EXECUÇÃO, o tipo de coisa que só é executada com maestria pelos melhores elencos da NBA. No vídeo abaixo podemos ver com clareza o que acontece quando a defesa não é perfeitamente realizada – e quando o Warriors está alerta para explorar essas falhas de execução:

No começo da jogada vemos que Stephen Curry está se movimentando sem a bola, marcado por Damian Lillard (como foi o padrão ao longo de todo o jogo), e parte em direção a um corta-luz de Andre Iguodala. Lillard, por definição, continua tentando chegar em Curry, enquanto Evan Turner deveria incomodar o armador adversário momentaneamente até que Lillard pudesse chegar e se estabelecer. Acontece que Andre Iguodala abre mão do corta-luz no último segundo para bater para a cesta, mas nesse instante Turner já se comprometeu a impedir Curry mesmo que o corta-luz não tenha acontecido. Draymond Green, sempre genial, percebe imediatamente o deslize defensivo e aciona Iguodala sozinho embaixo da cesta.

A jogada que vimos acima, no entanto, só ocorreu no quarto período, quando o Warriors já estava mais preparado para lidar com a defesa adversária. Essa não foi a tônica de todo o jogo, especialmente no primeiro tempo. Com o time pego de surpresa, vimos Iguodala tentar e errar os arremessos livres que teve, Klay Thompson tentando jogar no mano-a-mano e errando muitas bolas contestadas, e Stephen Curry tendo que arremessar bolas muito rápidas ou sob forte marcação.

Enquanto isso, do outro lado da quadra, o Warriors optou pelo “trap”, a dobra de marcação a cada corta-luz tentando prender Damian Lillard num canto da quadra. O armador não hesitou em passar a bola para Enes Kanter, seu plano de fuga favorito, mas Draymond Green sempre esteve entre Kanter e a cesta, forçando o pivô a tomar uma decisão com a bolas nas mãos na linha de lances livres. Incapaz de progredir para a cesta, Kanter se viu obrigado a passar a bola de volta para o perímetro, o que resultou em arremessos de três certeiros de Mo Harkless e Al-Farouq Aminu. No segundo quarto, Damian Lillard também acertou bolas de três pontos longas, antes da dobra conseguir se estabelecer, alguns passos atrás da linha do perímetro. Foram 6 bolas de três pontos para o Blazers só no segundo período contra nenhuma do Warriors, atrapalhado pela marcação adversária. As bolas longas em transição que o Warriors sempre consegue para sair do sufoco foram muito bem contestadas também por uma defesa do Blazers focada em desviar a bola nos contra-ataques ao invés de marcar os espaços. Seth Curry fez um trabalho defensivo SOBERBO nesse sentido, interceptando as rotas de passe e incomodando seu irmão ao roubar e desviar bolas durante o drible. Foram 3 roubos pra ele só no primeiro tempo:

De repente, com o elenco de apoio acertando arremessos de longe, Lillard finalmente quente nas bolas longas e uma defesa bem pensada e executada, o Blazers abriu 17 pontos de vantagem no segundo quarto, terminando o primeiro tempo 15 à frente. Foi a defesa que deveríamos ter visto desde o Jogo 1, associada às resposta contra dobras de marcação que Damian Lillard tem trabalhado por anos e mostrado consistentemente desde o início desses Playoffs. Parecia receita para um final feliz, se não fosse mais uma aparição dos FAMOSOS TERCEIROS QUARTOS DA MORTE do Warriors.

Num período de apenas 2 minutos e meio, o time da casa fez 13 pontos sem tomar NENHUM. O Blazers, por sua vez, fez apenas 10 pontos nos primeiros NOVE MINUTOS do terceiro quarto. Foi como assistir ao pior pesadelo de qualquer time de basquete, um show de horror e agonia digno de cinema. Toda vez que o Blazers fazia um bom trabalho defensivo, o Warriors se aproveitava do fato de que Enes Kanter estava nas proximidades do perímetro para conseguir um rebote ofensivo, que imediatamente virava uma cesta de três pontos porque o Blazers já estava fora de posição tentando correr para o ataque. Zach Collins, por sua vez, fez faltas em todas as jogadas defensivas em que se envolveu – ao todo, foram 5 faltas em 8 minutos de jogo para o pivô na partida – e mal conseguia ficar em quadra. As dobras em Damian Lillard passaram a ser mais agressivas, não lhe deram espaço para passes, roubaram a bola e puxaram contra-ataques fulminantes. Aminu e Harkless já não conseguiam (e nem queriam) arremessar, de modo que o Blazers não tinha nenhum caminho para o aro. E tudo isso, claro, com Klay Thompson e Stephen Curry inspirados somando, juntos, 24 pontos e 5 bolas de três pontos.

Muitos times teriam desintegrado ali, jogado a toalha e voltado para a casa. O Blazers, no entanto, esfriou a cabeça e resistiu: CJ McCollum assumiu o time em jogadas individuais, o Blazers marcou 14 pontos nos últimos 3 minutos do quarto e quando o último período começou o jogo estava magicamente empatado. A liderança de 17 pontos parecia uma marca distante, fruto de tempos imemoriais; a sensação era apenas de que um placar zerado consistia em um MILAGRE depois do atropelamento de trem que testemunhamos.

O que aconteceu nesse terceiro período foi que o Warriors simplesmente fez os ajustes necessários: aumentou a intensidade da defesa, numa versão extremada de sua abordagem inicial para ver se incomodava Lillard, e passou a explorar os erros e os espaços naturais resultantes das “mini-dobras” que o Blazers tentava executar para evitar arremessos livres. O desesperador é que o Warriors é um time com muitos talentos mas, principalmente, muitos RECURSOS – eles sabem explorar diferentes tipos de defesa por criarem oportunidades muito diversas de arremesso. Defender bem o Warriors não é garantia de pará-los, apenas garantia de que eles terão que se ajustar – e que isso pode demorar, tirá-los da zona de conforto ou exigir algum esforço. Quando o ajuste veio e funcionou pra valer, a diferença de 17 pontos no placar foi zerada. Era hora, então, do Blazers fazer os próprios ajustes se quisesse levar o quarto período.

Damian Lillard passou então a atacar suas dobras de marcação, primeiro arremessando contra elas graças a um corta-luz no meio da quadra e sua distância no arremesso:

Depois ele passou a tentar o “split”, a infiltração ENTRE os dois defensores. A jogada abaixo talvez seja uma das coisas mais incríveis que Lillard já fez: é um “split” seguido por finta de passe para tentar tirar Draymond Green da sua frente e depois uma bandeja surreal com a mão esquerda porque não, Draymond Green não saiu da sua frente.

E pra finalizar os ajustes, Lillard tentou algumas posses de bola sem receber um corta-luz, impedindo portanto a dobra que o Warriors estava realizando. O que o Warriors fez, então, foi dobrar MESMO assim, permitindo que Lillard tivesse mais tempo para perceber a dobra chegando e responder a ela com seus passes.

Mas além de Lillard, Seth Curry teve um quarto impecável, fazendo ótimo trabalho defensivo, roubando mais uma bola, marcando bem Klay Thompson no mano-a-mano e acertando 3 bolas do perímetro para fazer justiça ao seu sobrenome. Foi principalmente graças aos dois que o Blazers conseguiu assumir a liderança novamente no placar e mantê-la até os minutos finais.

O problema foi que a escolha defensiva do Blazers parou de ser suficiente. Não apenas o Warriors continuou a conseguir cestas livres quando a defesa cometia algum erro – como na jogada que abriu esse post, e que não acontecia do outro lado da quadra, onde cada cesta do Blazers era sofrida e suada – mas Stephen Curry começou a reagir às pequenas dobras EXATAMENTE da mesma maneira que reagiu às dobras totais que recebeu do Rockets no Jogo 6 das Semi-Finais. Ou seja, pick-and-roll com Draymond Green, passes rápidos para ele, e aí um passe certeiro de Green para Kevon Looney embaixo da cesta. Foi precisamente essa jogada que deu ao Warriors a liderança por 1 ponto a menos de um minuto do fim – justamente quando Seth Curry havia convertido uma bola de três pontos que havia dado a liderança para o Blazers.

E aí, para as posses de bola decisivas, o Warriors resolveu que não iria mais dobrar em Lillard, fazendo uma troca de marcação simples. A decisão forçou o armador do Blazers a jogar no mano-a-mano, exatamente aquilo que ele havia abandonado durante todo o jogo. E aí, precisando de uma cesta de três pontos para empatar a partida na última posse de bola, enfrentando Andre Iguodala no um-contra-um, Lillard sequer conseguiu dar o arremesso:

Que a vitória do Warriors não nos iluda: tivemos uma partida incrível do Blazers para alegrar uma série que parecia morta e enterrada. Não é tarefa pouca aparecer com um esquema defensivo desses de um jogo para o outro, mas pequenos erros de execução, indecisões e antecipações deram ao Warriors pontos fáceis que ajudaram a colocar os campeões de volta no jogo. Além disso, o ataque do Blazers, que encontrou solução empolgantes e interessantes no resto do jogo, não resistiu ao APAGÃO do terceiro quarto quando as dobras ficaram mais intensas – é, mais uma vez, Damian Lillard sendo derrotado por dois defensores lhe negando espaço. Seth Curry também teve uma partida surpreendente – é preciso bater palmas para seu potencial defensivo – mas terá que repetir a dose caso o Blazers queira ter outros jogos apertados como esse. No fundo, é o que resta ao time de Portland: forçar o adversário a ajustes, tentar construir alguma vantagem no placar, manter o jogo parelho, e aí brilhar nos minutos finais. Se a defesa funcionar como no primeiro tempo desse Jogo 2, é um cenário possível – o Blazers ainda não está pronto para jogar a toalha. Mas a capacidade do Warriors de reagir, especialmente na volta do vestiário, é assustadora. Quantos outros terceiros quartos da morte veremos nessa série?

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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