🔒[Clube do Livro] “Novo fôlego”, por Bill Russell

O “Clube do Livro” está de volta para assinantes, desta vez homenageando o ex-jogador Bill Russell, falecido no dia 31 de julho deste ano. Dentre os diversos livros de que foi co-autor, optamos pelo seu livro de memórias intitulado “Second Wind: The Memoirs of an Opinionated Man”, lançado em 1979. Resultado de centenas de horas de conversa com o escritor (e ganhador do prêmio Pulitzer) Taylor Branch, as memórias de Bill Russell abordam uma infinidade de temas, da sua infância à aposentadoria, passando por sua visão sobre os esportes, cultura e racismo. Para essa tradução – dado que o livro não possui versão em português e encontra-se esgotado no original em inglês – optamos pelo terceiro capítulo, em que Russell fala sobre o papel que os esportes desempenham na sociedade. Além da relação direta com nosso grande interesse – o basquete -, o capítulo funciona como uma oportunidade de espiar muitos elementos que tornavam Russell tão especial: sua vontade de mudar o jogo, sua necessidade de entender o sentido e as motivações daquilo que fazia, sua preocupação com justiça racial, pouca paciência com a hipocrisia, capacidade de autocrítica e, claro, as infinitas anedotas que envolvem alguns dos mais importantes nomes da história do esporte. Mesmo ao falar de basquete, Russell salta de um assunto para o outro com maestria, falando sobre a influência do dinheiro e da televisão, o racismo velado dos donos de times e os riscos de um esporte organizado demais que sufoque nossa juventude. Esperamos que gostem do capítulo escolhido, e não deixem de nos enviar seus comentários e perguntas para a gravação do podcast especial do “Clube do Livro” que será realizada na semana que vem. Boa leitura!


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Novo fôlego: As Memórias de Um Homem Convicto

por Bill Russell e Taylor Branch (com tradução de Danilo Silvestre)

Capítulo 3: Esportes

Eu costumava ter crises de preocupação volta e meia a respeito da utilidade do basquete. Na verdade, cheguei a duvidar dos méritos de qualquer esporte. “É só um jogo”, eu seguia dizendo a mim mesmo, e existiam muitas pessoas que também se sentiam dessa mesma forma. Como algo tão lúdico e infantil como um jogo pode ser importante? Quando eu era uma estrela do basquete, um carpinteiro ou um médico me bajulavam e eu ficava constrangido porque pensava que o que eles faziam era de verdade. Mas então li um livro de um escritor inglês que disse que a guerra era apenas um jogo. Alguns pensam que amor é só um jogo. Em Wall Street existe um jogo chamado Mercado de Ações. Praticamente todas as coisas parecem jogos de algum ângulo, então talvez esportes não sejam tão frívolos assim, afinal de contas. Se Shakespeare pode comparar a vida com um palco, talvez não seja tão absurdo acreditar que parte da peça possa acontecer numa quadra de basquete.

Alguns atletas tentam entender qual papel os esportes desempenham no mundo, onde se encaixam, e como deveríamos pensar a respeito deles. Eu costumava conversar com Bob Cousy sobre isso e comparar nossas ideias com jogadores de futebol americano como Jim Brown e Bernie Casey. Se somos atletas profissionais, é preciso perguntar para nós mesmos do que se trata exatamente essa profissão. Não é uma questão simples. Se uma criança pesquisar sobre qualquer outra área, dos bombeiros aos políticos, aprenderá os motivos dessa área ser necessária e encontrará muito material a respeito, mas não vai encontrar nada muito claro a respeito de esporte ou de atletas. Não existe nenhuma filosofia do esporte digna de nota. 

É natural que pessoas fiquem curiosas a respeito dos seus próprios trabalhos, especialmente aqueles como eu que tropeçaram nos esportes enquanto rumavam para uma carreira comum. Pense a respeito: você está marchando pela vida, em direção ao seu escritório ou às docas, e de repente você acorda e se encontra prestes a correr pela quadra do Boston Garden num jogo valendo título em rede nacional de televisão. Você já vomitou nos vestiários, e seus companheiros de time têm um olhar atordoado, como se percebessem que estão prestes a ser atropelados por um carro e não pudessem evitar. Até Red Auerbach está quieto; a situação está tensa nesse nível. Enquanto você espera lá, tremendo no próprio suor, dá pra literalmente sentir a energia emanando dos torcedores nas arquibancadas. Pessoas perfeitamente respeitáveis estão gritando e urrando, se comportando de uma maneira que nunca ousariam em qualquer outro lugar. Eu costumava brincar que se você pudesse engarrafar todas as emoções liberadas num jogo de basquete, teria ódio suficiente para lutar numa guerra e alegria o suficiente para evitar uma guerra. Como jogador, você está prestes a fazer das tripas coração em sequências de corridas frenéticas de 8 ou 9 metros. O presidente dos Estados Unidos mostrou interesse no resultado da partida, e casas de apostas arrecadaram milhões de dólares. E enquanto você tenta descansar no seu  próprio casulo particular antes da ação começar, em geral há um momento em que você se pega tentando entender como tudo isso aconteceu.

Do modo que eu vejo, o mundo dos esportes está em excelente companhia, com uma herança nobre. É um dos Quatro Grandes. Apenas quatro tipos de eventos – política, religião, artes e esportes – são capazes de consistentemente atrair grandes massas de público pagante ao longo da história. Isso deve significar alguma coisa. Das primeiras Olimpíadas gregas, aos gladiadores no Coliseu romano, até aos jogos tribais na África, esportes conversam com algo profundo dentro das pessoas. Esportes foram negligenciados por historiadores, mas são populares desde que existem jogadores e espectadores, e ao contrário das outras três áreas, atraem pessoas basicamente por conta do entusiasmo. Em qualquer show, igreja ou evento político, você verá muitas pessoas comparecendo por obrigação. 

Em todos os eventos dos Quatro Grandes, regras são cruciais. Na política temos regras criminais, regras de impostos, regras internacionais, e as regras de guerra. Na religião temos de tudo, de regras sobre comida e sexualidade até regras sobre como adorar aos deuses. Nas artes temos as convenções dominantes na poesia, música, literatura e cinema. Essas regras servem a diferentes propósitos em cada área. Na política, luta-se pelas regras e novos governos são eleitos para mudá-las ou defendê-las. Uma revolução produz todo um novo livro de regras que muda até mesmo o modo de se lutar pelas regras. Na religião, as regras são aquilo que você é incapaz de seguir. Na arte, as regras podem ser aquilo que você ignora ou viola para criar algo novo e único.

Nos esportes as regras tornam tudo justo. Todo mundo aceita os objetivos do jogo conforme estabelecidos pelas regras, além do modo com que o jogo é jogado. Apenas quando todas as perguntas sobre os fins e os meios são respondidas temos realmente um jogo. Esportes precisam ser justos; a justiça é sempre sucinta e exata, de acordo com as regras, e responde a todas as questões necessárias e nenhuma além. Pelo menos é isso que dizem os árbitros.

Existem disputas ocasionais, entretanto. É por isso que temos fotos de managers de beisebol chutando árbitros na canela, e é por isso que passei anos assistindo ao Red Auerbach gritando com árbitros com suas veias do pescoço saltadas, grossas como cordas. Crianças ficam tão bravas e indignadas que não conseguem jogar; uma delas pega sua bola e vai embora pra casa, ou um jogador briga com outro. No esporte há uma linha tênue entre ordem e anarquia. Discussões sobre justiça, embora intensas, tendem a ser simples, com vários palavrões e xingamentos. Podem levar a muito blá blá blá, mas logo se encerram. Mesmo com milhões de dólares em prêmios estando em jogo, discussões sobre como interpretar uma regra quase nunca colocam um esporte em si em risco. Fãs podem gritar “Nóis fomo robado!”, mas eventualmente todo mundo aceita o resultado de um jogo da maneira que foi declarado. 

Regras abrem portas no mundo dos esportes. Elas são fronteiras, pontos de partida, molduras de referência. Resolvem vários dos mais difíceis problemas da vida comum ao determinar o que é justo e real. Tudo que está fora das fronteiras não é real e você não precisa prestar atenção a essas coisas. As regras controlam todo o espaço e os movimentos dentro de um jogo, e em muitos esportes controlam o tempo também. É possível pedir uma pausa e parar o relógio, mas quando a pausa acabar, você pisa no mundo real onde as regras se aplicam e todo o resto desaparece. Nos perdemos no espírito do jogo, seja jogando ou assistindo. Se for um esporte rítmico como basquete, pingue-pongue ou tênis, logo absorvemos o ritmo do jogo. De um lado para o outro sobre a rede, ou pra cima e pra baixo no quique da bola no chão. Às vezes é lento e manso o bastante a ponto de nos hipnotizar. Então de repente o ritmo muda para uma velocidade estonteante e há um longo instante de tensão. Será que ele vai conseguir? Então vem a resposta, e o ritmo muda de novo.

Não importa qual o jogo, cada um tem sua própria personalidade. As regras criam seus personagens. Podemos ver como o esporte se encaixa na totalidade das coisas ao comparar cada abordagem única das regras com aquelas da política, religião e arte. Os esportes podem ter pausas, mas guerras possuem tréguas e arte tem seus intervalos. A diferença principal entre os quatro é quão grande é o período de tempo com que cada um deles tenta lidar. Religião abocanha o maior pedaço que podemos imaginar – a eternidade – e pega para si. Tempo é algo endêmico em todas as religiões; elas sempre consideram o longo prazo. A arte é parecida em sua abordagem; o artista pode até não falar a respeito, mas busca a imortalidade e as “verdades eternas”. Até mesmo em política estamos lidando com longos períodos. Por quanto tempo durarão os princípios básicos da Constituição? Muito tempo.

O esporte tem o ponto de vista mais curto. Nada dura muito mais tempo do que uma temporada, e a unidade básica de tempo é o momento. Fãs de esporte e jogadores apreciam cada instante; a relíquia para o esporte é um “grande momento”. Os únicos do esporte que se dedicam em pensamentos de longo prazo são os estatísticos e os obcecados em recordes; eles tentam tornar maior cada momento dos esportes ao comparar com outros momentos do máximo de modos possível. É assim que ouvimos sobre “O Máximo de Rebotes em Um Quarto de um Jogo das Finais na NBA – 19, por Bill Russell, no jogo Boston Celtics vs Los Angeles Lakers, no dia 19 de abril de 1962”, ou sobre “O Maior Número de Eliminações por Strike de um Rebatedor Canhoto num Jogo da World Series”. Esses recordes dão um pouco de imortalidade para praticamente qualquer confronto, com o tempo sendo picotado em milhares de pedaços minúsculos, de modo que quase todo momento possa ter um recorde atrelado a ele. Mas assim que um recorde é quebrado, podemos esperar que seja seguido por um outro recorde quebrado. Recordes seguem em frente, da mesma maneira que o próprio tempo.

Esportes não apenas pegam pedaços menores de tempo como também pegam pedaços menores de verdade. Artistas ou professores de literatura falam com convicção sobre como “a Arte é a verdade”. Não estão se referindo a um pedacinho oscilante da verdade: querem dizer A verdade. Líderes religiosos dizem a mesma coisa, assim como políticos (“Cremos que essas verdades são auto-evidentes…”) [1]Trecho da “Declaração de Independência dos Estados Unidos”.. Esportes possuem uma abordagem mais humilde; a única verdade que eles proclamam é o placar, que por sua vez muda o tempo todo. O placar “final” dura apenas até o próximo jogo. Essa humildade tem um efeito libertador. Por conta dos esportes não afirmarem nenhuma verdade grandiosa, as pessoas podem dizer qualquer coisa que quiserem. Esportes são a terra do exagero, e quanto maior for a lorota, mais as pessoas gostam. Você pode ter “O Jogo do Século” toda semana, e você pode dizer “Não há amanhã” no calor das finais, e tudo que acontece é os espectadores ficarem um pouco mais nervosos com o resultado. Pense na reação que causaria o Papa ou o Presidente dos Estados Unidos anunciarem que não há amanhã.

Nos esportes, exageros que em outro lugar seriam ameaçadores ou enfuriantes parecem humorísticos. “Sou o melhor de todos!”, gritou Muhammed Ali. As pessoas podem concordar ou não, mas há um riso sutil que perpassa a coisa toda. Ou Babe Ruth [2]Jogador de beisebol considerado por muitos o melhor de todos os tempos e que popularizou o “home run”, mudando o modo como o beisebol era visto e jogado., apontando para a parede do estádio à sua direita antes de uma rebatida e então acertando um home run bem ali, e o gesto se tornando parte da mitologia do beisebol. “O Rei da Pancada” conseguia acertar a bola e enviá-la a uma légua de distância. No campo, os esportistas podem ser arrogantes e se comportar como crianças. Podem até ser meio doidos; na verdade, eles provavelmente precisam ser meio doidos. E está tudo bem, porque não machuca ninguém. E o motivo de não machucar é porque tudo isso acontece no mundo dos esportes, em que nenhuma verdade rígida precisa ser respeitada.

O atleta ou fã pode inventar apelidos, marcas registradas ou excentricidades; o céu é o limite. Esportes são tão fundamentalmente despretensiosos que as pretensões mais loucas parecem engraçadas. Todo esporte tem um elemento de humor, talvez por ser tão obviamente ridículo estar lá derrubando outro homem, pulando um obstáculo ou tentando enfiar uma bolinha branca dentro de um buraco com uma vareta. Até mesmo alguns dos apelidos dos jogadores parecem querer nos divertir: Earl “A Pérola” Monroe [3]Earl “The Pearl” Monroe, no original., “Desorientado” Dean [4]“Dizzy” Dean., “Alto Demais” Jones [5]“Too Tall” Jones., “Raio Doce” Robinson [6]“Sugar Ray” Robinson., “O Gordinho de Minnesota” [7]“Minnesota Fats”., “Papaizão” Lipscomb [8]“Big Daddy” Lipscomb.. Dá pra continuar infinitamente. (Apenas nos esportes republicanos, como golfe, existe uma tendência aos nomes banais). Todo nome bizarro é um seguro contra a presunção.

Penso em todos os esportes como uma mistura de arte e guerra. A mistura muda em diferentes esportes, mas sempre está lá. A arte fica muito evidente num esporte como ginástica feminina, um esporte de dança e corpos esculturais, mas posso afirmar depois de ter visto vários atletas olímpicos que aquelas jovens garotas são tão competitivas quanto qualquer boxeador. Elas estão lá para vencer, e afiariam seus dentes na trave de equilíbrio se isso fosse ajudar.

Olhando para todos os esportes nessa escala entre arte e guerra, sempre pensei no basquete como estando no lado artístico, mais um balé do que um combate. Mas é claro que cada atleta tende a dar mais ênfase às qualidades artísticas do seu próprio esporte. Ainda assim, quando vemos Julius (“Doutor J.”) Erving voando pelo ar por baixo da cesta, suas costas arqueadas, seus braços esticados, segurando a bola como uma laranja, e vemos ele realizando uma virada impossível no último instante para enterrar a bola de costas na cesta, dizemos que foi um lance bonito. E todo mundo quer dizer exatamente isso, literalmente. Os lances do Doctor J. [9]Julius “Doctor J” Erving. são bonitos da mesma maneira que os saltos de um patinador no gelo são bonitos – ou até mesmo como pinturas são bonitas.  A forma inspira maravilhamento, e os movimentos comunicam algo. Dentre outras coisas, comunicam que Doctor J. é um grande jogador de basquete. (Os movimentos extravagantes são bonitos, mas acho que o movimento mais difícil e artístico é o que quer que seja que Dr. J. fez para tirar seu defensor do caminho).

Em qualquer esporte uma estrela espetacular será conhecida como um “artista” do jogo. Pelé era um desses no futebol. Quando ele jogava, fotógrafos se concentravam nele para conseguir fotos dele no ar, seus pés, suas jogadas. Jim Brown [10]Ex-jogador da NFL, running back entre 1957 e 1965. tinha o mesmo tipo de graça no futebol americano. Já vi pessoas que não gostam de futebol americano assistirem a vídeos em câmera lenta dele correndo com a bola e ficarem encantadas pela maneira como ele fazia isso. Se existe uma maneira ideal da mente controlar o corpo, Brown sabia qual era.

Num contra-ataque no basquete, a bola passa pelas mãos de três jogadores correndo em máxima velocidade – zip! zip! zip! zip! – e por fim para o homem inesperado cortando embaixo da cesta num ângulo improvável, que então sobe e converte a cesta numa bandeja usando a tabela, enquanto o corpo inteiramente esticado de um jogador de defesa pula em direção à tabela apenas meio milímetro longe demais para tocar a bola antes dela mergulhar pra dentro da rede. Tudo isso em dois segundos. Através de velocidade, olhos, mentes e coordenação, os três jogadores de ataque controlaram a bola de forma que ela chegasse na rede de um dos milhões de possíveis ângulos e alturas; da mesma forma, o jogador de defesa percebe tudo isso instantaneamente e insere sua mão no único ponto em todo aquele espaço em que ele possa interceptar a bola se o timing for perfeito. A jogada inteira tem uma beleza coletiva. (Minha opinião é que a jogada teria sido ainda mais bonita se o defensor tivesse dado um toco no arremesso, mas sou suspeito para opinar).

Existe uma beleza individual e coletiva em todos os esportes, mas muito dela está escondida do espectador menos sofisticado. Não dá pra apreciar a arte de um “hit-and-run” no beisebol a menos que você reconheça um. Muitos dos mais difíceis movimentos do basquete acontecem longe da bola, onde ninguém os enxerga e nem os entende. Há até mesmo alguma arte em todo aquele rosnado, escavamento de buracos e remeximento de terra que os gigantescos lineman no futebol americano fazem, creio eu, embora talvez suas mães sejam as únicas pessoas capazes de realmente dar valor pra isso.

É possível mudar a mistura de arte e guerra em qualquer esporte mudando suas regras sagradas. Vamos imaginar que em outro tempo e em outro mundo, Florence Nightingale [11]Florence Nightingale (12 de maio de 1820 – 13 de agosto de 1910) foi a fundadora da enfermagem moderna. de repente tenha se tornado Comissária da NBA. Para eliminar toda violência do basquete e recompensar o talento artístico, ela bane os dois pontos automáticos de cada cesta e institui um painel de juízes para dar pontos de acordo com a beleza de cada cesta marcada. Doctor J. pode ganhar dez pontos por um de seus cata-ventos voadores, mas apenas um ou dois pontos por um arremesso “sujo” vindo de um rebote. Mas ainda há hostilidade demais no jogo, então a Comissária Nightingale elimina o placar. Todas as jogadas bonitas do basquete devem ser apreciadas pelos seus próprios méritos, ela decreta, independentemente de qual time as tenha realizado. Como consequência, jogos de basquete se tornam exibições de pulos, costurar por entre as pessoas, dribles, saltos e pontaria; jogadores se motivariam apenas com seu amor pela arte. Com todos os elementos combativos removidos, o esporte logo se torna uma forma de dança para jogadores alongados com movimentos peculiares. Wilt Chamberlain e eu voltamos de nossas aposentadorias para retomar nossas carreiras e fazemos um esplêndido pas de deux [12]Um dueto de balé. juntos. Meu arabesque se une à pirouette [13]Passos de balé. dele em algo que lembra os ganchos do basquete competitivo de antigamente.

Fãs curiosos aparecem em largas massas para assistir aos primeiros jogos do basquete reformado pela Comissária Nightingale, estrelando a bizarra mas serena parceria entre Chamberlain e Russell. Mas após algumas performances, a torcida começa a diminuir; o número de torcedores rapidamente despenca. E cai ainda mais quando Wilt e eu desistimos. Ele desiste por não estar sendo pago o suficiente, e eu por não gostar dele ficar pisando nos meus pés. A Comissária Nightingale não dura muito; seu basquete deixou de ser um esporte por completo.

Isso não significa que o basquete nunca deva ser alterado, apenas que cada esporte tem seu próprio equilíbrio e que ele não pode ser adulterado demais. Os aspectos competitivos do basquete não são importantes apenas porque lotam os assentos com torcedores; são vitais porque, uma vez em ação, a arte toma conta de si mesma. Se os jogadores forem liberados dentro das regras, o jogo funciona automaticamente; eles seguirão inventando novos e mais gloriosos movimentos para responder às invenções dos outros jogadores. Tudo que é necessário para coreografar a ação é a bola; apenas jogue ela lá e os movimentos vão ocorrer ao redor da bola onde quer que ela vá. Essa é uma verdade para muitos dos esportes principais: a bola causa a arte por si mesma. Um jogador de beisebol como Willie Mays pode passar a noite toda de pé num pasto desértico chamado de campo central, mas se nada for rebatido perto dele, não vale muito a pena assisti-lo. Assim que uma bola voa para o campo central, no entanto, tudo muda de figura instantaneamente. Ele corre com os joelhos pra dentro como uma pomba, todo concentrado, com centenas de milhares de olhos no estádio colados a ele a cada passo. Os olhos pertencem a pessoas que tiveram seus dias melhorados pela visão do que Willie faz quando alcança a bola. Que pegada!

Idealmente, existe uma harmonia entre a arte e a guerra em qualquer esporte. Mas quando você entra no mundo dos esportes de verdade com financiadores e patrocinadores, grandes contratos televisivos, apostadores, heróis frustrados, palpiteiros, amadores arrogantes, narizes e sonhos quebrados, pouca coisa segue o ideal. Não é difícil imaginar como um esporte possa ficar desbalanceado, principalmente na parte da guerra. Existe sempre pressão nessa direção. Guerra é algo sério, e o esporte sofre sempre que as pessoas o levam a sério demais. Isso acontece quando ex-alunos de uma faculdade querem o pescoço do técnico, o técnico quer o pescoço dos seus jogadores, e os fãs querem o pescoço de qualquer um que encontrarem.

Quando eu jogava basquete profissional, fãs ocasionalmente gritavam comigo. Quando isso acontecia, sempre achava que eles haviam escorregado linha adentro, rumo à guerra. Fã é uma abreviação de “fanático”, e alguns fãs podem se tornar bem extremos. Não importa se é uma rivalidade local no basquete entre escolas de Ensino Médio ou Michigan vs Ohio State no futebol americano, o fanático de verdade aumenta a batalha em sua mente até que ele ame seu time e odeie o lado oposto. De alguma maneira seus valores pessoais são ameaçados. Ele pode cuspir toda essa hostilidade, e depois dizer que era só um jogo.

Essa desculpa sempre me irritou. Se um fã é um constrangimento para a raça humana no Super Bowl, não é porque ele está no Super Bowl – é porque ele é um constrangimento para a raça humana. Assim como o álcool, o esporte não mente. O que eles revelam sobre uma pessoa sob seu efeito estava apenas escondido. As pessoas às vezes usam esportes como uma maneira de não se responsabilizar pelo que eles são de verdade. Um fã sai do controle quando ele quer odiar ou amar algo que não tem nada a ver com esportes. Ele vê a vitória do seu time como um triunfo de quase qualquer coisa de que ele goste – de calças boca de sino aos princípios do partido Democrata – e como uma derrota de tudo que ele odeia. O fã fanático espera que seu time seja como ele próprio. É desse modo que você tem a velha imagem do atleta como um herói completo, justo, certinho e patriótico. A imagem pode ter pouco a ver com o jogador, mas é o que o fã médio quer ver nele.

A identificação dos fãs constantemente seduz os atletas. Durante minha carreira, as pessoas vinham até mim e diziam “Grande jogo, Bill. Quero que meu filho aqui cresça pra ser exatamente como você.” Por muito tempo me senti lisonjeado com comentários assim. Eu sabia que o fã queria dizer que gostaria que seu filho fosse como eu como pessoa, então me achava o melhor ser humano desde Abe Lincoln. E então comecei a me questionar. Aquelas pessoas não sabiam nada sobre minha vida pessoal; eu poderia ser um molestador de criança e eles não fariam ideia. Ainda assim, lá estavam pais dizendo que queriam que seus filhos se espelhassem em mim, ao invés de se espelhar nos pais. Comecei a me constranger com esses comentários; em vez de serem lisonjeiros, me deixavam triste. Com o passar dos anos percebi melhor do que qualquer um que minhas habilidades no basquete e minhas habilidades como pai eram de naturezas muito diferentes.

Esportes inspiram esperanças deslocadas nos fãs – ou talvez um senso de moral deslocado. Eles querem que atletas sejam grandes exemplos – sem fumar, sem se divorciar, sem usar drogas. Na verdade, insistem nisso ao ponto de se recusarem a ver o que realmente acontece. Muitos times profissionais são farmácias itinerantes, por exemplo, com a cocaína sendo a droga preferida. Tanta cocaína é cheirada na NBA que se dez jogadores espirrarem ao mesmo tempo, pode apostar que um ou dois deles perderam dinheiro. A liga abafa os casos de droga por que eles entram em conflito com o que o público quer acreditar a respeito dos atletas. Não acredito que os atletas fora da quadra sejam muito diferentes das outras pessoas da mesma idade, com exceção de serem mais ricos. 

Esportes também dão às pessoas uma desculpa para serem tendenciosos – basta ver nossa “Esperança Branca[14]Termo racista usado quando um lutador de boxe branco tem chances de tirar o cinturão de um oponente negro. na NBA, Bill Bradley e Bill Walton. Há um estardalhaço entre fãs que adorariam ver esses dois jogadores em especial se tornarem “o orgulho da raça” deles. A ironia está no fato de que esses dois jogadores não poderiam estar mais distantes desse tipo de pensamento. Bradley e Walton não tem o menor interesse em ser um símbolo racial pra ninguém, mas esses rótulos são colados neles pelos fãs, e ocasionalmente por um jornalista esportivo.

Racismo por parte da audiência ainda pode ser cruel e desagradável, mas donos de times e técnicos não podem se dar ao luxo de serem racistas se quiserem vencer jogos. Dentro do esporte, o racismo se tornou mais sutil. Ele ainda resiste nas atitudes de certos técnicos e managers que possuem ideias estranhas sobre, por exemplo, onde um homem negro deveria jogar. No futebol americano, a posição de linebacker central é normalmente reservada para os brancos por ser uma posição de “liderança”. Nos poucos times profissionais com linebackers centrais negros, o técnico aponta um jogador branco para realizar os sinais defensivos.

Até onde eu sei, nunca houve um offensive center negro no futebol americano profissional. Existem dúzias de caras negros gigantescos em qualquer lugar da linha, mas nenhum deles colocando a bola em jogo. Na cabeça dos técnicos, o center é uma posição de brancos porque requer intelecto e liderança. O center precisa ter um certo tipo de entrosamento com o quarterback para reduzir o número de “fumbles”, precisa ver o mundo de cabeça pra baixo sem ficar tonto, precisa decorar a contagem do snap perfeitamente, e é o único lineman ofensivo que deveria tocar na bola. Ele não precisa ser o mais forte e nem o mais rápido de todos, mas precisa ser seguro e confiável. Para os técnicos, todas essas qualidades sugerem um jogador branco. E como ninguém nota o center, a NAACP [15]Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor. nunca fará uma comoção para colocar um negro na posição.

No começo dos anos 70 um grupo de pesquisadores de Miami fez um estudo sobre quão tendenciosa era a transmissão televisiva de esportes. Juntaram um grupo de testes de idosos cegos que conheciam pouco sobre futebol americano e pediram que ouvissem os jogos na televisão. Os cegos tinham que adivinhar a raça de um jogador assim que ouviam alguém ser descrito no áudio, e seus palpites estavam certos na esmagadora maioria das vezes. Quando um receiver era descrito como tendo “incrível velocidade”, eles chutavam que era negro. Quando ouviam que alguém “sabia como ficar livre”, eles chutavam branco. Um jogador “seguro” e “com a cabeça no lugar” era branco, enquanto um jogador “quente”, ou “incrível”, ou “intimidador” costumava ser negro.

Quase todo mundo tem uma queixa a respeito da estrutura dos esportes. Alguns dizem que há muita controvérsia cercando o esporte, outros ficam chateados ao não ver sua antiga universidade tentando tanto quanto antes, e outros não gostam dos esportes terem se tornado negócios gigantescos. Recentemente, a maior parte das reclamações é sobre dinheiro. Desde que o empresário musical e do entretenimento Sonny Werblin introduziu os esportes no showbiz ao contratar Joe Namath por 400 mil dólares, as pessoas reclamam que os esportes foram soterrados por dinheiro. Free agents estão ocupados demais indo de um lado para o outro com seus contadores, advogados e conselheiros de investimento para se dar ao trabalho de derramar uma gota de suor que seja quando estão em campo. O problema com o esporte moderno, segundo ouvimos o tempo todo, é a ganância dos jogadores.

Concordo que exista algo pouco saudável nessa tendência, mas não creio que a raiz desse problema seja o dinheiro, pelo menos não mais do que as neuroses gigantescas dos fãs. Não acredito que os atletas profissionais sejam muito mais gananciosos do que costumavam ser. As grandes estrelas sempre receberam salários presidenciáveis. Na última década, a maior mudança nos salários dos atletas profissionais tem sido o aumento para os jogadores medianos e iniciantes. O jogador médio de basquete teve sua renda ampliada ao nível de um bancário mediano, enquanto jogadores de futebol americano e beisebol ampliaram sua renda para o nível de um advogado mediano. O jogador de golfe mediano se sairia tão bem quanto, financeiramente, caso vendesse seguros. Atletas profissionais agora possuem status de homens de negócio, numa carreira drasticamente mais curta do que a maioria das profissões. Atletas lutam por dinheiro enquanto ainda podem, porque sabem que seu ganha-pão pode durar apenas até o próximo tackle, ou até a próxima corrida para a segunda base. Como a maior parte das pessoas, atletas possuem insegurança financeira, e não creio que seus apetites ficaram maiores. Mas o prato ficou; existe mais dinheiro à disposição.

Dinheiro nos esportes tem a mesma função que sempre teve; é pago para os profissionais e dado por baixo dos panos para os amadores. É um para-raios para hipocrisia nos esportes assim como é em qualquer outra área. (Ninguém – artistas, pastores ou funcionários públicos – admitiriam ser motivados pelo dinheiro, ainda que esses profissionais sejam justamente os que recebem os maiores cheques). Esportes amadores são responsáveis por alguns dos mais duradouros e contínuos escândalos dos Estados Unidos. Quando eu estava na universidade, um funcionário da AAU [16]Amateur Athletic Association. me viu saltando um dia e me implorou para competir nos Compton Relays [17]Uma prova de atletismo em Kansas.. “Me diga seu preço”, ele disse. Ele foi descarado nesse nível. No mesmo ano, a AAU de maneira hipócrita puniu Wes Santee por aceitar um dinheiro extra para um evento não sancionado por ela, e ele acabou banido de qualquer competição da AAU pelo resto da vida. 

Dinheiro corrupto me foi oferecido muito antes de qualquer dinheiro honesto. Na universidade, uma grande parte da vida dos atletas era falar com funcionários da AAU e pedir dinheiro extra. A organização em geral levava a melhor nessas conversas porque detinha todo o poder de barganha. Uma vez um maratonista que eu conhecia compareceu a um evento e encontrou seu envelope com 75 dólares a menos do que havia sido prometido, então ele parou de correr a 75 jardas da linha de chegada. Ele deixou clara sua posição, mas não ganhou a discussão.

Uns vinte anos atrás lembro de pensar com carinho nas organizações que controlam os esportes amadores, mas não consigo me recordar o motivo. A NCAA [18]National Collegiate Athletic Association., a AAU e o Comitê Olímpico Americano passam a maior parte do tempo alfinetando uns aos outros, se bicando pra conquistar território, mandando dinheiro pra lá e pra cá e fazendo negócio com as grandes empresas envolvidas nos esportes. Eles baseiam suas existências na ideia de que os esportes só são puros quando não há dinheiro envolvido, e ainda assim ficam à espreita de qualquer propina. Suas reputações estão ancoradas na execução das regras que proíbem o pagamento de dinheiro para os atletas, embora eles próprios não sigam essas regras. Eles nem querem – e nem conseguiriam, caso quisessem, porque o pagamento por baixo dos panos é totalmente disseminado. Violações nas regras de recrutamento nos esportes universitários são como neve nos Alpes – estão por todo lugar e tão brilhantes que você acaba ficando cego e não enxerga mais nada. 

Em 1972 fiz uma cobertura televisiva de basquete nas Olimpíadas de Munique. Por sorte as câmeras estavam focadas nos atletas, porque o que acontecia nos bastidores teria queimado os olhos de qualquer um. Acordos eram firmados praticamente à vista de todos. Era bem sabido, por exemplo, que uma certa fabricante contribuiu com 50 mil dólares (dedutíveis do imposto de renda, claro) para o Comitê Olímpico em troca da promessa de que os membros do time de basquete usassem os produtos dessa fabricante em todos os jogos e treinamentos. Como resultado, um funcionário do Comitê precisava andar de um lado para o outro se certificando de que os jogadores estavam usando os produtos o tempo todo. Os jogadores não gostaram disso pelo simples fato de que não era o melhor equipamento disponível. A fabricante comprou o que ela não conseguiria conquistar por mérito.

Desonestidade desse tipo é abundante nos esportes amadores, e é muito mais incompatível com os ideias esportivos do que os grandes salários. Por natureza, hipocrisia e desonestidade são incompatíveis com o tipo de justiça em que jogadores e espectadores precisam acreditar para que os esportes possam florescer. Um atleta é um artesão, trabalhando ao ar livre, onde todos podem vê-lo suar. Sua performance é sempre exatamente como a enxergamos. Um atleta não pode se apoiar na sua última performance, ou deixar seu time carregar o fardo por um ou dois jogos. Ele não pode fazer corpo mole com o seu diploma universitário. Esportes eliminam pela raiz os preguiçosos.

A hipocrisia dos esportes amadores é ofensiva pra qualquer um que se importe. Pra mim, ser amador é como ser virgem. São ideias antiquadas que têm alguma inocência e charme, celebradas por qualquer um que não seja nem amador e nem virgem. E que não pegam tão bem em gente velha quanto pega nos mais jovens. Não dá pra manter nenhuma delas parcialmente, embora muitos tentem. Estão associadas a fraude e fingimento. E mesmo se você amar a ideia, é impossível não suspeitar quando vemos os devotos membros do Comitê de Castidade dos Estados Unidos cobrando dinheiro público para espreitar seus virgens pecadores.

Outro aspecto do esporte fadado a produzir hipocrisia é o mercado de apostas. Mencione essa palavra para qualquer comissário de um esporte e ele provavelmente vai agir como se estivesse sofrendo de amnésia: “O quê? Quem? O que você disse? Quem sou eu?” O assunto preocupa todos os responsáveis por proteger a integridade dos seus jogos. Eles têm razão de se preocupar, porque apostas oferecem um incentivo para forjar resultados ou entregar partidas. Eles deveriam tentar manter apostas e esporte afastados, mas isso não tem nada a ver com a moralidade das apostas. Os responsáveis por conduzir as principais corridas de cavalo também são os mais interessados em manter as corridas puras e sem interferência das apostas – inclusive, mais interessados do que nos esportes que não envolvem apostas – mas eles não defendem que apostas sejam imorais ou ilegais. Para o Comissário Rozelle da NFL, a história é completamente diferente. Ele testemunhou no Congresso dizendo que apostas são uma praga e que todos no futebol americano profissional deveriam desencorajá-las; se não o fizessem, ele prometeu fazê-los sofrer. Um esportista de verdade nunca se associaria com apostadores, Rozelle afirmou, e forçou Joe Namath a vender um restaurante em Nova York para provar [19]Em 1969, a estrela do futebol americano Joe Namath era dono de um bar em Manhattan que tornou-se associado a mafiosos e apostadores; o então Comissário da NFL afirmou que iria suspendê-lo se não … Continue reading. Rozelle é contra apostas esportivas legalizadas, adotando a clássica opinião das autoridades policiais de que se tratam de corrupção e deveriam ser erradicadas.

Eu pessoalmente não gosto dos grandes apostadores e não tenho nada contra a opinião de Rozelle – exceto por sua hipocrisia. Ele está tentando criar uma imagem dos interesses do futebol americano profissional que simplesmente não casa com a realidade. Deixemos de lado a questão dos donos de franquias, que em dado momento incluíram ex-donos de casas de apostas. Essa é uma área obscura que poderíamos esperar que um Comissário da NFL tentasse evitar. Mas fora isso, é fácil de perceber que a NFL se esforça muito para se dirigir ao seu público como apostadores, não apenas como fãs. Vejamos as listas semanais de contundidos, por exemplo. Nos últimos anos essas listas têm se tornado mais elaboradas. Existem regras rígidas para classificar um jogador como “questionável”, em vez de “provável”. A Liga aplica multas e penalidades aos times que escondem suas lesões. É necessário informá-las corretamente e no prazo. Existem datas limite durante toda a semana. E tudo isso porque essas informações podem ser vitais para os apostadores. Uma ou duas lesões podem tornar o Steelers favorito por seis pontos em vez de sete pontos e meio. Milhões de dólares em apostas podem surgir dessa diferença de um ponto e meio, e é muito importante os apostadores saberem dessas lesões na terça-feira em vez de quarta-feira.

Se os americanos gastam 2 bilhões de dólares todos os anos em ingressos para eventos esportivos, eles gastam pelo menos 50 bilhões de dólares em apostas nesses mesmos jogos. Isso representa muito interesse dos fãs, e Pete Rozelle faz das tripas coração para manter essas pessoas felizes. Ao mesmo tempo, ele condena essas pessoas e o vício que elas tanto amam. Os jornais também jogam dos dois lados mostrando as margens das apostas, os inscritos nas corridas de cavalo e colunas sobre como apostar. É possível ler o colunista comentando sobre como fez uma grana apostando no Lakers ontem, e então passar para o editorial que está numa cruzada contra as apostas.

Apenas uma vez durante minha carreira um grande apostador me abordou querendo que eu entregasse um jogo. Ele falou de maneira casual e indireta sobre a proposta que ele tinha em mente, mas eu sabia onde ele queria chegar. “Você não tem grana suficiente pra isso”, disse a ele.

Esse cara era um dos grandes mesmo, e minha frase lhe ofendeu. “Como assim não tenho grana suficiente?”, perguntou.

“Veja bem”, eu disse. “Eu ganho centenas de milhares de dólares por ano jogando basquete. Durante toda minha carreira devo ganhar mais de um milhão de dólares. E pra trabalhar com você eu teria que arriscar tudo isso, além da minha reputação. É muita coisa – meu futuro inteiro. Então mesmo que eu quisesse acomodar sua proposta, não seria capaz de cogitar isso por menos de nove ou dez milhões por jogo – talvez até mais do que isso. E isso só pra mim. Pra lucrar alguma coisa, você teria que apostar dinheiro o suficiente para o país inteiro vir te caçar.”

Reportei esse incidente para o Comissário da NBA, e embora não tenha dado em nada, ao menos prova algo sobre manipulação de resultados nos tempos modernos: altos salários são na verdade uma proteção adicional contra a corrupção. Um atleta profissional teria que ser maluco para aceitar uma propina nos dias de hoje. Sempre acreditei que os principais alvos dos apostadores são os árbitros. Eles ganham uma merreca, sofrem abusos enormes por parte dos jogadores e dos fãs, e possuem mais controle sobre o jogo do que qualquer um. Mais do que isso, a incompetência normal dos árbitros da NBA serve de disfarce perfeito para a corrupção. Me parece que a NBA fez tudo que podia para manter seus árbitros pobres e incompetentes – e quero dizer que realmente se esforçou muito para isso. Por anos tentei convencer a liga a contratar um árbitro negro e recomendei mais de uma dúzia de ótimos candidatos. Eles sempre davam um jeito de não contratar as pessoas que eu recomendava, mas ao mesmo tempo funcionários continuavam me dizendo que estavam procurando “árbitros negros qualificados”. Eles sempre usavam esse adjetivo: árbitros eram sempre árbitros quaisquer, ou então “árbitros negros qualificados”. Finalmente, de pura frustração, mandei o nome de um árbitro que era famoso por ser um imbecil estabanado, e então a NBA o contratou, claro, e ele era terrível. Não era capaz de diferenciar um livro de regras de um contrarregras, e era uma prova ambulante contra ações raciais afirmativas. Os protestos contra ele eram tão universais que eventualmente me ligaram perguntando o motivo de eu tê-lo indicado. “Me cansei de recomendar ‘árbitros negros qualificados’”, respondi. “Então decidi recomendar um desqualificado pra variar, e foi esse que vocês escolheram”.

Esportes exigem espírito livre, mas não precisam ser gratuitos; sequer precisam ser baratos. Já vi atletas extremamente bem pagos jogando por muito dinheiro mas ainda assim se divertindo mais do que crianças numa loja de doces; também já vi jovens esportistas amadores moribundos como se fossem recrutas obrigados a se apresentar num acampamento militar.

A noção de que atletas gananciosos estão destruindo os esportes profissionais é bem perigosa. Já notei que lemos muito mais sobre isso nos jornais do que ouvimos sobre isso na televisão. A razão dessa discrepância é, como sempre, a fonte da informação. Comentaristas na televisão ganham muito dinheiro; eu sei disso porque já fui um deles. Você ganha cheques enormes por pouco trabalho, enquanto os escritores ganham cheques pequenos por pouco trabalho. À primeira vista, os salários na televisão são chocantes; você começa a acreditar que seu rosto virou algum tipo de diamante raro. Da perspectiva dos sortudos ocupando essas posições, estrelas do esporte não são gananciosas; ganham apenas um salário normal – uns cem mil dólares, mais ou menos um ou dois Rolls-Royce – então não vai ser comum você ouvir um comentarista televisivo grasnando no ar sobre salários escandalosos. Nem passaria pela cabeça dele. Além disso, do jeito com que atletas aposentados estão indo para as televisões em hordas, o comentarista pode estar insultando um dos seus futuros colegas de bancada.

É diferente com os jornais impressos, onde o dinheiro é apertado. Você nunca verá Dandy Don Meredith [20]Uma ex-estrela da NFL que se tornou comentarista esportivo na televisão após se aposentar. na parte de esportes de algum jornal impresso porque jornalistas não ganham dinheiro suficiente.  Eles sabem disso, também, então algum ressentimento borbulha em suas carteiras até chegar em seus cérebros, e por fim até a ponta dos dedos que usam para datilografar. O que o jornalista vê é que após trinta anos manejando sua máquina de escrever, ele ganha o mesmo que um novato qualquer jogando entre a segunda e a terceira base no beisebol, ou cerca de um quarto do que o novato padrão ganha no basquete – mesmo se esse novato nem jogar. O jornalista olha pra esse novato, que tem vinte e dois anos de idade, nem se lembra do presidente Kennedy e tampouco se importa com isso, masca chiclete e carrega um lenço de seda para limpar seu carro zero quando está sujo com as impressões digitais das mulheres, e rapidamente conclui que há algo de podre.

Na maior parte dos esportes, atletas chegam em levas que são muito mais breves do que as gerações habituais; a cada seis anos mais ou menos temos uma nova fornada. Atletas duradouros podem resistir por umas duas gerações ou até mais, mas precisam se adaptar. O que aconteceu nas últimas três ou quatro gerações de esportistas é que seus esportes deixaram de ser uma atividade para os jornais impressos e tornaram-se atividades televisivas. E se os esportes têm cobertura da televisão, os jogadores tendem a ser pagos de acordo com essa escala. A televisão injeta dinheiro, e o esporte naturalmente muda seus padrões em tudo, do pagamento às vestimentas e aos clichês predominantes.

A história do esporte organizado nessas últimas gerações tem girado ao redor das negociações com as redes de televisão. Quando o comissário de futebol americano negociou os primeiros contratos com uma grande rede televisiva, a CBS no fundo estava comprando sua primeira explosão de popularidade nacional. A audiência era tão alta durante esse período que as televisões rivais poderiam ter simplesmente desligado. Elas só passavam reprises. Quando a NFL, percebendo que era uma mina de ouro, se recusou a expandir para outras cidades, um monte de caras ricos formaram uma liga rival, a AFL. Uma vez o time de Lamar Hunt [21]Empresário famoso por promover o futebol americano e o futebol, e por criar o nome “Super Bowl” para a grande final do futebol americano. perdeu um milhão de dólares, e ele supostamente disse aos repórteres: “Bom, se isso continuar assim só conseguirei manter as coisas por mais 60 ou 70 anos”. Mas por mais ricos que esses caras fossem, a liga deles dependia do apoio dos canais de televisão, e a NBC estava feliz da vida de ajudá-la nisso. Novas ligas em outros esportes começaram e acabaram, dependendo de quão bem se saíram na televisão. Apenas o boxe ganhou popularidade depois de ter falhado na televisão, e isso porque a fama de Muhammad Ali cresceu a ponto de se tornar maior do que as televisões e até do que o próprio esporte.

As televisões têm sido a maior influência sobre os esportes, disparado, desde que nasci. Mas embora tenha tornado os esportes mais ricos e imensamente mais populares, ameaça destruir alguns esportes e mudar nossa maneira de ver alguns outros. Mais do que qualquer outro fator, a televisão acelera algumas tendências nada saudáveis – e nem estou falando de dinheiro. Me refiro à tendência de que os esportes sejam controlados por pessoas que tem pouco ou nenhum respeito pela arte presente nos esportes, além da tendência de esportes cada vez mais e mais organizados, a ponto de se perder sua espontaneidade. 

Televisão não tem faro pra nada e nem muita cabeça, mas tem um olhar majestoso que pode realizar milagres. Já que para o espectador a arte é visual, televisão e esportes corporais são um par perfeito. Para um jogo de cartas, não é necessário replay instantâneo, mas agradecemos aos deuses por tê-lo quando estamos assistindo corridas de esqui montanha abaixo nas Olimpíadas de inverno. Milhões de pessoas aprenderam a valorizar jogos antes desconhecidos graças à televisão, dado que seu poderoso olhar pode instantaneamente revelar a beleza visual de um novo esporte. Quem trabalha com televisão sabe disso, e eles não medem custos para explorar isso ao máximo. Muitos dos avanços recentes em tecnologia nessa mídia – replays instantâneos, telas divididas, stop-motion, câmeras de mão, mistura de cores, replays em câmera lenta e muito mais – surgiram simplesmente porque quem os usa procurava novas maneiras do olho capturar a arte presente no esporte.

Seu olhar sofisticado oferece à televisão uma larga vantagem na hora de vender novos esportes, e com isso os executivos tentam construir suas audiências. O desafio é fazer com que uma audiência nacional gigantesca se identifique com um evento. Como você convence um fã de Nova York a se importar com um jogo da Costa Oeste, ou um fã bitolado em hóquei a assistir beisebol? A televisão se retorce para dar a cada jogo um sentido que atraia o grande público. Sendo assim, comentaristas enfatizam o papel dos técnicos em construir times em que os jogadores precisam se encaixar. Fãs talvez não se identifiquem com jogadores que nunca viram antes, mas podem se interessar por táticas e filosofias simples. Por conta disso as pessoas fora do campo se tornaram relativamente mais importantes; executivos, donos de times e até mesmo comentaristas passaram a ser considerados estrelas porque a televisão ajuda a mostrar o que eles fazem.

Historiadores deveriam admitir que a primeira superestrela de verdade no futebol americano profissional moderno não foi Jim Brown e nem Joe Namath, mas sim um técnico – Vince Lombardi. Era uma celebridade em todo o país muito maior do que qualquer um dos seus jogadores – na verdade, mais do que qualquer um que já tenha jogado futebol americano profissional. Lombardi era um comandante militar, o ditador do Green Bay Packers, e os jogadores eram úteis apenas caso se enquadrassem na máquina que ele havia montado. Era uma máquina vitoriosa, e ele levava seus homens ao limite da resistência. Histórias circulavam sobre como ele tirava sarro de lesões e esperava que seus jogadores continuassem jogando mesmo com elas. Ele exigia que seus atletas comessem, bebessem e dormissem futebol americano, com submissão completa e lealdade total à sua disciplina. Quando Jim Ringo, o center do Packers que jogou para Lombardi mesmo com ossos quebrados e furúnculos por todo o corpo, pediu por um aumento, foi imediatamente trocado por insubordinação. Lombardi era frio e cruel – até o momento da vitória final, quando ele e seus jogadores se derretiam e diziam que todo o sofrimento havia valido a pena. Qualquer coisa valia a pena pela vitória. A cidade de Green Bay concordava, e logo surgiu a Avenida Lombardi.

Depois de Lombardi, os espectadores se acostumaram a ver na televisão técnicos espreitando nas laterais do campo. Todos tinham queixos quadrados e pareciam severos em campo, todos com nomes sólidos mas pouco esportivos, e filosofias que podiam ser testadas semanalmente. Técnicos se tornaram as personalidades mais importantes da liga, e analistas televisivos passaram a comentar sobre seus pensamentos, formação, sistemas e o que comiam no café da manhã. Quando seus times se enfrentavam em jogos valendo título, os técnicos eram examinados como se fossem Napoleão e Wellington em Waterloo [22]Confronto militar ocorrido em 1815 entre um exército francês, liderado por Napoleão, e um exército britânico, liderado pelo Duque de Wellington.. A televisão ajudou esportes como o futebol americano a parecerem mais e mais com uma guerra – organizados de cima para baixo, com foco mais nos generais do que na bucha de canhão de baixo patente que faz o trabalho sujo de verdade.

Hoje em dia os comentaristas costumam fazer parecer que um bom jogador é uma extensão da mente do técnico. Ajudam os fãs a fazerem de conta que são técnicos também, e passam o jogo inteiro tentando adivinhar o que vai acontecer, comparando o que acontece em campo com as teorias e os planos de jogo. Com isso, a maior parte dos atletas é avaliada de acordo com sua capacidade de seguir instruções. Um jogador de basquete pode infiltrar e fazer uma bandeja inspirada e artística, mas o narrador dará um jeito de reduzir isso a uma parte da estratégia do técnico: “Sim, caros fãs, o Pezão certamente executou bem a estratégia do Técnico Cuidadoso de infiltrações rápidas, mantendo vivas as opções de passe ou buscando arremessos de alto aproveitamento”. Esse tipo de propaganda das estratégias dos técnicos é sufocante, e é nadando contra a corrente que esportes sem técnicos tão aparentes – como tênis, golfe e os Jogos Olímpicos – se tornaram mais populares. Igualando as demais coisas, o lado artístico de qualquer esporte florescerá sempre que os jogadores tenderem a dominar o jogo. O lado combativo do esporte florescerá mais sempre que os técnicos e outros não-jogadores dominarem. E os fãs ficam num vai e volta quanto ao que preferem. Durante a era Lombardi e a guerra do Vietnã, um esporte violento, o futebol americano, se tornou ainda mais combativo e popular. Desde o fim da guerra, beisebol parece estar voltando. Beisebol é um esporte dos jogadores, com estrelas, peculiaridades individuais e toques artísticos.

 

A tendência nos esportes modernos é de mais organização e “significado”, especialmente para aqueles que não jogam. A televisão não causou isso, mas certamente ajudou. Isso é algo maior e mais profundo do que só busca pelo dinheiro. Pensemos no beisebol da Little League [23]Organização responsável pelo beisebol e softball juvenil nos Estados Unidos., por exemplo. Lembro de ir num jogo da Little League em 1964, quando meu filho de sete anos de idade estava pensando em jogar. Fiquei horrorizado com o que vi. Espectadores gritavam com os técnicos, e os técnicos gritavam com os jogadores. Pais xingavam seus próprios filhos, e discutiam entre si sobre quem deveria estar jogando e quem deveria estar no banco. E os managers! Cada um deles tinha um sistema de jogo; todas aquelas crianças de oito anos de idade rebatiam e defendiam do mesmo jeito, olhavam para os managers do mesmo jeito e até corriam pelo gramado do mesmo jeito. Elas não tinham escolha; com toda a pressão do técnico e dos pais nas arquibancadas, conformidade é o caminho mais seguro. As crianças eram peões. O jogo de verdade ocorria entre os pais e os managers, e essa disputa não tinha muito a ver com esporte. Os próprios jogadores tinham pouca oportunidade de serem crianças; eram tão organizadas, pressionadas e disciplinadas pelos não-jogadores que suas imaginações ficaram atrofiadas. Não eram capazes de experimentar e inovar, brincar e tentar novas coisas, ou desenvolver uma visão de si próprios como artesãos. As pessoas de fora roubaram o espetáculo. 

Meu filho não jogou beisebol na Little League, e falo isso com orgulho. Parte da minha aversão por organização vem da minha própria experiência na infância. Quando era criança, não existiam muitos times ou técnicos de basquete disponíveis, e quase tudo que cercava o esporte era desorganizado. Havia bastante espaço para brincar, não apenas jogar. Tentávamos sozinhos pra descobrir o que era divertido e o que dava certo. Minha confiança no meu basquete veio muito antes de eu ser treinado seriamente, e foi muito importante quando o jogo se tornou minha profissão. As conquistas de que tenho mais orgulho são as inovações que ajudei a introduzir na maneira com que jogamos basquete hoje em dia; tocos, defesa ativa ao invés de passiva, ideias sobre a geometria horizontal ao redor da cesta. Não acho que teria pensado em inovações desse tipo se tivesse crescido jogando da maneira com que a Little League é hoje.

São os jogadores, não os técnicos, donos de time e comentaristas, que oferecem arte aos esportes. Todo bom jogador deveria pensar que pode ser capaz de mudar o jogo, e deveria ter orgulho de ser um artesão e prazer com aquilo que faz. Na maioria dos esportes profissionais, os melhores esportistas são muito pouco ortodoxos. É por isso que eu gostava tanto de jogar contra Wilt Chamberlain. Tínhamos abordagens diferentes a respeito do jogo e ambos sabíamos disso, mas essas diferenças vinham de dentro, não dos nossos técnicos. Claro que ainda existem jogadores estilosos no esporte, mas hoje em dia ouvimos muito mais sobre as ideias inovadoras dos técnicos.

Joguei numa época em que jogadores de basquete pensavam em si mesmos como atiradores, e andávamos por todo lado desafiando uns aos outros. KC Jones e eu dirigíamos até Los Angeles aos fins de semana apenas pra encontrar algum jogo. Histórias sobre duelos se tornaram lendas entre os jogadores. Uma vez Wilt Chamberlain dirigiu até a casa de Elgin Baylor em Washington, D.C., para um jogo. Elgin montou um time pra Wilt, e então o time de Elgin venceu o de Wilt o dia inteiro e a noite inteira. Perguntado sobre como conseguiu isso, respondeu: “Bom, os jornais na Philadelphia disseram que Wilt e quatro cheerleaders venceriam qualquer um – então dei pra ele quatro cheerleaders.” De puro orgulho e teimosia, jogadores naqueles tempos aceitavam desafios de qualquer um – até de um escritor num jornal.

Se você fosse um atirador no basquete, treinaria seu jogo da mesma maneira com que se treina o saque da arma, e se preocuparia o tempo todo em desenvolver novos truques e estratégias. Também se preocuparia com o que o adversário bolaria. Mesmo num esporte coletivo, todo jogador precisa ver a si mesmo como um artesão.

Não é segredo algum que não acredito que existam muitos artesãos no basquete profissional moderno, mas isso talvez tenha a ver com o fato de que artesãos em qualquer profissão são difíceis de encontrar nesse país, dos mecânicos de automóvel aos produtores de vinho. Para ser um é necessário ampliar suas habilidades e ter orgulho das próprias criações. Sempre que encontro um verdadeiro artesão, tenho a sensação de que a vida deles é tão doce quanto pode ser.

Talvez esse artesanato nos esportes esteja se tornando obsoleto pela mesma razão com que saiu de moda em todos os outros lugares. Talvez seja uma melhor preparação para a vida se os membros da Little League aprenderem a tolerar e obedecer seus técnicos em vez de descobrirem os esportes sozinhos e aprenderem a usar suas imaginações para entreter a si mesmos. Mas não acredito que essa seja a natureza dos esportes, e não creio que as televisões ou a Little League contribuam muito com o que resta de saudável nos jogos.

O recrutamento não ajuda. Nos últimos anos, conforme a Little League e as ligas infantis de futebol americano se tornaram grandes organizações, técnicos estão começando a encontrar bons prospectos cada vez mais jovens. Um técnico universitário de basquete sobe ou desce dependendo de quão bem recruta jogadores do Ensino Médio, um técnico do Ensino Médio está sempre estudando prospectos do Ensino Fundamental, e os técnicos de Ensino Fundamental estão estudando as crianças mais populares das ligas infantis. Como resultado, um bom jovem jogador tem fumaça soprada em sua cara por adultos desde que sua puberdade começa. Técnicos lhe dizem que pode ter tudo que quiser. Se um garoto consegue manter a cabeça no lugar depois de se tornar uma superestrela local antes que sua voz comece a mudar, ele é um espécime raro. Na era moderna, jogadores são praticamente encorajados a não assumirem responsabilidade por si mesmos ou pelo que fazem.

Já é difícil o bastante ser um artesão quando as circunstâncias estão a favor, e é mais difícil ainda quando elas não estão. Atletas possuem seus próprios obstáculos especiais na forma dos donos dos times profissionais modernos. A maior parte dos donos olha para os jogadores de um ponto de vista muito distante do bem-estar esportivo. A melhor qualidade deles é que geralmente não afirmam saber ou se importar com o jogo; apenas exigem vitórias dos seus técnicos. Um novo tipo de dono tem surgido, principalmente no basquete e no beisebol: o dono egocêntrico. Tipicamente não são ricos como Croesus [24]Rei da Lídia de 585 a.C até 546 a.C, famoso por sua riqueza. com montes de apoio empresarial, são pessoas que enriqueceram sozinhas e construíram impérios moderadamente grandes em algum ramo que carece de glamour, e que optam pelos esportes graças à notoriedade que os acompanha. O dono é mencionado nos jornais e convidado para festas chiques; consegue a permissão pra conviver com atletas, participar das conferências de imprensa, e testar sua teoria de que consegue construir times campeões como qualquer técnico por aí.

Tudo isso é um contraste deprimente com o que existia nos dias iniciais da NBA. Muitos dos donos originais do basquete profissional entraram no jogo apenas porque eram donos ou gerentes de ginásios esportivos e precisavam de alguma outra atração para encher as arquibancadas. Meu antigo chefe, Walter Brown, comandava o Boston Garden e ajudou a fundar a NBA – e acabou se tornando o dono do Celtics. Os amigos dele achavam que ele era maluco. Basquete não era popular naquela época, especialmente em Boston, e mesmo que fosse, Brown não sabia absolutamente nada sobre o jogo. Ele nunca fingiu saber, mas desenvolveu uma obsessão por basquete que apenas uma pessoa que ama esportes poderia desenvolver. O basquete do Celtics quase o levou à falência, mas ele insistiu.

Sempre achei que Walter Brown tinha uma certa nobreza. Não sabia de onde isso vinha. Tinha um gênio terrível e era muito competitivo, mas também tinha um vínculo emocional fortíssimo com a simples ideia de justiça. Se visse injustiça, ou ficava furioso ou desmoronava. Uma história sobre sua raiva me fez perceber pela primeira vez que ele era digno de nota. Antes de eu me juntar ao time, o Celtics contratou Chuck Cooper como o primeiro jogador negro da história da NBA. Abe Saperstein, do Harlem Globetrotters, ficou sabendo disso com antecedência e correu pra ver Brown no Boston Garden. Como o dono, divulgador e “técnico” do Globetrotters, Saperstein gostava de se considerar um benfeitor para todos os negros do esporte. E também acreditava ter um monopólio de todos os atletas negros do país. Com isso em mente, se opôs à contratação de Jacki Robinson na Major League Baseball com o argumento de que isso ameaçava seus times de beisebol inteiramente negros. Saperstein disse a Walter Brown abertamente que, se Cooper jogasse pelo Celtics, o Globetrotters nunca mais colocaria os pés no Boston Garden. Era uma ameaça verdadeira. O Globetrotters era uma grande atração, e naquela época Brown precisava muito mais de Saperstein do que Saperstein precisava do Garden. Ainda assim, Brown, num de seus melhores momentos, disse a Saperstein que ele tinha razão sobre o Globetrotters nunca mais colocar os pés no Garden: eles nunca mais teriam permissão pra isso. Na verdade, ele disse que ficou tão ofendido pela ameaça que nenhum time de Saperstein poderia jogar lá de novo. Ele cumpriu sua palavra, e perdeu dinheiro porque se ateve aos seus princípios. 

Red Auerbach costumava ter crises de raiva porque achava que Brown não brigava o suficiente pelos interesses do Celtics nas reuniões da NBA. Vi os dois discutindo muitas vezes. Walter dizia que precisava fazer sacrifícios “pelo bem do jogo”, e Red revirava os olhos e então explodia. A pior discussão que presenciei foi quando Walter decidiu que teria que votar pelo encerramento do “draft territorial” da NBA, em que cada time tinha a permissão de negociar com um jogador universitário local todos os anos além do draft comum. A regra favorecia demais times de cidades grandes como Boston, Nova York e Philadelphia, por terem muitos jogadores talentosos pra escolher nas universidades da região, e prejudicava times de lugares como Syracuse e Rochester. Red amava essa regra, mas Walter deu o voto que faltava para acabar com ela por achar que a liga ficaria mais equilibrada. Além disso, a regra levava a muita trapaça, como times profissionais tentando influenciar onde jovens prospectos jogavam ou pra qual universidade iam. 

Walter Brown começou no ramo do entretenimento com o Boston Garden. Ele recebia eventos esportivos, festivais de carros, festas, leilões, concertos – qualquer coisa que pudesse entreter o público. Ironicamente, calhou que esse homem do ramo do entretenimento era mais devoto dos esportes do que outros donos, mais interessados no entretenimento. Saperstein abriu as portas. Seu Globetrotters não tinha – e ainda não tem – muito a ver com esportes. Eles mostram alguns movimentos do basquete, mas sempre foram mais um “minstrel show[25]“Minstrel show” era um tipo de espetáculo teatral nos Estados Unidos no século XIX e início do século XX com quadros cômicos, música e dança, em que atores brancos se fantasiavam de negros … Continue reading do que um evento esportivo. É um misto de dança e sátira, transmitindo a insistente mensagem de que os negros são palhaços engraçados e sempre felizes.

Temos que admitir que todo esporte profissional precisa estar no ramo do entretenimento, assim como toda arte rentável também é entretenimento, dos livros às óperas. Isso não quer dizer que seja necessário rebaixar o esporte, como acredito ser o caso do que Saperstein faz. Esportes têm se tornado entretenimento rentável desde Babe Ruth, e desde que os produtores do “Monday Night Football” descobriram que sua audiência dependia tanto dos comentaristas que usavam quanto da qualidade do jogo transmitido. Em busca de algo pra substituir a lealdade pelo “time da casa”, começaram a focar nas estrelas do showbiz. Fãs se identificam com os atletas que desenvolvem um tipo de status e modo de vida pelas quais as estrelas de Hollywood são famosas. Naturalmente, a maior parte dos atletas profissionais gosta da ideia de se tornar uma estrela, assim como os donos dos times. Essa ideia foi levada um passo além pela invenção dos “programas esportivos”, em que elencos ilustres têm performances medíocres em esportes que mal conhecem. Esses programas talvez não sejam entretenimento ruim e nem um investimento ruim, mas não têm nada a ver com esportes.

Muitos elementos parecem atrapalhar os esportes hoje em dia, mesmo nesse período em que eles tomaram o país. Infelizmente, a qualidade de muitos jogos vai deteriorar por conta da pressão do grande público nas televisões, excesso de organização e a mudança natural dos tempos. Se pareço um pouco melancólico, não é por acreditar que não exista mais esperança para o futuro dos jogos. Afinal de contas, o esporte é um dos Quatro Grandes e tem um longo histórico de cuidar de si mesmo. Mesmo que alguns jogos se esgotem ou implodam, outros – joviais e imaturos – brotarão para assumir esse lugar. Alguns jogos serão rejuvenescidos enquanto outros entrarão em declínio, mas esportes persistirão porque as pessoas sempre vão amar essa mistura de diversão e excelência.


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Notas

Notas
1 Trecho da “Declaração de Independência dos Estados Unidos”.
2 Jogador de beisebol considerado por muitos o melhor de todos os tempos e que popularizou o “home run”, mudando o modo como o beisebol era visto e jogado.
3 Earl “The Pearl” Monroe, no original.
4 “Dizzy” Dean.
5 “Too Tall” Jones.
6 “Sugar Ray” Robinson.
7 “Minnesota Fats”.
8 “Big Daddy” Lipscomb.
9 Julius “Doctor J” Erving.
10 Ex-jogador da NFL, running back entre 1957 e 1965.
11 Florence Nightingale (12 de maio de 1820 – 13 de agosto de 1910) foi a fundadora da enfermagem moderna.
12 Um dueto de balé.
13 Passos de balé.
14 Termo racista usado quando um lutador de boxe branco tem chances de tirar o cinturão de um oponente negro.
15 Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor.
16 Amateur Athletic Association.
17 Uma prova de atletismo em Kansas.
18 National Collegiate Athletic Association.
19 Em 1969, a estrela do futebol americano Joe Namath era dono de um bar em Manhattan que tornou-se associado a mafiosos e apostadores; o então Comissário da NFL afirmou que iria suspendê-lo se não vendesse o bar e Joe Namath simplesmente recusou, preferindo se aposentar. Depois de dois meses de negociação, enfim vendeu o bar e voltou à NFL.
20 Uma ex-estrela da NFL que se tornou comentarista esportivo na televisão após se aposentar.
21 Empresário famoso por promover o futebol americano e o futebol, e por criar o nome “Super Bowl” para a grande final do futebol americano.
22 Confronto militar ocorrido em 1815 entre um exército francês, liderado por Napoleão, e um exército britânico, liderado pelo Duque de Wellington.
23 Organização responsável pelo beisebol e softball juvenil nos Estados Unidos.
24 Rei da Lídia de 585 a.C até 546 a.C, famoso por sua riqueza.
25 “Minstrel show” era um tipo de espetáculo teatral nos Estados Unidos no século XIX e início do século XX com quadros cômicos, música e dança, em que atores brancos se fantasiavam de negros (pintando seus rostos) e os interpretavam de maneira extremamente racista. Os personagens negros eram sempre ignorantes, preguiçosos e alegres.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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