🔒Spurs por um fio

Dizer que o Spurs é uma franquia vitoriosa não faz justiça ao grau de sucesso que a equipe conquistou nas últimas duas décadas – e, em certa medida, desde 1967, ano de sua fundação. Para termos ideia, o Spurs tem a maior porcentagem de vitórias em jogos disputados da história da NBA: são 43 temporadas e 63% de aproveitamento, à frente do Lakers, com 71 temporadas e 59.6% de aproveitamento, e do Celtics, com 73 temporadas e 59% de aproveitamento.

Mas nos últimos 20 anos, ou seja, desde o draft de Tim Duncan e de Greg Popovich assumir a equipe como técnico, os números são ainda mais impressionantes: 70% de aproveitamento. Nesse período, os outros times mais eficientes em vitórias são Mavericks (com 58%), Lakers (56%) e Heat (56%), todos com números muito inferiores. Desde 1997, o Spurs passou apenas 48 dias com recorde negativo, ou seja, mais derrotas do que vitórias. Como comparação, o Lakers passou 1007 dias, o Jazz 1009, o Rockets 856 e o Mavericks 905, todas equipes bem sucedidas no período. Essa foi a melhor sequência de 21 anos da história da NBA, melhor até do que o Celtics entre 1956 e 1976, e do Lakers entre 1982 e 2002. As 20 idas consecutivas aos Playoffs são a maior sequência ativa de idas à pós-temporada em qualquer esporte dos Estados Unidos.

Esses números surreais refletem em quaisquer jogadores que tiveram a sorte de começar a carreira no meio dessa incrível jornada de duas décadas. Kawhi Leonard, por exemplo, tem apenas 7 temporadas de NBA, mas já é o dono da maior porcentagem de vitórias em jogos disputados em toda a história da NBA, ganhando 76% de todos os jogos que disputou. Logo atrás dele temos nomes históricos como Magic Johnson (74%), Larry Bird (73%) e, claro, jogadores como Tim Duncan, Manu Ginóbili, Tony Parker e… Danny Green. Todos no Top 10. Danny Green talvez seja o maior indício de quão ridiculamente dominante foi a última década do Spurs: ele não é nada espetacular, mas é um dos jogadores mais vitoriosos de todos os tempos só porque calhou de estar num time que o tornou uma engrenagem eficiente para manter o modelo tático funcionando.

Esse é o motivo pelo qual a temporada atual é tão fora da curva: faltando 7 partidas para o final da temporada, o Spurs está se agarrando pela ponta dos dedos aos Playoffs, perigando pela primeira vez em mais de duas décadas não jogar a pós-temporada – ou fazê-lo sem mando de quadra, o que seria igualmente bizarro. Torcedores mais novos podem achar que o Spurs é simplesmente um time comum, digno de estar ali no bolo do Oeste disputando qualquer coisa entre a quarta e a décima colocação da Conferência. Torcedores mais velhos, no entanto, olham com descrença tentando compreender o que é que deu errado. Alguns fãs mais radicais já dizem que Popovich está ultrapassado, que agora é ladeira abaixo, e que não há mais volta. De qualquer forma, estamos vendo uma ruptura, uma mudança drástica nas expectativas da equipe – e o que é a História senão uma grande sequência de rupturas? Esse Spurs que sofre e teme o futuro próximo é a História acontecendo diante dos nossos olhos. Mas será apenas um lapso ou, de fato, um sinal de novos tempos?


Existe algo no Spurs que não é ruptura, mas constância: a movimentação de bola, o basquete pouco centralizado, a participação de muitos jogadores distintos, o fato de que todos aqueles que participam das jogadas estão ativamente nelas como potenciais arremessadores e não como meras distrações para a jogada original. Isso faz toda a diferença: ninguém no Spurs se movimenta apenas para cumprir tabela, bater cartão e seguir o plano tático – o fazem com a real oportunidade de receberem a bola, de serem acionados, de serem efetivos se lhes derem espaço. É isso que mantém o time inteiro envolvido, a bola girando, e as defesas enlouquecidas sem saber como responder. Além disso, a defesa segue princípios similares: defesa individual forte, mas muitas trocas de marcação, muita ajuda defensiva, dobras constantes e posicionamento inteligente. Todos esses são valores que tornaram o Spurs uma equipe vencedora e que de certa maneira construíram o ambiente da NBA atual: muitos times QUISERAM ser o Spurs, perceberam a eficiência inegável do modelo e copiaram ao ponto desses princípios serem uma espécie de “língua franca” na NBA, um conjunto de parâmetros que todos os times almejam ou ao menos alegam almejar. Hoje em dia, qualquer técnico minimamente coerente falará em movimentação de bola, distribuição de assistências, coletivo acima do individual, etc, etc. O discurso do Spurs é o discurso que dominou por completo o imaginário de técnicos, comissões e até mesmo torcedores. Tim Duncan e seus companheiros venceram tantos jogos que, aos olhos do público, jogadores individualistas começaram a virar motivo de chacota na NBA. Foi o sucesso sem precedentes do Spurs que criou nosso repertório para discutir eficiência, planejamento de longo prazo e modelos táticos desejáveis. O Spurs, aos poucos, nos ensinou a entender, apreciar e discutir basquete. Ou seja, aquilo que o Spurs sempre fez ainda se mantém inteiramente moderno porque eles definiram, de certa maneira, o que é o basquete moderno. Com uma única exceção: as bolas de três pontos.

Popovich já falou abertamente sobre como não é um fã da quantidade de arremessos de três pontos da NBA atual, mas admitiu que é impossível jogar basquete hoje em dia sem se dedicar a esse tipo de arremesso. Como técnico do Spurs, fez uma série de ajustes para tornar o time mais disposto a chutar do perímetro e não depender apenas das bolas de longa distância da zona morta. Mas ainda assim, ele resiste à tendência: só 3 times da NBA arremessam menos de longa distância do que o Spurs nessa temporada. Na temporada passada não era muito diferente: o Spurs era o sexto time a menos tentar esse tipo de arremesso.

Na temporada passada, o Spurs sobreviveu arremessando tão pouco de fora porque contava com o melhor APROVEITAMENTO da NBA nesses arremessos: acertava 39% das bolas de três pontos, acima de Warriors e Cavs, respectivamente o segundo e o terceiro colocado no quesito, e que viriam a se enfrentar nas Finais da NBA. Ou seja, o baixo volume de tentativas era compensado pelo altíssimo aproveitamento, o que fazia as defesas temerem o arremesso de longe e, portanto, abrir espaço embaixo do garrafão. O que Popovich provou foi que não é necessário manter o volume do Houston Rockets (que tentou 40 bolas de três pontos por jogo na temporada passada, contra 23.5 do Spurs), basta manter o MEDO das defesas de que qualquer eventual arremesso será uma bola convertida. Na prática, o resultado – espaçar a quadra e impedir o “agrupamento” das defesas – é muito parecido.

O problema é que nessa temporada o Spurs está arremessando praticamente o mesmo número de bolas de três pontos (24.1, enquanto o Rockets saltou para 42.5 tentativas por jogo) mas está convertendo apenas 35% desses arremessos, o sexto PIOR aproveitamento da NBA. É por isso que o basquete do Spurs, que sempre pareceu moderno, agora parece mais ultrapassado: com poucas bolas sendo lançadas do perímetro e apenas 35% delas sendo convertidas, o time parece sofrer justamente naquilo que seus principais adversários tendem a dominar. Sem essas bolas, o Spurs tem dificuldade de alcançar no placar times muito ofensivos ou então perde lideranças contra enxurradas de bolas de três adversárias. Fica difícil demais de acompanhar assim os principais rivais de Conferência.

A culpa do aproveitamento mais baixo não parece ser, entretanto, uma questão tática, uma resistência de Popovich, um sinal de que os tempos mudaram. Parece ser apenas uma questão de talento. Sem Kawhi Leonard (que acertava 38% de suas bolas de três pontos na temporada passada e surreais 44% na temporada antes dela) o time perde muito poder de arremesso e, consequentemente, os demais jogadores perdem também espaço para arremessar. O foco em LaMarcus Aldridge, que está salvando a equipe com jogos espetaculares, coloca a bola continuamente perto da cesta ou na média distância, permitindo às defesas adversárias atacarem mais as linhas de passe e contestarem melhor os arremessos. Quando ele está quente, acertando suas bolas, o Spurs ainda parece uma máquina azeitada, mas é evidente que os pontos são mais difíceis e contestados do que aqueles que nos acostumamos a ver na equipe. Popovich recuperou a carreira de Aldridge permitindo que ele desse novamente arremessos por cima de seus defensores, ou então desse arremessos de meia distância dando um passo para o lado, com seus marcadores levemente desequilibrados. São arremessos complexos, de baixo aproveitamento, que Aldridge converte por ser um especialista – não são bolas que pegam a defesa em movimento e, portanto, forçam os defensores a tomar decisões rápidas de cobertura que levam a erros e, consequentemente, jogadores do Spurs livres no perímetro. Aldridge ainda é eficiente, está sendo essencial para o Spurs ter chances de Playoffs e está jogando um basquete espetacular, mas o TIPO de arremesso que ele dá não favorece os demais arremessos do elenco. Num mundo ideal, LaMarcus Aldridge teria sua carta branca para arremessar no caso de jogadas quebradas, descanso dos titulares, trocas de marcação, não como plano principal de jogo, como caminho inevitável da bola. Se o Spurs está jogando dessa maneira nesse momento não é porque isso faz parte do plano de longa duração da equipe, mas porque não há outra maneira – LaMarcus Aldridge é o único arremessador consistente de todo o elenco, falta talento que não seja simplesmente de apoio – e de apoio preferencialmente para um jogador como Kawhi Leonard, que cria muito mais espaços na defesa.

Isso ficou evidente na derrota do Spurs para o Milwaukee Bucks no começo da semana. Depois de 6 vitórias seguidas (que contaram com partidas incríveis de Aldridge, incluindo seus 45 pontos contra o Jazz), o Spurs acabou sendo derrotado pelo Bucks por míseros 3 pontos depois de errar um arremesso de último segundo. Vale dar uma olhada nos últimos dois lances da partida abaixo:

Para se manter vivo no jogo, o Spurs precisava primeiramente parar Antetokounmpo e, logo em seguida, converter uma bola de três pontos. Vejam que, taticamente, a defesa é impecável: Antetokounmpo é bem marcado, com Patty Mills constantemente se aproximando do adversário para ameaçar uma dobra de marcação. A defesa é tão eficiente que o grego acaba passando a bola para Eric Bledsoe, forçando Patty Mills a se recuperar e fechar o espaço. O triste é que Mills não chega a tempo – Bledsoe erra um arremesso muito pouco contestado – simplesmente porque ele não é rápido o suficiente! Kawhi Leonard, que é quem estaria nessa posição ameaçando a dobra de marcação, não está disponível, mas teria chegado com tranquilidade no arremesso de Bledsoe e possivelmente alterado sua trajetória. O que o Spurs faz é todo certinho, mas falta o talento humano para executar com perfeição – Mills nunca foi nem nunca será um grande defensor, não tem as ferramentas físicas para isso, e tenta compensar com sua disciplina. O resto do elenco protege o garrafão com perfeição, garantindo o rebote defensivo.

No ataque, a coisa é um pouco pior: falta um arremessador capaz de criar uma bola de três pontos sozinho, porque todo o exército de arremessadores do Spurs é de apoio, especialmente de zona morta, pronto para receber a bola de um Kawhi Leonard em infiltração, ou de uma dobra de marcação em Aldridge. Dejounte Murray não quer arremessar, procura alguém para passar a bola em transição, mas a defesa não deixa Danny Green livre porque Pau Gasol, que faz o corta-luz, não é uma ameaça ofensiva real, ele nem está OLHANDO para a bola. Murray acaba decidindo arremessar sem encontrar um passe possível e, desesperado, sem sequer aceitar o corta-luz que LaMarcus Aldridge lhe ofereceu. Murray é até que bom arremessador, mas está apenas em seu segundo ano de NBA – é cruel que ele tenha que estar nessa situação porque o Spurs não tem outra opção para escolher. No vídeo acima dá pra ver como Greg Popovich fica REVOLTADO com a má decisão de Dejounte Murray, mas é só porque o time está desesperado, se agarrando aos Playoffs como consegue, e não pode se dar ao luxo de perder um jogo disputado desses. O resto do calendário é dificílimo: Spurs pegará, nas últimas 7 partidas, uma série de times lutando por classificação, como Thunder, Clippers, Blazers e Pelicans, além de ter que encarar o Houston Rockets, líder da NBA. É pressão demais, erros como esse são esperados de um segundo-anista, e mostram apenas que aquilo que falta ao Spurs nesse momento é material humano, jogadores capazes de executar o que já está funcionando há mais de 20 anos.

A ruptura, essa que estabelece uma nova História, se dá em vermos, pela primeira vez, o Spurs despido de um elenco capaz de executar com precisão aquilo que almeja. O baque de perder Kawhi Leonard foi grande, mas tornou-se pior conforme a falta de talento individual do restante do elenco foi ficando mais evidente e as defesas adversárias aprenderam a explorar a ausência e a dificuldade dos arremessadores. A lesão de LaMarcus Aldridge, que é dúvida para a próxima partida contra o Thunder, só tende a explicitar o vazio desse elenco – que deveria estar despencando pelas tabelas, completamente fora da disputa, se não fosse pela modernidade e pela atualidade do plano de jogo que eles, aos trancos e barrancos, executam. O Spurs pode não ir para os Playoffs ou fazer feio por lá, o que seria uma incrível novidade, um marco de um novo tempo – mas ainda acredito que o basquete que o Spurs joga não tem tempo, não tem apogeu nem queda, desde que seus principais jogadores estejam em quadra para executá-lo.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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