ūüĒíSem meio termo

O modelo que montou o atual Sixers, a partir de 2013, foi um modelo de extremos: o time seria campeão ou seria o pior de todos; os jogadores seriam estrelas inegáveis ou seriam trocados. A ideia era do então General Manager da equipe, Sam Hinkie, que acreditava que apenas os extremos eram válidos na luta por um título da NBA. Jogadores medianos seriam uma cilada: não levam um time a ser campeão e também não permitem que o time seja ruim o bastante para conseguir boas escolhas de draft, de onde surgirão os jogadores bons o bastante para levar um time a ser campeão. Jrue Holiday, então armador do Sixers, foi o primeiro a rodar por não apresentar indícios de que poderia liderar um time e foi trocado por uma escolha de draft. Michael Carter-Williams, eleito melhor novato do ano em 2014, foi o próximo: sua temporada inaugural de destaque não havia sido suficiente para mostrar que o jogador seria uma estrela no futuro, de modo que virou mais uma escolha de draft.

Desde ent√£o o Sixers especializou-se em pegar os melhores jogadores dispon√≠veis no draft, ignorando quaisquer receios com les√Ķes, sa√ļde ou encaixe em quadra, em busca daqueles talentos extremos que¬†lan√ßariam o time¬†diretamente para o topo da NBA. Jogadores draftados que n√£o eram estrelas indiscut√≠veis – Nerlens Noel, Jahlil Okafor, Landry Shamet, Markelle Fultz, Dario Saric e Robert Covington – foram todos trocados por estrelas ou escolhas de draft que poderiam virar, futuramente, estrelas. A √ļnica coisa inaceit√°vel para o Sixers √© ser um time med√≠ocre, mediano; os longos anos entre os piores times da NBA de maneira met√≥dica e planejada foram tolerados para que o time fosse campe√£o, n√£o para que se tornasse um time comum. Para ser um time comum, bastaria¬†ter mantido os jogadores medianos que acumulou ao longo dos anos, sem necessidade da leva de derrotas¬†sofridas e de trocas duras desses jogadores medianos em nome de um alvo mais ambicioso.

Cinco temporadas ap√≥s implementar esse modelo, o Sixers j√° foi parar nas Semi-Finais da Confer√™ncia Leste sob o comando de duas daquelas estrelas t√£o almejadas, Joel Embiid e Ben Simmons. O sucesso da franquia virou modelo de planejamento, comprometimento e estrat√©gia, uma s√©rie de elementos que os f√£s de Sam Hinkie, o idealizador desse m√©todo, intitularam de “O Processo”. Perder por v√°rios anos consecutivos pode ser duro, mas supostamente permite algum controle sobre o processo de reconstru√ß√£o de uma franquia que o Sixers, sob outras circunst√Ęncias, jamais teria. Para um time em frangalhos, alcan√ßar as Semi-Finais de Confer√™ncia (e entrar na temporada 2019-20 como um dos grandes favoritos para levar o Leste)¬†j√° seria uma conquista merecedora de uma boa¬†dose de celebra√ß√Ķes.


O “Processo” de Sam Hinkie, no entanto, tamb√©m tem seu lado negativo – um lado que mostra cada vez mais as suas caras e que determinar√° como julgaremos a reconstru√ß√£o desse Sixers para o futuro.

Talvez a primeira baixa de todo o processo tenha sido, ali√°s, o pr√≥prio Sam Hinkie, seu idealizador, que deixou o comando da equipe ap√≥s uma s√©rie de press√Ķes e uma crescente impaci√™ncia da diretoria com a falta de resultados do time. A impaci√™ncia era justificada, mesmo com todos os envolvidos cientes de que se tratava de um projeto de longo prazo, porque PERDER DEMAIS estava n√£o apenas tendo um impacto negativo na torcida e nas finan√ßas da equipe como tamb√©m no desenvolvimento dos jovens talentos da equipe, desmotivados com a falta de perspectiva de vit√≥ria. Essa CULTURA DO FRACASSO √© mais um dos pontos negativos do “Processo”, interferindo no estabelecimento de atletas que, em times mais competitivos, poderiam ter se tornado pe√ßas valiosas para compor um elenco. Em tema relacionado, diversos jogadores n√£o tiveram sequer chances de evoluir e se estabelecer como jogadores profissionais, sendo descartados frente a qualquer adversidade – Nerlens Noel, Jahlil Okafor e Markelle Fultz, por exemplo, tiveram suas carreiras seriamente comprometidas porque havia uma total falta de comprometimento do Sixers com o desenvolvimento de suas habilidades. Isso criou tamb√©m um clima de profunda fragilidade nos vesti√°rios, em que qualquer jogador, por mais importante que pare√ßa, pode ser a qualquer momento trocado em nome de mais uma estrela, mais um grande nome, rumo √†quele extremo de grandeza que pauta todas as a√ß√Ķes do time. Sobraram apenas os sobreviventes, os All-Stars, independentemente de qu√£o bem poderiam funcionar juntos, e outros jogadores desimportantes apenas para tapar buraco e compor o elenco. Afinal, ir para o extremo de colecionar estrelas – no caso do Sixers atual, Joel Embiid, Ben Simmons, Al Horfor e Tobias Harris – tamb√©m significa que voc√™ precisa ir para o outro extremo na hora de completar sua equipe, j√° que falta espa√ßo na folha salarial para os jogadores secund√°rios.

Quando somamos todos esses aspectos negativos do “Processo”, vemos as dificuldades do atual Sixers: um vesti√°rio confuso, em que as estrelas s√£o os jogadores mais novos e os veteranos experientes tem papeis secund√°rios, bagun√ßando a lideran√ßa da equipe e contribuindo para um clima de instabilidade; trocas constantes, que impedem os jogadores de saberem seus papeis, a comiss√£o t√©cnica de se ater a um plano de jogo, e o elenco de alcan√ßar algum grau de qu√≠mica e de comprometimento com a franquia; estrelas que, colecionadas a todo custo, n√£o se encaixam umas com as outras do ponto de vista t√°tico quando entram em quadra juntas; uma press√£o enorme por vit√≥rias num time que, por longos anos, n√£o viu nada al√©m de derrotas; e, por fim, um elenco de apoio em que falta talento, sem jogadores medianos capazes de manter um padr√£o de jogo. Todos esses elementos podiam ser facilmente ignorados quando o time fazia sua surpreendente viagem rumo √†s Semi-Finais da Confer√™ncia Leste ap√≥s anos de derrotas, mas agora que as expectativas s√£o elevadas tudo muda de figura: atualmente sem mando de quadra, mais de 12 vit√≥rias atr√°s do l√≠der do Leste, incapaz de vencer jogos fora de casa (s√£o 9 vit√≥rias e 19 derrotas, uma das piores marcas da Confer√™ncia), com Al Horford afirmando publicamente sua dificuldade de se encaixar nesse time e Joel Embiid envolvido em pol√™micas constantes e sendo eventualmente vaiado pela torcida da Philadelphia pela sua postura e posicionamento nas redes sociais, cada fissura no Sixers torna-se ESCANCARADA, irremediavelmente vis√≠vel. E √© preciso saber, agora, se essas fissuras podem ser arrumadas ou se elas fazem t√£o parte do “Processo”, s√£o t√£o estruturais, que para arrum√°-las seria preciso desmoronar todo o pr√©dio.


Para al√©m das dificuldades extra-quadra, os problemas de instabilidade, de vesti√°rio, de expectativa, de cobran√ßas, de experi√™ncia e de qu√≠mica, o problema mais evidente que assola o Sixers – e que todos os torcedores ainda tem esperan√ßa de que seja consertado – √© o ENCAIXE desse time em quadra. O motivo pelo qual essa quest√£o tornou-se priorit√°ria √© a cren√ßa de que, se ela¬†for resolvida, todas as outras ser√£o, DE UMA VEZ S√ď, resolvidas ou minimizadas. Se esse time tivesse uma s√©rie de quest√Ķes estruturais internas mas estivesse vencendo de maneira convincente, na primeira ou segunda coloca√ß√£o do Leste, tudo seria relevado. No entanto, n√£o apenas essas vit√≥rias n√£o est√£o vindo na frequ√™ncia sonhada como a maneira com que o time se apresenta¬†dedura problemas s√©rios de dif√≠cil resolu√ß√£o que apenas INTENSIFICAM as demais dificuldades e acabam ampliando a frustra√ß√£o dos jogadores – incluindo um impacto¬†na linguagem corporal dos atletas, por exemplo, que √© constantemente criticada por parecer desmotivada, impaciente e individualista.

O principal problema de encaixe da equipe √© que numa Era obcecada pelas bolas de tr√™s pontos, o Sixers n√£o consegue um quinteto capaz de converter esses arremessos e criar, portanto, espa√ßo para que seus jogadores de garraf√£o possam atuar. Nesse momento da temporada, os n√ļmeros s√£o aterradores: o Sixers est√° entre os 10 times que menos tentam bolas de tr√™s pontos, entre os 10 que menos convertem, e entre os 12 com pior aproveitamento nesse arremesso. Em geral os times que menos arremessam do per√≠metro (Spurs e Pacers, por exemplo, s√£o os dois times que menos tentam essas bolas) compensam estando no topo do aproveitamento (ambas as equipes figuram ao menos no Top 10). O Sixers une, ent√£o, o pior de dois mundos: arremessa pouco e converte pouco as bolas mais valiosas do basquete.

Isso se explica, em parte,¬†pelo fato de que o quinteto mais utilizado pelo Sixers na temporada √© composto por dois piv√īs (Joel Embiid e Al Horford), dois alas de for√ßa (Tobias Harris e Ben Simmons, que deveriam ser alas de for√ßa no basquete moderno) e um ala-armador, um¬†shooting guard (Josh Richardson). Na pr√°tica, TODOS esses jogadores jogam melhor atacando a cesta ou arremessando na meia dist√Ęncia, o que significa que seus defensores n√£o precisam se afastar muito da cesta e podem sempre ajudar a povoar o garraf√£o. Para impedir isso √© preciso ESPA√áAR a quadra, ou seja, afastar jogadores atacantes do aro para que seus defensores acompanhem e exista mais espa√ßo para infiltrar, mas os defensores n√£o precisam sequer marcar com tanto afinco os jogadores do Sixers no per√≠metro. Para termos uma ideia, Ben Simmons sequer tenta bolas de tr√™s pontos (arremessou 6 na temporada inteira, acertando duas), enquanto Embiid, Al Horford, Alec Burks, Josh Richardson, Mike Scott e James Ennis est√£o com aproveitamento inferior √† da m√©dia da NBA em bolas de tr√™s pontos. Tobias Harris consegue um aproveitamento bem ali na m√©dia, e apenas¬†Furkan Korkmaz, Raulzinho, Matisse Thybulle e Trey Burke arremessam acima da m√©dia da NBA – nenhum dos quais deveria ter minutos significativos, nesse momento de suas carreiras, num time com pretens√Ķes de ser campe√£o.

A SLAM separou recentemente uma imagem que demonstra perfeitamente a dificuldade de se ter um elenco com baixo aproveitamento do per√≠metro e t√£o voltado para as bolas de curta e m√©dia dist√Ęncia:

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Vejam que Embiid tem a bola em suas m√£os numa posi√ß√£o muito favor√°vel, sendo marcado individualmente por Clint Capela. No entanto, James Harden – nesse caso, marcador de Ben Simmons – abandonou COMPLETAMENTE seu homem para habitar o garraf√£o, impedindo uma potencial infiltra√ß√£o de Embiid. Al√©m disso, PJ Tucker, marcador de Al Horford, n√£o tem vergonha nenhuma de abandonar o per√≠metro e ficar com os DOIS P√ČS no garraf√£o; mesmo Danuel House, que deveria estar marcando Tobias Harris (que, como vimos, pelo menos est√° na m√©dia em termos de aproveitamento de bolas de tr√™s pontos) est√° mais dentro do garraf√£o do que fora. Na pr√°tica temos tr√™s jogadores do Rockets defendendo o garraf√£o, um fora mas colado em Embiid, e apenas um que est√° no per√≠metro (no caso, Westbrook est√° preocupado com Josh Richardson, que nem aparece na imagem, e mesmo assim est√° perto o bastante para colocar uma m√£o no caminho e atrapalhar Embiid caso o piv√ī bata para a sua direita). Embiid tem assustadores 70% de aproveitamento em arremessos de frente para a cesta pr√≥ximos ao garraf√£o, mas contra QUATRO defensores vai ser dif√≠cil sequer tentar esse arremesso. Nenhum jogador, nem mesmo James Harden, sofreu mais marca√ß√Ķes duplas do que Embiid ao longo desta temporada, e o piv√ī ainda n√£o sabe muito bem o que fazer nessas situa√ß√Ķes, especialmente porque seu time n√£o tem arremessadores especialistas para auxili√°-lo.

Abaixo, separei uma jogada que exemplifica bem o problema: mesmo os jogadores do Sixers que tem bom aproveitamento no perímetro não são especializados nisso e prefeririam não ter que dar esse arremesso com tanta frequência, o que gera absurdos como essa jogada aqui.

Na jogada acima, o Cavs se atrapalha todo e Ben Simmons, que é um gênio perto da cesta, acaba atraindo dois marcadores. Com isso temos Tobias Harris completamente livre na linha de três pontos, de frente pra cesta, mas ele REFUGA e tenta uma infiltração NADA A VER que acaba se tornando uma falta de ataque, já que o Cavs tinha quatro defensores dentro do garrafão naquele momento.

Essa dificuldade com o per√≠metro n√£o √© apenas um problema para conseguir bolas de tr√™s pontos, ela impacta tamb√©m a capacidade do Sixers de atacar o aro. Como vimos, ter defensores que podem se aglomerar embaixo da cesta gera mais faltas de ataque e permite mais dobras (ou at√© marca√ß√Ķes triplas) contra um jogador que tente uma infiltra√ß√£o ou uma jogada de costas para a cesta. Isso acaba aparecendo no fato de que o Sixers, por exemplo, est√° entre os 10 times que menos cobram lances livres, porque com ajuda defensiva aos montes um marcador batido n√£o √© obrigado a fazer¬†uma falta. Quando somamos a isso o fato de que o Sixers √© o s√©timo pior em aproveitamento de lances livres (Ben Simmons, quem mais tem a bola nas m√£os, acerta apenas 62%, enquanto os melhores arremessadores de quadra do time, Trey Burke e Korkmaz, acertam m√≠seros 72%) temos um cen√°rio desolador de um time que simplesmente n√£o consegue fazer pontos f√°ceis.

A falta de arremesso limita muito o time coletivamente, mas tem impactos enormes no desempenho individual de alguns jogadores tamb√©m. O caso mais extremo – at√© mais do que Embiid sofrendo com as marca√ß√Ķes duplas – √© o de Ben Simmons. Na NBA, o √ļnico jogador que toca mais na bola do que Simmons por jogo √© Nikola Jokic, o motor principal do Nuggets. O problema √© que, ao contr√°rio de Jokic, Simmons n√£o arremessa de m√©dia ou de longa dist√Ęncia e praticamente n√£o tem companheiros ao seu redor que o fa√ßam, o que faz com que ele n√£o tenha espa√ßo para atuar e seus defensores saibam sempre exatamente o que esperar. Como resultado, Ben Simmons √© um dos cinco jogadores que MENOS faz pontos a cada vez que toca na bola, se unindo a um grupo muito triste que inclui Lonzo Ball e Ricky Rubio – jogadores que fazem parte de ataques menos dependentes de seus pontos e que tocam bem menos na bola do que Simmons.

Se pudesse jogar mais perto da cesta, Ben Simmons poderia tocar menos na bola e ser mais decisivo quando o fizesse, mas isso significaria tirar espa√ßo pr√≥ximo da cesta de Joel Embiid. Essa quest√£o de um comer espa√ßo do outro fica bem evidente quando vemos as duplas de jogadores mais eficientes da equipe. Os melhores minutos do Sixers na temporada inteira foram quando Joel Embiid jogou ao lado de Mike Scott, um ala de for√ßa que arremessa de tr√™s pontos e pouco habita o garraf√£o. Enquanto isso, a pior dupla em quadra (a √ļnica com saldo negativo a ter jogado mais de 400 minutos nessa temporada) foi Joel Embiid e Al Horford juntos, dois jogadores de garraf√£o com aproveitamento abaixo da m√©dia do per√≠metro, ou seja, que podem ser deixados relativamente sozinhos em caso de arremessos de longa dist√Ęncia. A dupla Embiid e Ben Simmons n√£o √© muito melhor; tem saldo positivo, √© verdade, mas por muito pouco: fazer um ponto a mais do que leva n√£o √© o que se espera dos seus dois melhores jogadores no momento em que est√£o juntos em quadra.

Quando vemos os melhores quintetos, temos situação similar. Dos cinco melhores quintetos em quadra, nenhum inclui a dupla Embiid e Al Horford: os que tem Embiid, não tem Al Horford; os que tem Al Horford, não tem Embiid. Além disso, dois desses quintetos incluem o novato Matisse Thybulle, que é mais cru do que vaca que muge e não deveria ser uma opção consistente nos Playoffs.

O encaixe entre os tr√™s principais jogadores, que deveria ser √≥bvio – eles sempre deveriam ser titulares e estar em quadra ao mesmo tempo – j√° √© complicado em si: quando est√£o os tr√™s juntos, o saldo do time √© negativo. Para ter saldo positivo, algu√©m vai pro banco: Ben Simmons e Embiid juntos fazem mais pontos do que levam, ainda que pouquinho, e Ben Simmons e Al Horford juntos se saem ainda melhor. No entanto, o melhor resultado do Sixers disparado em combina√ß√Ķes desses tr√™s jogadores √© com Embiid completa e absolutamente sozinho, sem nenhum dos outros dois comendo seu espa√ßo de quadra. Sua versatilidade o torna mais dif√≠cil de marcar individualmente na meia quadra do que Ben Simmons e Al Horford, e nenhum dos seus companheiros lhe¬†retira o espa√ßo necess√°rio para que atue.

O quebra-cabe√ßas √© mais complicado do que parece, no entanto: enquanto o Sixers √© um dos times que mais faz jogadas de costas para a cesta, o aproveitamento do Sixers dispara nessas bolas quando Embiid N√ÉO est√° em quadra. Ou seja, a vontade de abrir espa√ßo para que Embiid possa dominar o jogo de costas para a cesta n√£o se justifica no mundo real; Embiid √© a melhor vers√£o de si mesmo quando est√° de frente para o aro, muitas vezes fora do garraf√£o, e quando pode ter espa√ßo para arremessos de m√©dia dist√Ęncia ou para infiltra√ß√Ķes. √Č dif√≠cil explicar que para que Embiid possa jogar melhor fora do garraf√£o, nenhum outro jogador do seu time pode estar habitando o garraf√£o, para que haja espa√ßo, e arremessadores precisam estar dispon√≠veis para que ele n√£o sofra marca√ß√£o dupla. √Č o que o Rockets faz, agora, para que Harden infiltre mais: se livrar do piv√ī, com a diferen√ßa de que, aqui, Embiid √© o piv√ī.

O que o Sixers precisava, portanto, era de um pouquinho de JJ Redick, que fazia parte da equipe na temporada passada – mas ele n√£o era uma estrela, n√£o era Al Horford, e portanto era descart√°vel. Sua aus√™ncia acabou destruindo o pouco que havia de espa√ßo para Embiid trabalhar. N√£o √© por acaso que quando perguntado, Embiid admitiu que o time n√£o tem uma identidade ofensiva porque o espa√ßamento √© “um problema”:

H√° muita press√£o, portanto, para que o t√©cnico Brett Brown mude o esquema t√°tico e resolva essas quest√Ķes fundamentais para o time. Sua capacidade de usar Ben Simmons em muitas situa√ß√Ķes, de transformar o time de um jogo de Playoff para outro, de acoplar novos jogadores nas infinitas trocas de meio de temporada e o fato de que o Sixers est√° sempre entre as melhores defesas (nesse momento √© a quinta melhor, por exemplo) sempre foi suficiente para mant√™-lo no cargo, mas o ataque disfuncional tem exposto o time demais em quadra, de modo que eventualmente Brown n√£o ter√° mais a oportunidade de¬†procurar solu√ß√Ķes. No entanto, insisto em n√£o achar que o problema √© responsabilidade do t√©cnico – pelo contr√°rio, t√©cnicos menos vers√°teis e criativos j√° teriam ca√≠do h√° muito tempo nesse pesadelo de encaixe. Brown j√° tentou seu tradicional ataque “espa√ßado e flu√≠do”, mas o Sixers n√£o tem especialistas no per√≠metro o bastante para for√ßar as defesas a contestar esses arremessos; j√° tentou fazer uso do tamanho dos seus jogadores e se focar no garraf√£o, tamb√©m sem sucesso porque as defesas podem dobrar a marca√ß√£o e falta espa√ßo; e j√° tentou todas as combina√ß√Ķes poss√≠veis de jogadores na rota√ß√£o, tendo que apelar constantemente para reservas desqualificados porque os titulares n√£o funcionam juntos. N√£o h√° mais muito o que se fazer e o que se tentar; o problema √© mais profundo e anterior.

A hist√≥ria que os n√ļmeros nos contam nesse post √© uma hist√≥ria sobre o basquete de verdade, o da quadra – para mim, o mesmo basquete¬†dos n√ļmeros – se rebelando contra o basquete FANTASIA, o basquete do videogame, do “Fantasy”, das listas de internet, que quer apenas juntar o m√°ximo de talento por motivos de √Č LEGAL. Juntar estrelas, sob qualquer m√©todo – contratando, convencendo ou, nesse “Processo”, perdendo e draftando – √© sim o bastante para transformar qualquer franquia num time interessante nos Playoffs, mas n√£o √© e nunca foi suficiente para estar no topo e ganhar t√≠tulos. Para que isso ocorra existem muitos outros fatores, que incluem o encaixe dos jogadores, o papel que desempenham, a possibilidade de que ningu√©m tenha que fazer concess√Ķes muito s√©rias para ser capaz de jogar com um companheiro, algum grau de qu√≠mica, uma coordena√ß√£o espec√≠fica de vesti√°rio e uma capacidade de se adequar ao basquete contempor√Ęneo (ou, de prefer√™ncia, DITAR as normas do que ser√° o basquete contempor√Ęneo). Ou seja, um monte de fatores que o Sixers poderia ter assumido, mas relevou.

O Sixers que temos em nossa frente √© um experimento fascinante, mas √© um experimento idealista que at√© aqui foi recusado pelo mundo real. H√° no time talento o bastante para que sejamos surpreendidos, para que uma vit√≥ria completamente inesperada nos Playoffs crave o “Processo” como o modelo a ser seguido por todas as franquias em reconstru√ß√£o no futuro; mas h√° tamb√©m no time rachaduras, problemas, aus√™ncias, desencaixes e uma total desconex√£o com o basquete do mundo real que s√£o suficientes, tamb√©m, para que o time de repente entre numa mar√© de derrotas, n√£o consiga mando de quadra e seja eliminado, pelo terceiro ano consecutivo, numa Semi-Final de Confer√™ncia. E essa indetermina√ß√£o, infelizmente, √©¬†um atestado de que o Sixers perdeu o controle e depende demais de fatores alheios ao¬†time – justamente algo que Sam Hinkie queria evitar ao colocar nas m√£os da franquia as chaves de sua pr√≥pria reconstru√ß√£o, j√° que perder pode ser uma ESCOLHA e, portanto, pode ser controlada. Vencer, no entanto, √© uma escolha mais dif√≠cil do que apenas reconstruir e colecionar talentos: se¬†tivesse olhado com paci√™ncia e cautela para o mundo real, o Sixers poderia ter escapado do desespero por Jimmy Butler e por Al Horford e dado prioridade a outros elementos. JJ Redick n√£o √© mais talentoso do que Al Horford, por exemplo, mas nesse momento desempenharia um papel muito mais importante para o todo. Isso nos diz os n√ļmeros, no entanto, n√£o a cartilha de adquirir apenas o mais talentoso jogador dispon√≠vel.

Caso seja eliminado novamente, a realidade certamente bater√° nas portas do Sixers: algo ter√° que mudar estruturalmente, porque a situa√ß√£o atual n√£o √© um deslize, ela √© fruto da maneira como o time foi CONSTRU√ćDO. Talvez seja a hora do time mudar de t√©cnico, mas mais importante, talvez seja a hora de abrir m√£o de um “talento geracional”,¬†esses talentos que s√≥ surgem uma vez a cada gera√ß√£o, contrariando toda a cartilha do “Processo”. Quando os n√ļmeros mostram que uma das estrelas atuais do Sixers precisa sempre estar no banco, talvez seja o momento de admitir que outros jogadores piores, mais modestos e mais especializados, teriam mais impacto – mesmo que isso signifique abrir m√£o de Simmons ou Embiid, por exemplo. O basquete exige decis√Ķes assim, de concess√Ķes e de adequa√ß√Ķes momento-a-momento, ao inv√©s de um plano imut√°vel de uma d√©cada.

Para os puristas, os amantes dos planos de longu√≠ssimo prazo e os f√£s de carteirinha de Sam Hinkie, uma a√ß√£o dr√°stica como essas, de trocar uma das duas grandes estrelas do time, teria ao menos algum respaldo no “Processo”: do jeito que √© agora, ali no meio da tabela, inseguro sobre as chances de avan√ßar nos Playoffs, sem ser o l√≠der em defesa, quase entre os 1o piores ataques, o Sixers est√° exatamente ali no meio, no v√£o,¬†no limbo, no quase. Para um plano de extremos, em que o meio termo √© o maior dos pecados, isso √© simplesmente inaceit√°vel.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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