🔒O melhor quarto da História das Finais

O primeiro quarto do Jogo 4 entre Cavs e Warriors foi mais do que um atestado de talento e resistência: foi também o melhor quarto já jogado por um time, ofensivamente, em toda a História das Finais da NBA. Nunca antes um time havia marcado 49 pontos num período das Finais e o Cavs atingiu a marca justamente quando seu ataque estava mais desacreditado.

O Cavs dominou o jogo inteiro, mas foi o primeiro quarto que verdadeiramente decidiu a partida. O Warriors perdeu o segundo e o quarto período por apenas 2 pontos cada e o terceiro período por um mísero pontinho, e isso em modo pânico, forçando arremessos estúpidos para tentar desesperadamente cortar a desvantagem colossal no placar. Foi o rolo compressor do quarto inicial que mudou toda a dinâmica da partida e impediu o Warriors de conseguir se recuperar a tempo do fim do jogo.

Como o Cavs conseguiu esse primeiro período perfeito? Quais mudanças táticas aconteceram para que o Cavs terminasse o período inicial com 22 lances livres cobrados, 7 bolas de três pontos convertidas e 58% de aproveitamento nos arremessos? Como Tristan Thompson pegou 3 rebotes ofensivos no primeiro quarto depois de ter somado 3 rebotes ofensivos nas duas partidas anteriores INTEIRAS?

Vamos analisar algumas jogadas desse quarto histórico em busca de algumas respostas. Começaremos com a primeira jogada da partida, que já mostrava claramente qual seria o plano do Cavs para o jogo:

 

Tapinha inicial e já vemos uma diferença: LeBron James abrindo mão da bola para deixar Kyrie Irving como armador, possivelmente para testar como seriam as decisões defensivas do Warriors. Klay Thompson é então o defensor oficial do Irving, um confronto que, como vimos ao longo dessa série, é bastante prejudicial para Irving – lembram do arremesso medonho, pulando pra trás, que o armador do Cavs teve que forçar no final do Jogo 3 porque não conseguiu criar nenhum espaço contra a dura marcação de Klay? LeBron recebe a bola então e Irving começa a correr pela quadra, recebendo um corta-luz sem a bola de Kevin Love.

A jogada é complexa e continua: Irving corre para o lado oposto da quadra e Klay Thompson, esperto pra caramba, corre pela cabeça do garrafão para encontrar Irving lá do outro lado. Quando chega, recebe um corta-luz longe da bola de Tristan Thompson, mas ainda assim está entre Irving e um possível passe. A marcação foi impecável.

Só que enquanto tudo isso acontecia, JR Smith trocava de lugar com Irving, recebia um corta-luz rápido de Love e arremessava livre em cima de um Stephen Curry em perseguição para converter sua primeira bola de três pontos do período. Pelo segundo jogo consecutivo, as primeiras jogadas do Cavs são para JR Smith – em parte para atacar Stephen Curry, seu defensor, em parte para mostrar ao Warriors que todos os jogadores precisarão ser marcados, em parte para apostar mesmo nas bolas de três pontos.

A segunda jogada do Cavs é um contra-ataque. Vejam como Stephen Curry já começa tudo tentando descobrir onde JR Smith está na quadra, mas já que ele está do lado oposto da quadra, acaba decidindo marcar Kyrie Irving mesmo:

 

O Cavs é muito esperto durante todo o contra-ataque. JR Smith correu para longe de Curry e Irving resistiu à tentação inicial de atacar a cesta pelo meio e se afastou dos defensores do Warriors para ficar isolado contra Curry, a melhor situação que ele pode ter com esses elencos em quadra. Por algum motivo bizarro, LeBron James não subiu para o ataque e portanto Draymond Green está SOBRANDO na defesa, fechando uma possível investida de Irving rumo à cesta. O armador do Cavs resolve simplesmente se aproximar do seu marcador e arremessar com um passo pra trás. Quando a bola entra podemos perceber bem a diferença entre ser marcado por Curry ou por Klay Thompson num arremesso do perímetro.

Percebam que Irving arremessa logo, com apenas 9 segundos passados no cronômetro, mas não correu desesperado rumo à cesta. Controlar o ritmo do jogo é saber acelerar o ataque sem correr para a frente, erro que o Cavs cometeu terrivelmente nas duas primeiras partidas dessas Finais. A jogada abaixo deixa isso bem claro:

 

LeBron James está puxando um contra-ataque e tanto Kevin Durant quanto Draymond Green estão prontos para marcá-lo. Nas duas primeiras partidas, LeBron simplesmente infiltrou à força nessas situações. Nesse primeiro quarto do Jogo 4, o comandante do Cavs esperou Love voltar para o ataque – algo que insisti ser bastante importante no especial só sobre Kevin Love – para acioná-lo livre para uma bola de três pontos porque Zaza Pachulia ainda não conseguiu voltar para a defesa. É um arremesso bem rápido, apenas 5 segundos se passaram no cronômetro, mas não tem ninguém correndo descerebradamente para frente. Love erra o arremesso, mas o rebote longo cai nas mãos de LeBron que pode decidir tentar Love de novo (Pachulia ainda não voltou!) ou então JR Smith na zona morta com marcação atrasada de Stephen Curry. A escolha é por JR Smith, que converte a cesta.

Vimos acima 3 jogadas do Cavs que resultaram em 3 bolas de três pontos – todas, sem exceção, em cima de Curry. É evidente que estamos vendo um plano deliberado do time para a partida. Mas abaixo, vamos ver um REPETECO da jogada anterior que, dessa vez, não acaba em uma bola de três pontos:

 

Mais uma vez LeBron não corre para cima de seus marcadores, esperando Love chegar. Só que dessa vez Zaza Pachulia está na defesa, de modo que ele corre para o perímetro para defender a bola de três pontos que Love ACABOU DE ARREMESSAR. O ajuste de Love é perfeito: ele simplesmente corta para a cesta para receber um passe impecável de LeBron para uma bandeja.

Por que Draymond Green não estava na cobertura para impedir a jogada acima? Essa é a magia da jogada: Tristan Thompson está MUITO LONGE do garrafão, em posição para fazer um corta-luz sem a bola para Kyrie Irving, de modo que Green precisa estar próximo dos dois quase na linha de três pontos para parar um possível arremesso lá. É se movendo sem a bola que o Cavs consegue criar os espaços para a bandeja fácil de Love.

Outra coisa que vale a pena ver nessa jogada é o modo como ela começa: o roubo de bola. O Cavs veio com outro plano defensivo para esse jogo, marcando pressão a quadra inteira e tentando roubar o máximo de bolas possíveis interceptando as linhas de passe. Atacar as linhas de passe é arriscado porque se você erra sempre haverá um jogador COMPLETAMENTE LIVRE para o arremesso. Mas como o Warriors sempre gera arremessos livres de qualquer maneira, me parece que o Cavs decidiu que contestar as linhas de passe de maneira OUSADA valia a pena. JR Smith consegue impedir o passe para Klay e começa com isso toda a jogada que vimos acima.

Outro exemplo dessa escolha defensiva nós vemos abaixo: Draymond Green está MUITO longe do garrafão e mesmo assim tristan Thompson está em cima dele tentando roubar o passe que ele recebe.

 

Essa simples decisão defensiva muda todo o funcionamento do ataque do Warriors. Curry precisa dar um passe mais para trás para impedir o roubo, Green tem que defender sua posição para pegar o passe e o resultado é que TUDO SAI COMPLETAMENTE TORTO e a bola sai pela linha lateral.

Voltemos agora à escolha de deixar Tristan Thompson fora do garrafão no ataque. Vejam na jogada abaixo que ao invés de ficar próximo ao aro para rebotes ofensivos, ele está na linha de três pontos – e é ISSO que lhe garante um rebote ofensivo.

 

Thompson fica em posição para fazer um corta-luz em Curry duas vezes na jogada, uma quando JR Smith vai pra zona morta sem a bola e a outra quando JR Smith volta da zona morta, ainda sem a bola. É na segunda movimentação que Thompson consegue bloquear Curry e Zaza Pachulia precisa contestá-lo num arremesso livre de três pontos. Vejam que o Cavs está jogando com 5 jogadores fora do garrafão, de modo que Draymond Green está marcando Love na zona morta do lado oposto da bola e Pachulia tem que contestar arremessos de três pontos. Quando JR Smith erra seu arremesso, Thompson tem apenas Stephen Curry na sua frente e pode correr para a cesta como um caminhão limpando a neve rumo a um rebote ofensivo em movimento. Se estivesse embaixo do aro teria sido contestado, mas vindo de fora tem visão da quadra e ninguém, além do diminuto Curry, para lhe atrapalhar.

Outra coisa que ajudou Tristan Thompson a pegar rebotes ofensivos foi que a movimentação sem a bola do Cavs criou situações em que Draymond Green teve que sair de sua posição embaixo da cesta, liberando espaço para o rebote. Vejam que maravilha a sequência de movimentações do Cavs antes mesmo do primeiro passe de LeBron James:

 

Primeiro Love finge que vai fazer um corta-luz mas é Irving quem faz um corta-luz rápido para Love correr para a zona morta. Durant e Klay Thompson MAGICAMENTE se ajustam e mantém a marcação, de modo que a jogada não funciona. Mas ela continua, dessa vez com JR Smith fazendo um corta-luz para Irving e Love fazendo outro EM SEQUÊNCIA. Agora sim a defesa do Warriors teve que trocar, com Durant em Irving e Klay Thompson em Love. Só agora LeBron passa a bola para Irving, que imediatamente aciona Love num pick-and-roll que aconteceu SEM A BOLA. A situação é ideal para Love porque Klay Thompson tentou até o último momento ficar em Irving, sendo obrigado então a marcar Love pela FRENTE, não por trás. Para compensar isso, Draymond Green precisa vir na cobertura, fechando um “sanduíche”. Ainda assim Love está perto da cesta o bastante para finalizar e Tristan Thompson, abandonado por Green, pode tranquilamente pegar o rebote ofensivo e marcar mais 2 pontinhos.

Percebam que LeBron não está atacando seus marcadores, ele está apenas vendo seus companheiros se movimentarem para acioná-los nos momentos certos. Vejam como na jogada abaixo LeBron tem TRÊS OPÇÕES de passe e opta, claro, pela mais inteligente delas:

 

A primeira opção é Kyrie Irving na zona morta, livre graças a um corta-luz longe da bola de Kevin Love. A movimentação de Irving é perfeita porque, ao invés de usar o corta-luz para chegar do outro lado da quadra, ele se lembra que Klay Thompson já cortou caminho outras vezes para encontrá-lo com antecedência e então só FINGE que vai atravessar, parando no meio do caminho para correr livre para a zona morta lá por baixo de toda a marcação. LeBron provavelmente não dá esse passe porque a bola teria que passar por Klay e Draymond Green, era arriscado.

A segunda opção de passe é para JR Smith, correndo no lado oposto e usando um corta-luz de Tristan Thompson para chegar no perímetro. Curry faz um ótimo trabalho desviando do bloqueio de Thompson e está perto o bastante para contestar um arremesso, embora não o suficiente para contestar o passe. LeBron olha para essa jogada por um segundo e desiste na hora.

É aí que a terceira opção se apresenta. Tanto Klay quanto Draymond Green estão ocupados com a jogada inteligente de Irving rumo à zona morta. Klay toma um susto quando chega do outro lado e Irving não está lá e bate em disparada atrás do armador, esquecendo que após o corta-luz Kevin Love deu um passo para trás rumo ao perímetro. Green até tenta avisar Klay, mas não dá tempo. Love dá um arremesso de três completamente livre e certeiro.

Mas não é porque LeBron não está infiltrando que a defesa do Warriors desliga o plano defensivo focado em pará-lo. Na jogada abaixo, Durant e JaVale McGee dobram momentaneamente para impedir LeBron de cortar para a sua direita e aí Richard Jefferson corta para a cesta – algo inesperado, que o Cavs não costuma fazer, e que Love fez também naquela jogada que analisamos acima para receber a bola nas costas do Pachulia.

 

Draymond Green dessa vez está inteiro na cobertura mas Richard Jefferson para NO AR como beia-flor ou Dadá Maravilha e aciona Kevin Love na zona morta para outra bola de três pontos.

Admito que parte de mim queria ver Kevin Love dentro do garrafão porque já vimos isso funcionar antes, mas manter 5 jogadores no perímetro e se movimentando sem parar foi excelente para o espaçamento do Cavs, para dar tempo dos jogadores tomarem decisões e para Green não conseguir correr para a cobertura sem deixar alguém livre na zona morta ou no rebote ofensivo.

Mas aqui está o grande diferencial desse quarto do Cavs para o resto da série: mesmo quando tudo isso acima falhou, o Cavs não quebrou jogadas e forçou arremessos, apenas CONTINUARAM SE MOVENDO. Vejam que a jogada abaixo é IDÊNTICA à jogada acima, só que JaVale McGee se recupera a tempo de marcar Richard Jefferson e aí Draymond Green consegue marcar Kevin Love quando ele recebe a bola. O Warriors é esperto, eles aprendem em tempo real, eles se ajustam. Mas o Cavs não parou a jogada aí:

 

LeBron James simplesmente cortou para a cesta para receber um passe de Love e acertar a bandeja mais fácil da sua vida. O mais engraçado dessa jogada, que vale a pena assistir de novo, é a reação de Kevin Durant a tudo isso. Quando LeBron passa a bola para Love, Durant DESISTE DA MARCAÇÃO, desiste da vida, desiste de TUDO, na mais total e completa certeza de que o Love vai forçar um arremesso imbecil e LeBron vai ficar parado na frente dele como SEMPRE ACONTECEU. Quando LeBron corta para a cesta, Durant fica genuinamente CONFUSO.

É assim que se faz um quarto com 49 pontos: jogadas que não quebram, jogadores se movimentando sem a bola o tempo INTEIRO, corta-luz em todos os lugares da quadra, cinco jogadores no perímetro, múltiplas opções de passe para LeBron e arremessos rápidos mas sem correr para a cesta. LeBron terminou o quarto com apenas 2 cestas, mas deu 6 assistências e cortando para a cesta sem a bola cobrou 7 lances livres. Richard Jefferson, batendo para a cesta com ou sem a bola, nunca deixando de se movimentar, cobrou sozinho outros 6. É assustador pensar que o Cavs fez 49 pontos mesmo errando OITO lances livres no quarto.

No Jogo 5 o Warriors terá que assumir que todo mundo no Cavs estará se movendo e provavelmente não veremos Durant desistindo de defender uma jogada só porque a bola deixou as mãos de LeBron James. Mas se a movimentação ofensiva e o controle de ritmo do Cavs mantiverem esse nível, teremos ao menos um conflito parelho entre as duas melhores equipes ofensivas desses Playoffs.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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